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Médicos reforçam cuidados para quem precisa retomar a rotina em Santa Maria

Pouco mais de dois meses após o início do distanciamento social, especialistas que ajudam a combater o avanço do vírus em Santa Maria falam da situação da doença na cidade

Eduardo Tesch e Pâmela Rubin Matge
Foto: Foto: Gabriel Haesbaert (Diário)

Foto: Gabriel Haesbaert (Diário) 

Desde a última semana, circula em grupos de WhatsApp um áudio do médico infectologista Fabio Lopes Pedro em que ele afirma que a população de Santa Maria pode sair de casa, desde que tome todos os cuidados para evitar a contaminação pela Covid-19. O arquivo foi mandado originalmente para um colega psiquiatra, em que Fabio ressalta o agravamento de problemas de ansiedade devido ao isolamento dos últimos meses.

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Em entrevista publicada no Diário, na última sexta-feira, o médico destacou que "isolamento, cuidado e zelo é uma coisa. Pânico, é outra. As pessoas estão confundindo os valores". Ele defende que as pessoas comecem, aos poucos, e tomando os devidos cuidados, a voltar ao cotidiano. A seguir, confira a opinião de outros quatro médicos da cidade que trabalham no enfrentamento à Covid-19 em relação às medidas adotadas nesses dois meses de distanciamento social, a atual fase da doença no município e como a população deve seguir com os cuidados. 

Jane Costa, infectologista

Diário - O infectologista Fabio Lopes Pedro afirmou que as pessoas só entenderam a parte do "pode abrir" o comércio, mas não a parte do "pode ir". Ele defende que as pessoas tentem retomar a rotina, respeitando todas as regras previstas, pois alega que a situação de Santa Maria está sob controle e é diferente de São Paulo e Manaus. A senhora concorda com isso? Por quê?
Jane Costa - Concordo que a nossa situação é diferente de muitos porque trabalhamos há bastante tempo. No entanto, a população não entendeu isso. Quando eu saio de carro na rua, vejo muita gente sem máscara, as pessoas caminhando juntas. Inclusive, o próprio pessoal correndo na rua todo mundo junto. Para correr, tem que manter uma distância absurda, porque é uma das situações que mais se elimina vírus.

Diário - Qual a sua orientação? As pessoas em geral podem sair de casa tomando os devidos cuidados? É seguro ir a shoppings, restaurantes e lojas, se forem respeitadas as regras? Só os grupos de risco devem evitar sair de casa?
Jane - A cidade precisa girar dentro dela. Nós temos uma situação controlada e nós temos uma retaguarda boa do ponto de vista de assistência. Temos que validar tudo isso que foi feito. Não podemos manter a nossa população enclausurada o tempo todo. A cidade tem que girar dentro dela. O que é isso? As coisas tem que ser liberadas progressivamente com responsabilidade. O que as pessoas não estão tendo. Isso não é só aqui de Santa Maria. Se liberar, a gurizada vai se juntar para fazer festa. Isso é bem complexo. É claro que as coisas tem que começar a acontecer. O grande receio, para nós, é a chegada de pessoas de fora de lugares de alta circulação de vírus. Por exemplo, se abrir as universidades? Já imaginou, muitos alunos são de São Paulo e de outros lugares do próprio Rio Grande do Sul.

Diário - Estudos, como o da UFPel, apontam que o número de casos de coronavírus é até oito vezes maior do que o de casos notificados. Diante disso, o infectologista Fábio Lopes Pedro estima que a taxa real de letalidade da Covid-19 pode ficar com 0,5% aqui. A senhora concorda?
Jane - A letalidade é maior porque aqui no Brasil só se testava gente muito ruim, então, você não tem noção do número de casos. Como você testa o paciente grave, você vai ter uma letalidade muito maior. A nossa recomendação, na medicina privada, é o indivíduo chegou sintomático, testa. Simples assim. Por isso, nós temos tantos casos e poucos internados. Porque estamos testando as pessoas. Na medida que isso vai acontecendo, vamos ter um número bem mais próximo do real e a mortalidade vai diminuir. 

