colunistas do impresso

PLURAL: os textos de Atílio Alencar e Paulo Antônio Lauda

Coluna traz multiplicidade de opiniões e abre espaço ao diálogo

  • Memórias dos quilombos
    Atílio Alencar
    Produtor cultural

    A primeira vez em que estive com quilombolas,

    eu ignorava a palavra e seu significado. Eu tinha perto de dez anos, num passeio em que meu avô me levou para rever as fundações da antiga casa onde viveu no campo, à sombra dos eucaliptos. Era um vilarejo esvaziado pelo êxodo, no fim de uma estrada poeirenta.

    Quando voltávamos pela mesma estrada, meu avô apontou para uma tapera e disse que ali morava um velho amigo. Meu pai parou o carro, o vô apeou e bateu palmas. Sem demora, um senhor que aparentava a mesma idade dele despontou na porta da casa. Forçou a vista primeiro, depois, sorriu e veio andando na direção do carro. Logo apareceu mais gente atrás do velho: primeiro uma senhora, em seguida umas moças e moços, depois uns miúdos. A primeira coisa que notei foi que eram todos negros; quando baixei os olhos, vi também que todos traziam os pés descalços.

    Apesar da risada farta do velho senhor negro, minha imaturidade não me impediu de perceber que entre as duas pobrezas, a nossa e a dele, havia diferenças. Diferenças que não estavam só na cor da pele; estavam muito mais na ausência de calçados e na casa quase em ruínas que o outro compartilhava com a família numerosa.

    Pouco tempo depois, meu avô já não estava vivo para ouvir minhas indagações sobre a palavra nova que aprendi na escola. Tampouco, acredito que ele saberia associá-la ao velho parceiro de trabalho na estância. Apontando para a ilustração que representava homens e mulheres negras trabalhando no campo, minha professora de História, não por acaso branca, soletrou, ligeiramente, a palavra quilombo para falar na rebelião dos negros. Contou que Zumbi viveu no Quilombo de Palmares, o que lhe deu o direito de figurar nos livros didáticos. 

    Mas os livros mal falavam do passado dessa gente; e nada falavam do presente dos que sobreviveram à escravidão. Foi já na faculdade de História que um colega, não por acaso negro, comentou em aula que no Brasil ainda havia muitos quilombos. Mas como assim? Os quilombos não tinham desaparecido, submetidos pelas sucessivas expedições reais e republicanas? Não, não tinham. As comunidades que sobreviveram à escravidão e à negligência estão lutando agora pelo reconhecimento do seu passado em comum, do seu território, da sua cultura.

    Anos atrás, pude conhecer de perto a história de alguns quilombos gaúchos. Vi as cabeças erguidas mesmo onde alguns pés ainda estavam descalços; e vi os quilombolas se organizando, erguendo a voz, dizendo não à tradição racista que quer eternizar senzalas e quartos de empregada. São professores, trabalhadores rurais, estudantes. Os mais velhos falavam abertamente sobre os ancestrais escravizados, e sobre como ensinar os filhos e filhas que ninguém é menos que ninguém.

    Nunca aprendi na escola que Zumbi era muitos e muitas, que Palmares é irredutível. Mas hoje eu sei, porque os quilombolas me ensinaram, que a história do povo negro no Brasil ainda está recém começando a ser reescrita.

    *Este artigo foi originalmente publicado na página 20 da edição de 24 de maio de 2021.

    Como proceder frente à morte
    Paulo Antônio Lauda
    Cirurgião-dentista e ex-professor da UFSM

    Qual seria a sua conduta frente a eminência de perder um ente querido para a morte? O que seria certo ou errado no seu modo de ver? Vamos ver os conceitos vigentes sobre o assunto conhecendo a eutanásia, distanásia e ortotanásia.

    O que é distanásia? É o prolongamento do processo da morte através de tratamentos extraordinários que visam apenas prolongar a vida biológica do doente. O objetivo da distanásia é o prolongamento máximo da vida.

    O que é eutanásia? É ato de proporcionar morte sem sofrimento a um doente atingido por afecção incurável ou que produza dores intoleráveis. O que é ortotanásia? É o ato de permitir a que a morte se instale de forma mais natural possível, mas sem dor, sem sede ou fome. Significa deixar viver, apenas com cuidados paliativos, não aceitando o prolongamento da vida através de meios artificiais. 

    Bom, se você já leu até aqui, obviamente deve ter escolhido uma opção destas frente a uma possível decisão desta magnitude. Os conceitos de eutanásia, distanásia e ortotanásia são estudados pela ciência da bioética. Estudo aliás, relativamente, que pela evolução da ciência e da tecnologia, vem se desenvolvendo efetivamente nos últimos tempos. Mas todos esses termos trazem entre si uma relação que é a questão das vidas ou mortes humanas que são estudados pela bioética. 

    A VIDA DEVE SER PRESERVADA

    O artigo 121 do nosso Código Penal mostra claramente que a eutanásia é crime de homicídio privilegiado. Em nosso ordenamento jurídico, portanto, ninguém pode dispor da própria vida sem que isso se insira em uma conduta tipificada. A eutanásia é proibida e a vida dever ser preservada ainda que a doença seja incurável e provocando no paciente grande sofrimento. A distanásia já é exatamente o oposto porque se tenta de toda forma prolongar a vida com todos os meios artificiais possíveis e disponíveis na medicina. Para muitos, inclusive é considerado obstinação terapêutica porque se tenta a qualquer custo manter o paciente vivo. 

    Na ortotanásia, por seu turno, significa uma não intervenção, uma omissão no tocante a tratamentos que possam prolongar a vida de uma pessoa em estado terminal. No instituto supracitado, não se mata, mas também não se permite nenhum meio artificial que possa prolongar de alguma forma a vida. De uma forma mais simplificada de se falar, deixa-se morrer sem nenhuma intervenção. Para alguns autores seria o mesmo que a eutanásia passiva 

    Tive a oportunidade, num congresso médico-espírita em Goiânia, de assistir à palestra da Dra. Ana Claúdia Arantes, onde ela, com extrema experiência em cuidados paliativos nos momentos que antecedem a morte, trata e aborda todas estas questões de uma maneira brilhante. Esta palestra transformou-se num livro chamado "A morte é uma dia que vale a pena viver". 

    Convido aos meus queridos leitores que assistam a esta palestra no YouTube ou leiam o livro. Isto formaria uma opinião mais completa. Assim, você poderá já ter uma visão mais clara sob o assunto. Este momento tão importante das nossas vidas, muitas vezes, por desconhecimento, acabamos por não dar a devida importância. Pensem nisso!



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