plural

PLURAL: os textos de Juliana Petermann e Eni Celidonio

Coluna traz multiplicidade de opiniões e abre espaço ao diálogo

Você sente vergonha do quê?
Juliana Petermann 
Professora universitária

Na minha pequena bolha digital, um sentimento predominou na última semana: a vergonha. Algumas pessoas chamaram de vergonha alheia ou só de vergonha mesmo, sem sobrenome. Mais quais os motivos disso? A representação brasileira na ONU. A vergonha, esse sentimento que nos cora a face, que nos constrange e que faz com que nos entendamos indignos de algo. Virar chacota, ser piada: a sensação de não ter a aceitação dos outros. Uma lâmina que avança sobre o nosso brio, sobre nossa honra. Bom, temos um 7x1 todinho para nos ajudar na difícil definição desse sentimento, que a gente sabe muito bem sentir, mas não sabe muito bem como explicar. Curioso que essa vergonha abrasileirada, esse deslustre patriótico, fica mais evidente quando vemos o Brasil fora do Brasil. Quando nos vemos enquanto país, um tanto derrotado, diante de outras nações. Foi assim no jogo contra a Alemanha e tem sido assim a cada vez que o atual governo brasileiro resolve dar as caras em algum compromisso internacional.

MOTIVOS PARA SENTIR VERGONHA

O tal sentimento não veio à toa: na Assembleia Geral das Nações Unidas tivemos o único presidente que afirmou não ter sido vacinado, que abriu o encontro com um discurso negacionista, que precisou comer pizza na calçada, churrasco em um puxadinho improvisado, cujo ministro fez gestos obscenos para pessoas que se mostraram contrárias ao governo e uma comitiva com alto poder de contaminação: pelo menos três pessoas testaram positivo para a Covid19. Não é pouca coisa. Ver nosso país lá fora, refletido em um lamaçal, nos arremessa em direção a mesma poça embarrada. Você sentiu vergonha? Eu, depois de muito sofrer com o sentimento pesaroso de me ver brasileira nos últimos anos, procurei refazer esse sentimento.

MOTIVOS PARA NÃO SENTIR VERGONHA

Nosso presente não é dos melhores, é fato. Teremos para sempre essa mácula na nossa história. Que sirva de lição. Mas quero pensar que nosso país é bem maior do que nosso governo federal, que é pequeno demais diante da nossa gente, da nossa terra, da nossa potência de futuro. Somos o país do gigante Paulo Freire, cujo centenário foi comemorado no mundo todo na mesma semana em que a comitiva brasileira fazia feio lá fora. Somos a imensidão da Amazônia, maior floresta tropical do mundo. Somos a grandeza do Pantanal, maior planície de inundação do mundo. Oxalá ambos sobrevivam para contar essa história. Somos diversidade e profusão. Somos musicais, carnavais, solares. Somos criatividade. O Brasil é bem maior do que tudo isso que está aí". Há de ser.

Coincidências, o retorno
Eni Celidonio
Professora universitária

Sabe aquele caso que contei no outro dia, das chaves que abriam cinco apartamentos no meu prédio em Copacabana? Bizarro né? Vocês ainda não viram nada.

Eu cheguei de Mato Grosso em 1993 e matriculei a Renata no Colégio Fátima. Eu levava e buscava a criatura na escola, porque ela só tinha cinco anos, e eu morria de medo de ela ir sozinha. Um belo dia, deixei a Renata na escola, estou descendo a Presidente e ouço: "ÔOOO goxtosa! ÔOOOOO goxtosa!... Continuei meu caminho, sem nem olhar pra trás, e a criatura continuou: "Goxxxxtosaaaa! Olha pra mim"! Apertei os passos, porque né? A gente nunca sabe o que pode acontecer com mulher nesse país. Depois de um tempo, em que eu estava quase na Appel, a criatura deu um grito: "ÔOOOO Eni, olha pra mim, caramba"!

A criatura disse Eni, então é alguém que me conhece, mas com aquele sotaque, chiando? Tomei coragem e olhei. Gente! Eu virei e vi o Zantonho, ou José Antonio, vocês sabem quem é? Pois eu vou explicar: meu pai construiu uma casa na Ilha do Governador, na mesma rua em que moravam a irmã e a mãe dele, e o Zantonho morava no prédio da esquina. Entenderam? Ele foi meu amigo da rua, no tempo em que a gente fazia guerra de mamona, trepava em pé de manga, jogava taco na rua, saía pelas ruas atrás de sacolinhas de doces de Cosme e Damião, fazia festas de São João com direito à fogueira no meio da rua: uma gangue de crianças de todas as idades. Á tarde, a gente chegava do colégio, almoçava, fazia as tarefas e tome rua. Eu não conseguia acreditar que um menino que eu conheci no Rio, estava aqui em Santa Maria.

Parei, reconheci a criatura e entre surpresa e envergonhada, perguntei o que ele fazia aqui no sul do país. Ele me explicou que se formara em engenharia e viera para uma cidade aqui perto para dar orientação numa obra, conheceu uma menina, se apaixonou, casou e resolveu morar aqui na cidade, num prédio em frente à saída atrás do Colégio Fátima. Acreditem ou não, foi exatamente isso que ele me contou.

Se fosse novela, a gente ia dizer que não é possível, que isso é forçar a barra, que não pode acontecer, mas aconteceu. E a gente sempre se encontra, seja na casa dele, na minha, num restaurante e o mais interessante é que a gente fica relembrando situações de quando eu tinha menos uns cinquenta tons de idade. Foi o que aconteceu na sexta-feira, na casa que ele mora agora.

Amo quando a gente se encontra, fica lembrando de casos e pessoas que fizeram parte da nossa vida! É muito bom! E tome gargalhadas, porque é o que a gente merece em tempos tão sombrios...

Isso tudo pra dizer que sim, houve um tempo em que se brincava na rua em pleno Rio de Janeiro, que nossos portões viviam abertos, que nós saíamos de casa e ouvíamos a mamãe dizer "volta antes das seis pra tomar banho e jantar"; que não havia assaltos; que parávamos o jogo de taco umas três vezes, porque não havia esse trânsito louco de hoje; que a gente comprava leite em garrafas de vidro e ficava esperando seu João passar com a carrocinha da Kibon gritando "Olha o Chica Bom aiôôôôô"! Bons tempos...


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