plural

PLURAL: os textos de Neila Baldi e Noemy Bastos Aramburú

Coluna traz multiplicidade de opiniões e abre espaço ao diálogo

Quantas violências sofre uma mulher?
Neila Baldi 
Professora universitária

Ser mulher em um país machista significa sofrer violências ao longo da vida. É o colega de escola que passa a mão na bunda ou no peito. É o homem na rua que chama de gostosa ou passa pela calçada falando ao ouvido. É o colega de trabalho que assedia ou que insinua que a promoção ocorreu por algum favor sexual. São muitas as situações por que passamos em nossa existência. Inclusive as de medo de andar na rua à noite, de pegar um táxi ou aplicativo sozinha em determinada hora. De o assalto virar um estupro.

As violências cotidianas podem ser maiores - se é que seja possível mensurá-las - para quem denuncia. A mulher é duplamente violentada quando o criminoso é absolvido ou quando recai sobre ela a culpa pelo fato. Estava fazendo o quê, naquela hora, sozinha? Ah, mas também, com aquela roupa...

CULPADA

Esta semana, a Justiça (?) mais uma vez colocou na vítima o ônus sobre a violência. Em 2019, uma jovem pediu ajuda a PMs, em Praia Grande (SP), ao perder o ponto de ônibus, onde deveria ter descido. Eram 23h40 e os policiais ofereceram carona. Segundo a jovem, no trajeto, um deles a estuprou. A perícia constatou que houve sexo mas o juiz militar Ronaldo Roth, da 1ª auditoria militar, absolveu o PM, afirmando que foi consensual, pois "a vítima poderia sim resistir à prática do fato libidinoso, mas não o fez". Com policiais armados?

Não é a primeira vez que uma mulher é duplamente violentada por decisões judiciais. Ano passado, o empresário André de Camargo Aranha, acusado de estuprar a promoter Mariana Ferrer, foi inocentado. Para a promotoria, não havia como ele saber, no ato sexual, que a jovem não tinha condições de consentir a relação, não existindo intenção de estuprar.

O ESTUPRADOR É VOCÊ

A canção da performance "Um estuprador em teu caminho", do grupo chileno Las Tesis - e que viralizou no final de 2019, com reperformances em várias cidades do mundo - nos lembra destas violências institucionalizadas: "El violador eres tú. Son los pacos, los jueces, el estado, el Presidente. El estado opresor es un macho violador." 

Na prática, nos dois casos citados, a mulher foi revitimizada, pois quem deveria defendê-la, a condenou. Sentenças como essas perpetuam as violências. Não adianta termos leis se o Estado não nos protege. Precisamos de mudanças estruturais, que passam pela educação. Os homens têm que discutir o machismo e compreender que são responsáveis pela continuidade das violências. Toda vez que uma mulher é violentada, - e aqui me refiro a diversas formas de violência - e um homem se cala, ele perpetua o ciclo de violências. É, também, parte desta violência. Por isso, o estuprador é você. 

Os brasileiros saem da selva

Noemy Bastos Aramburú
Advogada, administradora judicial, palestrante e doutora

Recentemente, Alberto Fernández, presidente da Argentina, provocou reações negativas, ao declarar que "os mexicanos vieram dos índios, os brasileiros saíram da selva, mas nós, os argentinos, chegamos de barcos. E eram barcos que vieram de lá, da Europa". A repercussão foi tamanha, a ponto de ter sido repudiada também pelos demais líderes da América Latina. 

Preocupado com a repercussão, Alberto Fernández encaminhou uma carta à Victoria Donda, presidente do Instituto Nacional contra a Discriminação (Inadi), a Xenofobia e o Racismo - para que esta avaliasse sua fala, informando que compreendia que a frase "mexe com alguns dos preconceitos que existem na nossa sociedade". Ele pedia desculpas àqueles que se sentiram ofendidos por suas declarações. Entretanto, ponderava que foi interpretado "por alguns de uma forma que contradiz minhas ações e nossas decisões de governo". 

Independentemente dos argumentos do presidente argentino, pergunto-me, qual a importância se viemos da selva ou não!? Como está a Argentina e como está o Brasil economicamente falando? E não estou falando do período pós Covid. Em minha última viagem a Buenos Aires, em dezembro de 2019, visualizei famílias inteiras vivendo na rua, casais de idosos vivendo na rua, ao lado de malas de viagens denunciando que, há pouco tempo, elas viviam em casas. Em um açougue no mercado público de capital argentina, vi uma carne que não conhecia, e como boa turista perguntei o que era, pois percebi que era a que tinha mais saída. Naqueles poucos minutos que ali estava, o açougueiro me disse: é bochecha de gado, carne barata, portanto a mais consumida. 

Os 1,7 mil desempregados pelo fechamento das operações locais da empresa aérea Latam, ora operando por subsidiárias, mais os desempregados dispensados da Pierre Fabre, Axalta, Basf, entre outras, que acredito tiveram seus antepassados vindos de barco, estão em piores condições do que os brasileiros que, segundo ele, saíram da selva.

Apesar da "despiora" da economia brasileira, o país vem sinalizando melhorias em alguns setores, inclusive com o surgimento de algumas atividades após as herança da Covid-19. Quem consegue negar o crescimento no Brasil no ramo farmacêutico, nas vendas on-line ou no trabalhado dos vendedores de alimentos lá na menor cidade brasileira? O certo é que nossos antepassados foram pessoas maravilhosas, que vieram da Itália, da Alemanha, de Portugal e da selva. 

O certo é que essa mistura, ou seja, que a nossa miscigenação nos ensinou a superar crises, sermos vencedores e aceitar as diferenças.


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