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Prédio da boate Kiss, que dará lugar a memorial, não tem previsão para ser demolido

O prédio da Kiss foi desapropriado pela prefeitura em 2017 e as chaves foram entregues à AVTSM que, desde então, é a única que permite o acesso ao local

Jaiana Garcia

Foto: Renan Mattos (Diário)

O prédio da boate Kiss, que hoje abriga os escombros da maior tragédia do Rio Grande do Sul, deve se tornar um memorial em homenagem as 242 vítimas. Em 2018, um concurso promovido pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) e pela Associação de Familiares de Vítimas e Sobreviventes (AVTSM) escolheu o projeto do memorial. Naquele ano, à pedido da associação, o prédio não foi demolido, já que o imóvel poderia ser utilizado como peça de prova no processo dos quatro réus. O julgamento está marcado para ocorrer a partir de 1º de dezembro. Após o julgamento, o prédio pode ser demolido, porém, ainda não há um prazo para que isso seja feito.

- Ainda não temos previsão. Nesse meio tempo tivemos a pandemia, que parou tudo. Precisamos esperar passar o júri, fazer uma nova eleição de diretoria da associação para depois pensarmos nisso - afirma Jacqueline Malezan, 57 anos, integrante da AVTSM e que foi jurada na escolha do projeto arquitetônico.

A construção do memorial estava orçada, em 2018, em R$ 2,5 milhões.

A estimativa é que, agora, a obra custe, pelo menos, o dobro. Isso se dá em função do aumento do preço dos materiais de construção, especialmente durante a pandemia. O valor do ferro, por exemplo, subiu cerca de 140% nos últimos meses.

- A parte burocrática já está concluída. Tem certidão de aprovação da prefeitura. A partir da aprovação do projeto arquitetônico, começaram a ser feitos os projetos estrutural, sanitário, elétrico, de ar-condicionado e dos bombeiros. Está tudo certo, porém, eu defendo que seria melhor conseguir o dinheiro para começar a construção antes de demolir - avalia a arquiteta da prefeitura Lídia Rodrigues, fiscal do termo de cessão de uso entre a prefeitura e a AVTSM, que tem duração de 30 anos.

O memorial, para muitas famílias que até evitam passar na Rua dos Andradas, vai representar uma virada de chave de um cenário de dor para um local de acolhimento.

- Para a cidade é importante. Será um marco para lembrarmos a tragédia e não esquecermos os nossos filhos. Eu não me importo com o prédio. Já entrei lá dentro, inclusive. Mas muitos familiares não conseguem, evitam. Acho que o memorial vai apagar aquela imagem ruim, porque é horrível. Com o jardim vai ficar mais bonito, mais limpo. Talvez, as pessoas que nunca estiveram lá consigam frequentar a partir disso - salienta Jacqueline.

DESAPROPRIAÇÃO
O prédio da Kiss foi desapropriado pela prefeitura de Santa Maria em 2017 e as chaves foram entregues à AVTSM que, desde então, é a única que permite o acesso ao local. Na época, o Executivo municipal também se manifestou, junto ao Sindicato da Construção Civil de Santa Maria (Sinduscon), para auxiliar na demolição.

O prefeito Jorge Pozzobom (PSDB) afirma que o memorial será feito após o julgamento. Isso, segundo ele, é a vontade da associação.

- Quando me entregaram a chave, eu entreguei para o Sérgio, que era o presidente da AVTSM. E disse: "isso é com vocês. A prefeitura não vai se meter. Estava tudo pronto para fazer a demolição do prédio e vir o memorial. A associação falou: "a gente não quer que faça a demolição, enquanto não sair o julgamento". Suspendemos tudo. Eu não ia deixar a minha vontade, como prefeito ou cidadão, ser maior que a da associação - disse.

Respeito, conforto e esperança: o memorial às vítimas da tragédia
O Memorial às vítimas da Kiss pretende ressignificar a área da boate, transformando-a em um lugar de respeito ao passado, conforto ao presente e esperança ao futuro. O arquiteto responsável pelo projeto é o paulistano Felipe Zene Motta, 34 anos. Ele explica que tentou criar um espaço pensando no conforto dos familiares, em que eles se sentissem acolhidos e que tivessem um momento reservado e protegido da rua. Conforme o projeto, da Rua dos Andradas se vê um muro de concreto que bloqueia quase que totalmente a visão do espaço interior. A fachada representa o luto. Ao entrar, em contraste, há um espaço iluminado e florido, o que remete à transformação. No jardim, 242 pilares de madeira representam as vítimas. O projeto funde os conceitos de edifício, memorial e praça em uma intervenção integrada.

- Espero que nunca mais precise me inscrever em um concurso de memorial a vítimas de tragédias. Jamais vou poder sentir o que os familiares sentiram e ainda sentem, mas tentei criar um espaço respeitando esses sentimentos. Eu quis que as famílias tivessem um momento íntimo quando estivessem lá. Dentro não há grandes construções, é apenas um jardim - explica.

Motta esteve em Santa Maria para assinar o contrato do projeto e estabeleceu uma relação próxima aos familiares. Muitos viraram amigos e, desde então, mantém contato com eles. Ele pretende acompanhar a obra de perto, com vistorias pelo menos uma vez por mês:

- O projeto é simples, mas não é trivial, tem algumas particularidades que é importante acompanhar com atenção.

O arquiteto quer atualizar os valores da obra e acredita que a construção possa começar em 2022.

CONCURSO
Quando o incêndio na boate Kiss ocorreu, os médicos sabiam o que fazer, os jornalistas sabiam onde deveriam estar, mas os arquitetos não tinham como ajudar naquele momento.

- O concurso para a escolha do memorial em homenagem às vítimas veio para que a gente pudesse contribuir na ressignificação da tragédia. É importante para a cidade, para a AVTSM, para a memória das vítimas - ressalta a arquiteta Lídia Rodrigues.

Durante o concurso, foram apresentadas 133 propostas de 13 Estados brasileiros. 121 foram entregues ao IAB. Um júri técnico selecionou cinco projetos e um júri popular definiu o vencedor. O concurso foi inédito para o IAB por diferentes motivos:

- Foi a primeira vez que fizemos um concurso com os custos pagos por uma arrecadação pública. Nós definimos as bases, lançamos o edital, o site, recebemos os trabalhos, convocamos a comissão julgadora e divulgamos os resultados. Fomos pioneiros no envolvimento, na etapa final, da sociedade e dos familiares para validar a classificação dos escolhidos. O júri do concurso teve a oportunidade de visitar o interior da boate, e isso foi muito importante para sensibilizá-los na escolha final - relembra Tiago Holzmann da Silva, integrante do Conselho Superior do IAB.

Em um compromisso firmado com a AVTSM, o IAB vai colaborar na etapa de execução da obra e na captação de recursos para a construção. O projeto escolhido foi chancelado pela Organização das Nações Unidas (ONU), o que vai permitir que estrangeiros e empresas internacionais façam doações para colocar o memorial em pé.  


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