reportagem especial

No campo, na marcenaria, na igreja: profissões que ainda resistem diante dos jovens

Na data em que celebramos o Dia do Trabalho, contamos a história de três jovens que escolheram caminhos diferentes: a agricultora Claudiane Bellocchio, do marceneiro William do Nascimento da Silva e do seminarista Bruno Grooss da Silva

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Foto: Foto: Renan Mattos (Diário)


Fotos: Renan Mattos e Pedro Piegas (Diário)
A agricultora Claudiane Bellocchio, o marceneiro William do Nascimento da Silva e o seminarista Bruno Grooss da Silva

O que você quer ser quando crescer? Essa é uma pergunta que todo mundo já ouviu. As expectativas que criamos quando crianças fazem parte da nossa visão de mundo e ajudaram a moldar quem somos. Bombardeados diariamente por novidades tecnológicas, é natural que os jovens procurem profissões voltadas à essa área. É isso que indica uma pesquisa feita pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).


De acordo com o estudo, as principais áreas que tendem a crescer nos próximos anos são da tecnologia da informação, desenvolvimento de softwares e segurança cibernética. O professor do curso de Economia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) Daniel Arruda Coronel explica que essa tendência se acentuou ainda mais com a pandemia e o trabalho remoto e a expansão dos serviços de delivery:

- Se olharmos para 20, 30 anos atrás, algumas dessas profissões nem existiam. É a oscilação do mercado que faz com que alguns trabalhos fiquem valorizados em um período e outros sejam desvalorizados, especialmente aqueles mais manuais.

Mas, ainda há quem contrarie as estatísticas e procure ocupações que proporcionam um estilo de vida mais tranquilo e sem a correria dos grandes centros. Nesta reportagem especial, na data em que celebramos o Dia do Trabalho, contaremos a história de três jovens que escolheram caminhos diferentes: a agricultora Claudiane Bellocchio, 25 anos, do marceneiro William do Nascimento da Silva, 25 anos, e do seminarista Bruno Grooss da Silva, 24 anos.

PERSPECTIVAS PARA O FUTURO
Quando esteve no seminário, há 32 anos, o padre Bertilo João Morsch lembra que eram mais de 100 jovens se preparando para a vida religiosa na mesma diocese. Agora, no Seminário Maior Arquidiocesano São João Maria Vianney de Santa Maria, onde Bertilo é reitor, há 10 jovens seminaristas. Segundo ele, esse número tem se mantido estável nos últimos anos.

- Se formos ver só os números, houve um decréscimo bem grande. Mas, se olharmos proporcionalmente ao número de filhos em cada família, essa redução pode ser tratada como natural. Três décadas atrás, tínhamos uma média de seis filhos em cada casa. Agora, são um ou dois. O ideal seria termos mais padres, sim, mas acredito muito que cada um deve seguir aquilo que lhe faz bem - destaca o reitor do seminário.

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No campo, a fonte de inquietação é o aumento do percentual de produtores com mais de 65 anos. No Rio Grande do Sul, eles passaram de 17,5% para 23,1% no último censo agropecuário, divulgado em 2018, enquanto o número de jovens decresceu - de 1,9% para 1,2% na faixa etária de até 25 anos. A situação amplia as incertezas sobre a sucessão no comando dos empreendimentos rurais.

- Muitas vezes, os jovens não se veem desenvolvendo suas atividades na propriedade porque não têm uma participação ativa, poder de voz nas decisões. Isso é bem comum, uma vez que os condutores da propriedades não param para discutir as ideias, cortando a participação desses jovens e desmotivando-os. Quando há uma discussão franca entre os pais e os filhos, essa sucessão pode ser vista pelos jovens como uma oportunidade de futuro - destaca o professor do curso de Agronomia da UFSM Fernando Panno.

Com a industrialização e produção de móveis em grande escala, a produção de estruturas mais trabalhadas e peças exclusivas de marcenaria perdeu espaço. Mas ainda há quem procure por esses objetos. Para ajudar na formação desses trabalhadores, o Senai oferece cursos de qualificação.

-Temos vários cursos na área da madeira. Muita demanda vem das indústrias, de pessoas que vêm fazer os cursos para ocupar as vagas. Mas, também tem quem busque a capacitação para trabalhar por conta própria, especialmente na pandemia, quando teve gente que ficou desempregada. Temos procura de todas as idades, inclusive jovens também - revela o instrutor de educação profissional do Senai Deividi Radanovic dos Santos.


