plural

PLURAL: os textos de Juliana Petermann e Eni Celidonio

Coluna traz multiplicidade de opiniões e abre espaço ao diálogo

15 de outubro
Juliana Petermann 
Professora universitária

Naquela época, às vezes, eu faltava à aula e ia com a minha mãe na escola em que ela lecionava. Alfabetizadora, ensinava sobre o mundo a partir das letras. Transformava em palavras o infinito do campo ou o verde entrelaçado da serra. Lecionou em quase toda a Candelária rural. Mostrava como as palavras são espelho da realidade e como a realidade pode ser construída com o cordão luminoso das letras. Ensinava como todos os futuros eram possíveis. 

Eu lembro da textura do pó de giz espalhado pelos cadernos de chamada encapados com plástico grosso, do cheiro das folhas úmidas de álcool, saindo do mimeógrafo e lembro de esperar a hora da merenda. A diretora avisava com a sineta. Era o recreio da manhã e, das portas das salas, brotavam crianças. A comida era servida em potinhos azuis e, para mim, tinha mais cara de almoço: arroz de carreteiro, sopa, macarrão. A maior parte daquilo tudo vinha da horta da própria escola.

QUEM ENSINA, APRENDE

Minhas memórias desse tempo têm o mesmo frescor do alface, que orvalhado, vinha como se estivesse cravejado de cristais. E da cenoura tão pequenininha que ainda queria ficar na terra. Eu gostava de viver aquilo, era diferente da minha escola, era o trabalho, mas era também a casa da minha mãe. Já escrevi outras vezes sobre essas lembranças, mas elas são tão concretas que gosto de revê-las no papel. Naquele tempo, eu não queria ser professora. Eu não me via naquela vida: o dia inteiro na sala de aula, de noite corrigindo provas. Minha mãe amava a escola, as pessoas da escola e cada criança que sentava na classe à sua frente.

ATRAPALHA QUEM?

Agora, quando se aproxima o dia 15 de outubro, eu volto à minha história procurando pelas razões que me fizeram escolher a profissão da minha mãe. Eu encontro a resposta no poder de transformação que a educação tem. Como é linda a profissão que muda o rumo do futuro, que reescreve o final da história. 

Foi minha mãe que me ensinou que a educação promove, faz crescer, valoriza, que potencializa o que cada pessoa traz de casa. Foi ela que me ensinou que quem ensina, sobretudo aprende. E que o pensamento é o principal produto do trabalho de uma professora, de um professor. 

Esses dias, ouvi dizer que o excesso de professores atrapalha. Até acho que sim: atrapalha os planos de quem quer um país adormecido, letárgico, rudimentar. Um trabalho que ensina sobre o pensamento, sobre como ver o mundo de forma crítica e sonhá-lo mais justo, humano e sensível, realmente atrapalha os planos de quem quer o mundo exatamente do jeito que está.

Valei-me, São Zuckerberg
Eni Celidonio
Professora universitária

E o mundo ficou apavorado! Não se esperava que isso acontecesse. Ninguém, em sã consciência, acreditaria nisso! Terceira guerra mundial? Invasão de alienígenas? Terremoto destruindo metade do globo terrestre? Não. Deu um apagão no Facebook, Instagram e WhatsApp. Só isso.

O mundo parou! As pessoas não sabiam o que fazer, empresários perderam negócios, foi uma tragédia! Os memes vieram aos borbotões e a pobrezinha da Covid perdeu a importância: só dava o apagão das redes sociais. Gente, é impressionante como estamos todos escravos da internet. Assistindo a um programa de televisão, vi pessoas sendo entrevistadas e dizendo: "tive um problema sério e não tive como avisar a minha família! Fiquei ilhada!"

Caramba! A criatura diz isso segurando um telefone celular. Um T-E-L-E-F-O-N-E! O que será que alguém pensa sobre a importância de se ter um telefone? Eu não sei quando o telefone perdeu a capacidade de ser um aparelho para se telefonar. Sério: ele entra em várias redes sociais pela internet, tira fotografias, filma, daqui a pouco, o celular vai aprender a lavar, passar e cozinhar. E a pessoa tem o telefone, mas sem acesso a uma rede social ela se diz ilhada. Entenderam: sem rede social a criatura não é ninguém!

Vamos pensar só na nossa aldeia, no Brasil. As pessoas estão comprando osso nos açougues a R$ 9 o quilo. Gente! Osso, a R$ 9 o quilo, lembrando que osso pesa! É revoltante isso, mas o apagão das redes sociais é mais importante.

O feminicídio está num patamar absurdo, mulheres são assassinadas ou sofrem agressões absurdas, mas o apagão é mais importante.

DESNORTEADOS

O que falar da educação? E do saneamento básico? E do preço dos combustíveis? E o preço dos alimentos, alguém já reparou o que se tem gastado em compras nos mercados? Eu poderia ficar aqui listando uma infinidade problemas que afetam a todos nós, que estão deixando a nossa vida cada vez mais difícil, que estão tirando de nós o pouco que ainda temos: a esperança.

Em que raio de mundo a gente está vivendo? O que está acontecendo com a gente? Estamos todos escravos de algoritmos? Algumas horas sem redes sociais conseguem nos deixar mais desnorteados do que tudo de ruim que está acontecendo nesse país? Onde foi parar a solidariedade humana? Será que a gente está perdendo a humanidade? A gente já é reduzido a vários números, agora, dar tanta importância a esse negócio de redes sociais, como se fosse o ar que respiramos, é um pouco exagerado, né, não?

Sempre pensei que computadores e tecnologias vinham para ajudar a gente e não para nos deixar como autômatos, não para deixar a gente escravizado, mas acho que quebrei a fuça...

Aliás, eu acho que estou é velha mesmo. Mas me deem licença, que vou entrar no Facebook pra ver o que tem por lá...


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