Reinaldo Ritzel, infectologista

Diário - O infectologista Fabio Lopes Pedro afirmou que as pessoas só entenderam a parte do "pode abrir" o comércio, mas não a parte do "pode ir". Ele defende que as pessoas tentem retomar a rotina, respeitando todas as regras previstas, pois alega que a situação de Santa Maria está sob controle e é diferente de São Paulo e Manaus. O senhor concorda? Por quê?
Reinaldo Ritzel - Acho que as coisas estão acontecendo como têm de acontecer. Ainda têm aglomerações. Vejo gente correndo na Medianeira sem máscara, o que não poderia. Mas tem coisas acontecendo, tem restaurante abrindo com uma série de restrições, estamos indo. Nessas palavras ("pode abrir" o comércio, mas não a parte do "pode ir". ) eu concordo parcialmente. Pode parecer que é vida normal. Se a gente puder obedecer o distanciamento social, melhor, com o uso de máscara, de álcool gel, a higienização adequada e cuidados ao levar as mãos na boca. Não existe risco zero e, se a gente puder minimizar o risco, ótimo. O distanciamento continua sendo uma forma. Sem dúvidas, temos diferenças de outros locais. O Rio Grande do Sul é um "país" diferente de São Paulo. Se formos ver na Europa, Espanha e Portugal são grudados e tiveram situações diferentes. O Brasil é um país continental, e até dentro do próprio Rio Grande do Sul temos diferenças. Santa Maria tem menos de 15 casos por 100 mil habitantes. Provavelmente, até tem mais, mas comprovados são esses, diferente de Marau, Passo Fundo...  Conseguimos achatar a curva (de infectados), mas nada impede um segundo pico. Acho que tem que sair de casa se precisar, não só porque um médico disse que tem que ir comprar no comércio. Se precisa sair com motivo forte, saia tomando todos os cuidados. Ótimo seria equilibrar isolamento com atividade econômica, porque uma coisa vai judiar da outra. Estamos em um momento bom, mas daqui a pouco podemos reavaliar. 

Diário - Qual a sua orientação? As pessoas em geral podem sair de casa tomando os devidos cuidados? É seguro ir a shoppings, restaurantes e lojas, se forem respeitadas as regras? Só os grupos de risco devem evitar sair de casa?
Reinaldo - Respeitando regras de distanciamento individual, as pessoas devem ir tocando a vida. A gente tem visto a cidade mais movimentada. Quanto aos grupos de risco, minha mãe, que tem 76 anos, está em casa e eu acho que ela não deve sair. Há dois meses, a gente não tinha leito para Covid, praticamente não tinha exame. Quem sabe daqui a três meses teremos um conhecimento melhor para tratar dos pacientes, quem sabe vacina. Se a gente puder preservar essas pessoas, ótimo, vamos preservar agora. Claro que, por outro lado, a gente se preocupa com a atividade econômica.

Diário - Estudos, como o da UFPel, apontam que o número de casos de coronavírus é até oito vezes maior do que o de casos notificados. Diante disso, o infectologista Fábio Lopes Pedro estima que a taxa real de letalidade da Covid-19 pode ficar com 0,5% aqui. O senhor concorda?
Reinaldo - Sabemos que está subestimado (o número de infectados). Então, por mais que muita gente tenha ficado em isolamento, algumas devem ter tido a doença e não foram notificadas porque não houve testes. Há de se manter cuidados e sempre monitorar os casos. Se pudessem fazer mais testes, melhor, pois temos um problema: na rede privada, o teste demora até sete dias para ficar pronto, e essa pessoa que fez o teste deveria ficar em isolamento até que se saiba se é positivo ou negativo. Na rede pública, o exame fica pronto em 24 horas. 