Foto: Renan Mattos (Diário)

DA UNIVERSIDADE DE VOLTA PARA O CAMPO 
Com um campo cada vez mais envelhecido, como mostram os dados do censo agropecuário, o desafio tem sido manter o jovem no interior. Com o êxodo rural, que aconteceu de forma intensa entre os anos 1960 e 1990 e segue até hoje, a população mais jovem tem deixado a zona rural para viver em grandes cidades. Mas, nem todos seguem esse movimento. Formada em Agronomia, Claudiane Bellocchio escolheu voltar para o campo depois de terminar a graduação. E mais do que isso: ela decidiu empreender na agricultura.

Após passar cinco anos em Frederico Westphalen, onde estudou na UFSM, a jovem de 25 anos precisou tomar uma importante decisão: voltar para casa ou procurar emprego em uma cidade maior. Ela conta que no começo da graduação estava decidida a continuar a vida longe de Silveira Martins, onde nasceu. Mas, a partir dos caminhos que descobriu durante o curso, percebeu que a agricultura familiar poderia se tornar uma atividade rentável e proporcionar uma boa qualidade de vida, se empregadas as ferramentas corretas.

- Durante a faculdade, a gente estuda as possibilidades na pequena propriedade. Não se precisa de uma grande área, é só investir bem no que se tem. São vários fatores que precisamos levar em conta na hora de tomar uma decisão, e o custo de vida baixo e a tranquilidade que uma cidade pequena proporcionam foram decisivos - conta.

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Ao lado do companheiro, Patrick Gai Aires, 37 anos, Claudiane criou a agroindústria de queijos Nostro Formaggio, com sede na propriedade da família, na Linha do Rosário, interior de Silveira Martins. Os pais da jovem cederam uma área de terra, e o casal arrendou mais alguns hectares onde agora criam cinco vacas e mais alguns terneiros e novilhas. Neste mesmo local, fica a agroindústria que já está a todo vapor apesar de ainda faltar alguns ajustes. Tudo por lá segue as normas sanitárias da prefeitura, e a agricultora tem orgulho do projeto que começou do zero há menos de um ano.

- Não é fácil. Essa história de glamourizar a vida no campo não existe. Começamos do nada mesmo. Mas hoje a receita que temos é boa. Conseguimos pagar as contas e ainda sobra um pouco, que usamos para fazer investimentos e expandir os negócios. Como tudo é recente, ainda não temos lucro efetivo, porque tudo é investido no melhoramento da produção - explica a produtora rural.

Na propriedade, tudo é dividido entre o casal. Enquanto Patrick é responsável pela lida direta com os animais e com a roça, de onde vem a alimentação da pecuária, Claudiane produz os queijos. Além de tudo isso, o casal ainda cuida da gestão do negócio e da contabilidade, para que a empresa continue saudável financeiramente.


Foto: Renan Mattos (Diário)

RECEITAS DE FAMÍLIA
A jovem aprendeu a fazer os queijos coloniais com a família, que é descendente de italianos. A ideia é, futuramente, fazer cursos para aperfeiçoamento. Mas, com a pandemia, ainda não foi possível.

- Minha mãe já chegou a fazer queijo, mas para consumo próprio. Nunca em grande escala. Foi um desafio essa produção maior. No pico, chegamos a produzir 70 quilos de queijo por semana - revela.

Uma das novidades que a agroindústria está preparando é o queijo parmesão. A venda desse produto deve começar em junho, mas o queijo já está maturando há quatro meses.

NOSTRO FORMAGGIO

  • O quê - queijos coloniais
  • Quanto - cerca de R$ 30 o quilo
  • Onde - Linha Rosário, Silveira Martins
  • Informações - (55) 99957-9659, pelo Facebook ou pelo Instagram

O que influencia o jovem a ficar no campo?
Uma pesquisa feita pelo Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS) com 743 filhos de agricultores no Estado, com idades entre 13 e 21 anos, mostrou que o papel da família no processo de sucessão é o que acaba determinando a decisão dos filhos de deixar o meio rural ou dar continuidade aos negócios. O índice de interesse dos entrevistados em ser sucessor é de 45,2%. Quando os resultados são divididos por gênero, o percentual aumenta para 59,6% entre os meninos e despenca para 28,6% entre as meninas.

