plural

PLURAL: os textos de Juliana Petermann e Eni Celidonio

Coluna traz multiplicidade de opiniões e abre espaço ao diálogo

O Brasil não tem um minuto de paz
Juliana Petermann 
Professora universitária

Tenho sentido falta de escrever sobre trivialidades. Sobre o cotidiano. Eu acho que ainda sei ver beleza no corriqueiro, no início e no fim dos dias, que, para mim, começam com o sabor apimentado do própolis e terminam com um chá de hortelã bem quente, adstringente. Falar dos ciclos, dizer que o plátano aqui de casa está brotando, que os morros da cidade estão cheios do rosa das paineiras. E que os ipês não só pintam o céu, como mosqueiam um caminho amarelo e macio, que contrasta com a dureza do paralelepípedo. A natureza faz força para chegar com seu prelúdio de primavera, mas eu tenho uma sensação de que o inverno no Brasil está longe de acabar.

CANSAÇO DE BRASIL

Eu sinto um Brasil cansado e me sinto cansada. Um cansaço que não é do trabalho, nem das coisas da vida, é de Brasil e desse inverno interminável que nos tornamos. E, olha, eu falo de um lugar bastante privilegiado. Sequer posso imaginar o cansaço de 27 milhões de pessoas, que, no Brasil, vivem abaixo da linha da pobreza. Esse mesmo cansaço que sinto circula pelas redes sociais no formato de meme: "O brasileiro não tem um minuto de paz". Mesmo tentando florescer, ainda arrasado pelo período pandêmico, os últimos dias no Brasil foram gélidos. E não por pouca coisa, mas por não sabermos se teremos democracia amanhã. Foi um tal de vai ter golpe, não vai ter golpe, e nossos corações viveram, até o 7 de setembro, saindo pela boca.

CANSA, NÃO CANSA?

No dia 7 mesmo, ficamos entre questionar "o que essa gente toda está fazendo aí?" e nos confortar com "nem é tanta gente", que, no fim das contas, eu não sei dizer se flopou ou não, como li em algumas análises. Ainda que tivesse uma só pessoa na rua, pedindo o direito de não ter direitos, já seria o bastante. E tinha mais: tinha uma plateia que vibrou com discursos curtos, desconexos, mas, ainda assim, ferozes contra nossas instituições. No dia seguinte, teve declaração à nação, pedido de paz e de desculpas. Horas depois, voltou atrás, insultou o ministro do STF e, novamente, desacreditou as eleições. Incentivou greve de caminhoneiros, e, depois, voltou atrás, desincentivou. Num estica e puxa que ninguém aguenta mais. Num puxa e frouxa de conflitos forjados e evitáveis. Cansa, não cansa? O povo brasileiro, que não tem comida, não tem emprego, também não pode ter um minutinho sequer de paz? Me entristece pensar no verão que nós poderíamos ser enquanto país. Como disse Darcy Ribeiro: "Tenho tão nítido o Brasil que pode ser, e há de ser, que me dói o Brasil que é".

Edmilson
Eni Celidonio
Professora universitária

Sabe aquele dia que você acorda e pensa num conhecido lá da década de 1960? Pois é... Acordei assim esta semana, pensando num conhecido do meu bairro, o Edmilson. Por onde andará? O que come? Como vive? Edmilson era amigo do meu irmão, jogava bola todo sábado na praia, mas ninguém sabia onde morava, se estudava, se trabalhava, quem eram seus pais, enfim, era um sujeito que não tinha referências, pelo menos pra nós.

Foi uma das pessoas mais divertidas que conheci, conseguia imitar desde Dom Helder Câmara até Jânio Quadros. Pelo telefone, então, era imbatível. Ligava para a pessoa imitando Robert Kennedy, com tanta perfeição, que, às vezes, a gente se perguntava como é que as pessoas se portavam ao telefone quando ele ligava. O pior é que ele não desmentia, segurava o papel com a maior cara-de-pau, geralmente lia alguma notícia no jornal (O Globo, Diário de Notícias, Jornal do Brasil, etc...) e ligava explicando o que tinha acontecido com o governo americano, em inglês, que falava perfeitamente.

Edmilson era muito magro, baixinho, um tipo de nordestino, moreno de olhos verdes, mas era muito articulado, sabia tudo que acontecia na época, dava a impressão de que lia todos os jornais do dia, que assistia a todos os telejornais. Mas falando em inglês, francês ou alemão enganava quem ele quisesse, quer dizer, alemão era meio forçar a barra, porque ele não falava patavinas, mas era tão convincente, que as pessoas acreditavam.

Um belo dia, eu ia ao Pedro II resolver um problema na secretaria do colégio e Edmilson disse que também ia pra cidade, daí a gente podia ir junto. E fomos. Fui rindo de casa até a Avenida Presidente Vargas, porque ele não parava de falar, imitando Dom Hélder Câmara. Era um tempo que isso fazia a gente rir muito, não tinha texto com palavrão, com piadas preconceituosas, nada, era só a entonação que ele dava às palavras santas. Gente, pena não ter celular naquela época, que era de gravar um vídeo para a posteridade.

Para vocês terem uma ideia, à tarde, ele ficava sentado na calçada, em frente à praia, olhando para o nada. A gente passava, ia lá e perguntava o que ele fazia ali sentado no sol, e ele respondia:

- Estou esperando o tempo passar até chegar a hora de ir pra casa dormir.

Ele conhecia todos os sambas-enredos das escolas de samba carioca, cantava o samba da Mangueira sobre Monteiro Lobato imitando a introdução com a cuíca e o surdo, enfim, era uma festa. Uma das músicas que ele cantava nunca mais me saiu da cabeça, pelo inusitado da letra. Não me lembro do samba todo, mas lembro que começava assim:


Eu estou devagar, eu estou devagar,

De dia não faço nada,

De noite eu quero é descansar.

A vida é bela,

A vida é boa,

Eu vou acordar mais cedo

Prá ficar mais tempo à toa.

Eu estou devagar...


Que saudade me deu desse tempo! Por mais Edmilson no mundo pra fazer a gente rir...


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