plural

PLURAL: os textos de Juliana Petermann e Eni Celidonio

Coluna traz multiplicidade de opiniões e abre espaço ao diálogo

Novela
Juliana Petermann 
Professora universitária

O que é preciso para uma boa novela? E para uma boa série? Uma boa trama. Personagens com carisma. Querer saber mais. Um ou muitos plot twists? Que no bom português não é nada além de uma boa reviravolta. Por aí está também o elemento surpresa da trama. O inesperado. Na teoria, uma boa narrativa precisa de uma mudança de estado. Do estado x para o estado y. Era solteiro. Casou-se. Era pobre. Ficou rica. Confesso que a última novela que acompanhei tratava de um cantor de axé que, supostamente, havia morrido. Mas estava vivo. Passou do estado morto para o estado vivo, contrariando a lógica, mas oferecendo elementos interessantes para a narrativa. Além desses, para mim, outros dois elementos são importantes na história: a trilha sonora e a verossimilhança. Pode ser uma história fantasiosa, mas ela precisa parecer real. Possível. Eu preciso querer acreditar.

A NOVELA BRASIL 2021

Algumas novelas, embora pareçam, não são ficção. E, às vezes, a gente até gostaria que fosse. Na novela Brasil 2021, foram tantos acontecimentos nos últimos capítulos que acabei me perdendo. Em meio a uma pandemia, e em um país devastado com mais de meio milhão de mortes, investiga-se não apenas um, mas dois supostos esquemas de corrupção na compra de vacinas. Surgem denúncias de propina de um dólar por dose do imunizante. Temos um homem em silêncio na CPI. Temos lotes de vacinas vencidas. Um governo sob suspeita. Não bastando tudo isso, uma crise energética e um aumento de 52% na conta de luz. Muitos personagens novos e um sem fim de tretas. Eu juro que acompanho a vida política do nosso país. Consumo muita notícia. Mas perdi o fio da meada. Em narrativas ficcionais, quem escreve o roteiro faz questão de deixar uns respiros, umas pausas. Mas no Brasil, vida real, o ritmo é frenético.

THRILLER

Nossa novela da vida real tem muitas reviravoltas, mas a cada volta que a gente dá, a gente cai um pouco mais. É uma sensação de queda livre e de poço sem fundo. Qual é o nosso limite? Nas tramas ficcionais, os dramas são entrecortados por alívios cômicos, por pitadas de romance, mas a novela do Brasil parece ter enveredado por um suspense dramático, um thriller político com uma sequência infinita de anticlímax: nenhum nó desata, pelo contrário, vão se cinchando cada vez mais. Eu sei. Às vezes, a gente se perde e abandona a novela no meio. Mas dessa novela eu não me canso e não abro mão. Otimista que sou, sigo pelos próximos capítulos, querendo acreditar e com a esperança de um final mais feliz.

O que há de novo
Eni Celidonio
Professora universitária

Continua repercutindo a fala do governador Eduardo Leite no programa do Pedro Bial. Eu tenho lido de tudo nesta internet, pessoas perguntando sobre o dinheiro da vacina; pessoas perguntando sobre o salário dos funcionários; pessoas dizendo que ele usou isso para fins políticos; que o Rio Grande do Sul virou motivo de chacota no resto do país.

Vamos lá... A internet fez com que hoje não se consiga separar o público do privado. É brincadeira que, em pleno século 21, as pessoas ainda façam confusão entre conservadorismo e tolerância. E depois ainda tem quem acredite que a pandemia vai fazer o sujeito ter mais humanidade, mais empatia, enfim, a humanidade vai voltar melhor... Imagina se fosse voltar pior!

Não sou nem nunca fui PSDB, não votei no Leite, já me arrependi de muitos votos que dei a deputados, senadores, prefeitos, vereadores, mas sério: quem nunca? Sabe, estou cansada do tribunal das redes sociais, que só gritam quando interessa. Sabe 70, quando o povo gritava "Salve a Seleção", que encobria o que estava acontecendo no país? Pois é... Eu sempre penso que minha fase de Polyana Juramentada já passou; até sou otimista, mas com ressalvas.

Por que estou escrevendo sobre isso? Porque eu sempre imagino que todos têm o direito de falar o que quiser, desde que não demonstrem intolerância, isso porque, como disse minha comadre Eloísa, Deus não joga, mas fiscaliza a banca. Ou como diria meu pai, primo nosce te ipsum. É muita pedra pra pouco telhado, minha timeline parece um coliseu de animais raivosos, atacando em todas as frentes. Por que isso? Falta de assunto? Não é possível. O que mais tem aqui em Pindorama é assunto, o problema é ter a sensatez de encarar os problemas de frente, sem cair no Gre-Nal, no Fla-Flu, no Garantido-Caprichoso. Acho que essa é a resposta: os motivos cansam à força de repetição. Vai se falar sobre isso até aparecer outro fato que vai ser explorado ad nauseam, até aparecer outro fato que vai ser explorado... Não é assim?

Agora eu pergunto: o que muda na minha vida a fala de Leite? Nada. O que tenho a ver com isso? Nada...

Lembro muito do Kleiton e do Kledir, numa canção, Analista de Bagé, que dizia que todos os homossexuais existentes no Rio Grande do Sul "são correntes migratórias/ que se vieram que nem churrio/Ou, bueno, alguém permitiu/Enquanto Deus cochilava/Ou então porque já tava/Preenchida a cota do Rio". Nota-se que vieram todos do Rio de Janeiro. Se me ofendi? De maneira alguma. E por que me ofenderia? Não me causa surpresa, porque convivo com todas as naturalidades, desde o caboclo do Norte ao negro da favela. Estudei num colégio que trazia na lista de chamada o filho do prefeito da cidade ao lado do filho do bicheiro da Tijuca. Quem estudou numa escola assim sabe do que estou falando.

Por fim, afirmo que o que me surpreenderia, mas me deixaria de boca aberta mesmo, seria assistir a uma entrevista em que o entrevistado dissesse: "sim, sou político há trinta anos, sempre fui corrupto, roubei o povo descaradamente, não sou um político corrupto, mas um corrupto político"...


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