Entre os que decidiram ficar
  • Quantidade de terra que os pais têm
  • Boa remuneração das atividades
  • Investimentos feitos pelos pais na propriedade (tecnologia e melhorias em geral)
  • Incentivo de políticas públicas
  • Autonomia dada pelos pais para participar das decisões
  • Relações de confiança com vizinhos e comunidades
  • Possibilidade de alimentação e moradia barata
Entre os que decidiram sair
  • Baixo investimento dos pais na propriedade (tecnologia e melhorias em geral)
  • Vergonha de ser agricultor
  • Falta de incentivo de políticas públicas
  • A ideia de que a agricultura não dá dinheiro
  • Presenciar reclamações constantes dos pais sobre a atividade
  • Não gostar da agricultura, não se identificar com a profissão


Foto: Renan Mattos (Diário)

DA MADEIRA VEM A PROFISSÃO
Escolhe a madeira, corta, mede, fura, encaixa e pinta: a rotina do marceneiro William do Nascimento da Silva envolve muita criatividade na hora de produzir cada móvel ou objeto, que é único. E esse é o diferencial do jovem de 25 anos que há 11 começou a fabricar os primeiros utensílios. Em uma época onde a maioria dos objetos de madeira são produzidos em indústrias e em larga escala, ele aposta na individualidade da arte milenar para conquistar os clientes.

Não são apenas pequenos objetos que o Homem da Serra produz - William recebeu o apelido com duplo sentido: ao mesmo tempo, serra é uma das ferramentas de trabalho que usa e é também uma referência à cidade de Itaara, onde mora. O jovem construiu a própria casa, no Interior do município, onde vive com a companheira e mais quatro cachorros e sete gatos. A residência, toda de madeira, tem uma arquitetura artesanal e foi construída em um mês, com a ajuda do pai dele.

- Eu gosto de mato e sempre quis viver em uma cabana, Então, quando me mudei de Júlio de Castilhos para cá decidi construir a casa neste estilo - conta o marceneiro.


Foto: Renan Mattos (Diário)

Há cinco anos, William transformou a paixão por marcenaria em profissão e hoje sobrevive da venda dos produtos. Os trabalhos são feitos por encomenda e o jovem garante que, por vezes, falta tempo para dar conta de todos os pedidos. A maior parte dos pedidos são de móveis como cadeiras, bancos e mesas. Até para fora do Estado ele já mandou encomendas.

- Eu aprendi um pouco com o meu pai, mas fui aprimorando o meu trabalho fazendo os objetos mesmo e assistindo vídeos com macetes pela internet. Quando comecei, disseram que eu não poderia viver desse meu trabalho. Mas eu vi que podia transformar a madeira em arte e hoje vivo disso - pondera William.

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Antes da pandemia, William vendia suas produções em feiras que aconteciam pela região. Agora, o contato com os clientes ocorre pelas redes sociais. O jovem criou páginas no Facebook e Instagram, onde divulga todas as criações. Com isso, consegue alcançar pessoas de todo o país e, mesmo trabalhando em uma profissão tradicional, usa as tecnologias para alavancar as vendas.

- É necessário se manter atualizado, não podemos ignorar a internet, é preciso usar as redes sociais a nosso favor - revela.

O que leva o jovem a seguir na profissão e afastado da cidade é a tranquilidade que o meio rural proporciona, além da liberdade que consegue ter ao trabalhar no próprio negócio:

- A qualidade de vida que eu tenho é excelente. Minha oficina fica no quintal de casa, então não preciso pegar trânsito para trabalhar, moro em meio à natureza e trabalho com aquilo que amo. 

HOMEM DA SERRA MARCENARIA E ARTESANATO RÚSTICO

  • O quê - móveis e objetos artesanais
  • Quanto - preço de acordo com a encomenda do cliente
  • Onde - Vila Etelvina, Itaara
  • Informações - (55) 99656-1692, pelo Facebook  ou Instagram 



Foto: Pedro Piegas (Diário)

MAIS QUE UMA PROFISSÃO, UMA VOCAÇÃO 
Quando criança, a brincadeira favorita de Bruno era pegar as bolachinhas e o suco de uva que a mãe comprava para brincar de rezar missa. A diversão, carregada de significados, já era um prenúncio da escolha que o rapaz precisou fazer anos mais tarde. Ainda aos 18 anos, Bruno tomou a decisão que mudou toda a sua vida: entrou para o mundo religioso, convicto de que a sua vocação é ser padre.