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Marcos Lobato, epidemiologista

Diário - O infectologista Fabio Lopes Pedro afirmou que as pessoas só entenderam a parte do "pode abrir" o comércio, mas não a parte do "pode ir". Ele defende que as pessoas tentem retomar a rotina, respeitando todas as regras previstas, pois alega que a situação de Santa Maria está sob controle e é diferente de São Paulo e Manaus. O senhor concorda com isso? Por quê?
Marcos Lobato - Eu não tenho evidências científicas para dizer isso. É mais ou menos o movimento anti-vacina. As pessoas dizem que não tem a doença, que está controlado. Quem morreu de sarampo nos últimos anos? Por outro lado, as pessoas não morrem porque se tem vacina. Entende o dilema da prevenção? Então, as pessoas não enxergam o bem que fazem porque não enxergam o mal que foi prevenido. Todas as evidências mostram que a melhor forma, ou a única forma eficiente é que as pessoas se mantenham razoavelmente isoladas. Tu dizer "façam tudo como se estivesse em uma vida normal" não é adequado neste momento.

Diário - Qual a sua orientação? As pessoas em geral podem sair de casa tomando os devidos cuidados? É seguro ir a shoppings, restaurantes e lojas, se forem respeitadas as regras? Só os grupos de risco devem evitar sair de casa?
Lobato - Qual lugar do mundo conseguiu fazer isso sem provocar mais mortes? Uma coisa é as pessoas retomarem o trabalho, o que é necessário e inevitável. Outra coisa é, de repente, as pessoas irem aos shoppings, por exemplo. Tem que ser razoável. Tem que ter bom senso nessas horas. Uma fala "vá para o comércio" é quase como dizer que está tudo normal. Os argumentos da baixa letalidade que são usados, em geral, são verdadeiros. Mas as pessoas estão sobrevivendo porque tem leitos para tratar essas pessoas. É só fazer uma conta simples: se tivermos um óbito a cada 3 mil pessoas, exagerando, a cada 3 mil infectados vai morrer uma pessoa. Se eu tiver 30 mil, vamos ter três mortes. Se eu tiver 300 mil, que é mais ou menos a população de Santa Maria, eu vou ter 100 mortes. Quem suportaria dizer que é razoável aceitar 100 mortes? Ou 50 mortes? É razoável isso? Esse é um argumento que, para mim, não me parece razoável. Uma coisa é a gente dizer que pode ir no supermercado comprar comida, outra coisa é dizer para as pessoas irem aos shoppings ou passear como se nada tivesse acontecido.

Diário - Estudos, como o da UFPel, apontam que o número de casos de coronavírus é até oito vezes maior do que o de casos notificados. Diante disso, o infectologista Fábio Lopes Pedro estima que a taxa real de letalidade da Covid-19 pode ficar com 0,5% aqui. O senhor concorda?
Lobato - É possível, desde que tenhamos leitos para cuidar dessas pessoas. Uma coisa é a gente ter letalidade baixa, mas temos que ter leitos para as pessoas. Se é verdade que a letalidade é 0,5%, está bem. Todas as pessoas que ficaram doentes do coronavírus e sobreviveram, em estado grave, ficaram de duas a três semanas na UTI. Imagina a gente ter o quádruplo disso. Se 5% da população de Santa Maria ficasse contaminada, quantos leitos de UTIs a gente precisaria para salvar todas as vidas e manter a letalidade baixa? Não estou questionando isso, mas não é sensato dizer. Tem poucos casos porque estamos sendo cuidadosos. Temos poucos casos e a letalidade é baixa porque estamos nos protegendo. 

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Thiego Teixeira Cavalheiro, infectologista

O médico infectologista Thiego Teixeira Cavalheiro optou por não responder, separadamente, a cada uma das perguntas e salientou que mantém foco na área da assistência em saúde com orientação sobre suas demandas. Segundo ele, questões do distanciamento são responsabilidades administrativas do município e de análise dos dados epidemiológicos. Thiego se limitou a esclarecer que o enfrentamento da pandemia deve levar em consideração quatro pilares: Educação em saúde e prevenção; Monitoramento diagnóstico - vigilância epidemiológica e testagem dos sintomáticos; Assistência hospitalar para atender pacientes; Olhar dinâmico da pandemia com ações pautadas em dados locais


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