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Relatos da Kiss: sobrevivente relembra a dor e as feridas causadas pela tragédia

Desde segunda-feira, o Diário mostra relatos de pessoas que fizeram parte da tragédia da boate Kiss. Nesta quarta-feira, o depoimento é do sobrevivente Gabriel Rovadoschi Barros

Foto: Pedro Piegas (Diário)

Desde a tragédia na boate Kiss, os santa-marienses guardam memórias que gostariam de nunca ter vivenciado. Pais, mães, amigos das vítimas, assim como sobreviventes e pessoas que trabalharam na noite do dia 27 de janeiro de 2013 ainda sofrem com a dor e a lembrança do incêndio, que, para muitos, ainda não teve fim.

Desde segunda-feira, o Diário mostra relatos de pessoas que fizeram parte da tragédia da boate Kiss. Nesta quarta-feira, o depoimento é do sobrevivente Gabriel Rovadoschi Barros. Em 2013, ele tinha 18 anos e cursava Jornalismo na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

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Gabriel conta que, na época, ele era uma pessoa tímida e introvertida. Na noite anterior ao incêndio, ele saiu com os amigos e foi em sua primeira festa, na boate Kiss. Para Gabriel, a festa foi divertida, tranquila, com poucas pessoas. O estudante resolveu, então, voltar no dia seguinte, 27 de janeiro.

- Acho que cheguei por volta das 23h30min. Lembro até de brincar que só na fila já tinha mais gente do que na noite anterior. Quando ainda estava na fila, eu vi amigos do Ensino Médio subindo a rua e entramos na festa juntos. Na primeira noite, eu lembro de ficar em um só lugar dentro da boate. Na segunda, eu circulei bastante, fui para a área da frente do palco, para a área do bar, e na parte central. Lembro que era bastante gente e que estava bem cheio - relata.

Em um determinado momento da noite, dois amigos resolveram circular mais uma vez, mas Gabriel e os outros dois não quiseram ir.

- Poucos minutos depois que eles saíram, a música parou. Esse foi o primeiro sinal que alguma coisa estava acontecendo. Eu lembro de escutar um murmurinho dizendo que era briga e vi todas as cabeças se voltando em direção ao palco.

Gabriel se movimentou para tentar enxergar o que estava acontecendo e percebeu uma pessoa sinalizando para todos saírem.

- Abriu um vãozinho entre as pessoas e me coloquei no meio. Dei poucos passos e a multidão travou porque as portas de entrada estavam bloqueadas. Eu ainda achava que era briga até que a fumaça chegou em mim. No primeiro relance de fumaça, que na minha visão era branca, eu pensei que tinham largado gás lacrimogênio para dispersar o pessoal. Só que no instante seguinte que o pensamento passou na minha cabeça, a fumaça ficou preta, e eu entendi que era incêndio - relembra Gabriel.


Ao perceber que a situação era diferente, ele colocou a camiseta na frente da boca e do nariz, e tentou não gritar para não utilizar o ar, que já estava contaminado pela fumaça. Ele seguiu o fluxo na tentativa de chegar até a saída.

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- Muita coisa do caminho eu não via no momento, primeiro porque a gente estava esmagado e segundo porque quando a fumaça chegou em mim, eu não conseguia mais enxergar. Um pouco antes de chegar na primeira porta, antes do hall, eu lembro de pensar "não vai dar".

Gabriel conta que conseguiu se guiar melhor quando enxergou a luz do poste de rua adentrando a boate. Quando se aproximou da saída, ele relembra, emocionado, que já tinham muitas pessoas caídas no chão.

- Eu lembro de sair em pé, desnorteado, enjoado do estômago. Liguei direto para minha mãe.

Ao entrar em contato com a mãe, ela foi diretamente buscar Gabriel. Na espera, sentado no meio fio, ele tentou entender o que estava acontecendo e se recompor. Decidiu se levantar e procurar os amigos. Não encontrou eles, mas viu uma menina que tinha conhecido na festa da noite anterior. Ela estava machucada e Gabriel prestou ajuda. Ele e a mãe levaram a menina para o Pronto-Atendimento. No local, Gabriel conta que viu pessoas desmaiarem e serem reanimadas.

- Eu lembro de tomar os mínimos cuidados com ela. Tentei tapar os olhos para poupá-la daquela visão, segurei o oxigênio e também falei com a família dela.

Em casa, Gabriel avisou pelo Facebook que passava bem e que aguardava o contato dos outros amigos que também estavam na boate. Tomou alguns remédios para dormir, e, quando acordou, por volta das 11h, recebeu a notícia que dois amigos haviam falecido e outros dois estavam hospitalizados.

TRAUMA

Após 2013, Gabriel trocou de curso e se formou em Psicologia. Após um ano da tragédia, ele começou a fazer terapia.

- Percebi que talvez eu não estivesse bem e vi que algumas coisas não eram culpa minha. É muito chocante ver as nuances de tudo que aconteceu. Primeiro essa emboscada que todo mundo foi submetido, e, segundo, os mínimos passos e detalhes que foram muito precisos para eu sair daquele jeito. É muito complicado conviver com isso. Tem dias que é mais difícil falar porque a cicatriz está mais sensível. Não é nem cicatriz, é uma ferida mesmo, e não sei se isso vai cicatrizar.

A dor e as feriadas do dia são parte da história do psicólogo, que, por muito anos, teve que lidar com o sentimento de culpa.

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- Por muito tempo eu me disse que tinha gente melhor para sair no meu lugar. Quando eu peguei aquele vão no meio da multidão eu senti que eu peguei o lugar de alguém. A gente não tinha noção, era uma briga. Eu me culpei por não ter dado aquele espaço. Hoje, o grupo de sobreviventes acolhe um pouco essa dor porque a gente se identifica com esses pontos. Isso alivia um pouco, mas é longe de uma cura.

Além dos sobreviventes, Gabriel agradece o apoio dos familiares também.

- Os familiares têm uma capacidade de acolher tão forte. Eu me sinto muito abraçado por todos que eu conheci até agora. É uma dor que não passa. Eu espero que o julgamento dê rumo um pouco para essa dor e dê uma direção mais digna. É nítido quem é responsável, isso está escancarado, mas existe um processo que já é injusto pelo tempo de demora. A justiça é um grande medo.

Para o sobrevivente, a tragédia sempre será uma memória difícil para todos que se envolveram de alguma forma. Porém, ele faz um apelo para que a cidade também entenda e acolha.

- Eu gostaria muito que a cidade se mobilizasse, que sentisse que a dor não é só de quem viveu, mas que machucou a história da cidade e feriu profundamente. É muito importante que a gente possa expressar isso em um momento tão sensível, na esperança que a cidade acolha essa dor.

*Colaborou Laura Gomes.


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