- Essa vontade vinha desde muito pequeno. Eu dizia para a minha mãe que queria ser padre. Na época, ela dizia: "Bruno, vai brincar, isso é coisa de criança, outra hora a gente conversa". Hoje, a minha família me apoia, claro. A verdade é que eu nunca pensei em ser outra coisa que não fosse ser padre - conta o seminarista Bruno Grooss da Silva, de 24 anos, que vive no Seminário Maior Arquidiocesano de Santa Maria.

Na casa do seminário, convive com outros jovens, e segue uma rotina regrada. Pela manhã, às 6h, acontece a primeira reza. Depois, tem aula do curso de Teologia, que acontece online, por causa da pandemia. Pela tarde, há atividades variadas que envolvem estudo e afazeres do lar, como limpeza dos ambientes. No final da tarde, por volta de 17h, acontece mais uma reza. Aos finais de semana, os jovens vão para paróquias da Diocese acompanhar os padres. Em datas comemorativas, em especial relacionadas à família (Dia dos Pais, Dia das Mães), eles ganham folga para visitar os pais.

Na visão dele, entrar para o seminário requer uma entrega radical. Mas, as privações são encaradas como um desafio necessário.

- Hoje em dia, o mundo oferece várias oportunidades para os jovens, mas ainda há aqueles que decidem fazer essa entrega. Somos privados de algumas coisas, e essa privação se torna motivo de alegria, pois o bem maior é Cristo - afirma o seminarista.

A missão de se preparar a fim de levar Deus ao mundo continua a mesma para os seminaristas desde 1563, quando a Igreja Católica oficializou as "escolas" de formação sacerdotal. Entre as principais restrições, está o fato de que um padre não pode casar e nem ter filhos.

- Um padre é padre 24 horas por dia, a vida toda. Não existe isso de ser padre só em cima do altar, na hora da missa. Por isso, ser padre é uma vocação e não uma profissão - sentencia o jovem.

ENCONTRO COM O PAPA
Em seu aniversário de 23 anos, em janeiro de 2020, o jovem teve o que considera o "maior sinal" para seguir na vida religiosa: recebeu um abraço do Papa Francisco e, ainda, ganhou um terço de presente do pontífice.

- Foi como receber um abraço de toda a Igreja, um grande sinal de que escolhi seguir o caminho certo - afirma.

Foto: Arquivo Pessoal 

O encontro aconteceu durante uma Audiência Geral na Basílica de São Pedro, no Vaticano - uma das últimas que teve antes da pandemia. Bruno conseguiu ficar bem próximo da grade do corredor central, onde o Papa costuma passar.

- Quando ele passou pelo corredor central, eu disse: 'Santo Padre, hoje é meu aniversário'. Ele, que já estava mais à frente, me olhou, parou e voltou em minha direção. Perguntou-me de onde eu era e qual a idade que estava completando. Eu me apresentei, disse que sou de Santa Maria e falei: 'Santo Padre, meu presente é dar-te um abraço, posso?' E ele respondeu que sim e nos abraçamos - narra Bruno.

Todo o contato não durou mais do que 30 segundos. Mas, para o seminarista, foi o suficiente. Depois do abraço, Francisco ainda entregou um terço de presente ao jovem. Objeto que Bruno guarda como uma relíquia. 

O CAMINHO PARA SER PADRE - 10 ANOS

  • SEMINÁRIO PROPEDÊUTICO - é o primeiro estágio da formação sacerdotal. Os jovens têm experiência de um ano de vida comunitária, além de estudos preparatórios para o curso de Filosofia
  • FILOSOFIA - primeiro curso superior obrigatório com duração média de quatro anos. Os seminaristas têm aula em uma faculdade e moram no seminário, onde têm uma rotina de oração, cuidados com a casa, convivência, esporte e lazer
  • TEOLOGIA - segundo curso exigido antes da ordenação, com duração de quatro anos. A rotina dos seminaristas é semelhante aos anos de Filosofia
  • PASTORAL/MISSÃO - além da formação superior, os seminaristas vivem um ano de experiência pastoral e missionária, imersos em paróquias ou comunidades católicas. Ocorre durante ou depois da Teologia
  • ORDENAÇÃO- depois de passar pelas duas faculdades e o "estágio", os seminaristas podem ser ordenados diáconos e, depois, padres


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