242 vítimas

Desolação e memórias trágicas: quase nove anos depois, veja como está o interior do prédio da Kiss

Cenário da maior tragédia da história do Rio Grande do Sul ainda exibe marcas da noite do incêndio


Foto: Renan Mattos (Diário)
Visão na entrada da boate. Parte do teto desabou

Para além das marcas emocionais existentes em cada um que vivenciou, de alguma maneira, o 27 de janeiro de 2013 em Santa Maria, o prédio da boate é a recordação material da tragédia que abalou para sempre o Rio Grande do Sul. E a lembrança é diária. Está ali, para todos verem, perto da esquina da Andradas com a Rio Branco, uma das vias mais movimentadas da cidade. A todo momento, passam ônibus, carros, motos e caminhões. Em dias movimentados, a fila do sinal vermelho na Rua dos Andradas chega à frente da boate. 3.215 dias depois, ainda há quem desacelere o veículo e olhe para a esquerda ao subir a rua. Como pedestre, é inevitável vislumbrar a fachada.

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Na última semana, a poucos dias do início do júri que colocará no banco dos réus Luciano Bonilha Leão, Marcelo Jesus dos Santos (ambos ex-integrantes da banda Gurizada Fandangueira), Mauro Hoffmann e Elissandro Spohr (ex-sócios da boate), o Diário teve acesso ao interior do prédio. A visita foi acompanhada por um representante da Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM) e foi restrita a alguns metros além da porta de entrada, por questões de segurança.

A CHEGADA

Dois cadeados trancam a pesada porta de ferro preta na única entrada - e saída - do prédio. A porta abre para dentro. A luz é a primeira a entrar, atacando ferozmente a escuridão interna da edificação. Quem entra em seguida, vê primeiro uma parede, com oito pequenos espelhos circulares decorativos. Há espaço para 12, mas quatro estão quebrados. Curiosamente, no ângulo certo, a primeira visão ao entrar no cenário de uma das maiores tragédias do Brasil pode ser a do próprio rosto, refletido em um desses espelhos. É a última contemplação daquela versão de si. Não há como sair da boate do mesmo jeito que entrou. O ambiente desolador, o peso emocional e as lembranças da tragédia existentes naquele lugar mexem com qualquer ser humano.


Foto: Renan Mattos (Diário)
Espelhos no hall de entrada da Boate Kiss

A luz que entra pela porta avança alguns poucos metros, e quase nada pode ser observado sem ajuda de iluminação artificial. Sem a visão, outros sentidos se aguçam. A audição nada capta: além do som dos próprios passos e do ruído distante da rua, o silêncio é sepulcral. O olfato sente um leve cheiro de fumaça e fuligem. O tato também é restrito. Todas as superfícies estão cobertas com algum grau de pó e fuligem, e é preferível evitar qualquer alteração no cenário da tragédia. A área interna permaneceu inalterada para as investigações e o júri, marcado para dezembro. Depois, o plano é demolir a boate para a construção de um memorial em homenagem às vítimas.

O QUE SE VÊ NO INTERIOR DA BOATE

Na entrada, à direita, uma pilha de cacos de azulejos, da calçada em frente à boate. Perto da porta também estão depositados restos de materiais utilizados na pintura de fachadas, como latas de tinta, sprays e baldes. A última pintura foi em janeiro. Atualmente em preto, a fachada tem como inscrição principal, em branco, "Kiss, oito anos de impunidade". Também à direita, onde ficavam as bilheterias, há uma fonte natural de luz, que entra pelo teto quebrado. Neste local também estão fixadas no chão as barras de ferro que dificultaram a saída das pessoas em meio ao tumulto na madrugada do incêndio.


Foto: Renan Mattos (Diário)
Ao fundo, entrada dos banheiros da boate

Logo ao passar pelo hall de entrada, é possível ter uma visão de quase todo o interior da boate, mas apenas com ajuda de potente iluminação artificial. O tamanho da área interna da boate pode ser surpreendentemente pequeno para quem conhecia apenas por fotos e relatos da noite da tragédia, que davam conta de mais de mil pessoas no momento do incêndio. É difícil imaginar tanta gente ali, quando se vê pessoalmente o espaço pela primeira vez.

De costas para a entrada, à direita está a chapelaria e a entrada dos banheiros, onde parte das vítimas foi encontrada. À frente, o bar, e no fundo, mais à direita, está a área VIP. Na frente, um espaço aberto, com quatro mesas fixadas no chão, ao lado de outra grade, à esquerda. O palco principal, onde o fogo começou, fica ao fundo, do lado esquerdo, em uma área mais baixa. No ambiente do palco, à esquerda, há ainda outro bar e o mezanino. Esse espaço pode ser acessado do vão central por três aberturas na parede.

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O que mais chama a atenção, de cara, é o teto. Ali estava a espuma que, ao queimar, liberou o gás tóxico mortal. O teto está desabando em alguns pontos. Pedaços do forro de gesso estão pelo chão e outros insistem em ficar pendurados. Há espaços onde é possível vislumbrar o telhado. É a ação do tempo - já são quase nove anos do incêndio - e da entrada da chuva, que por vezes alagou a boate.

Várias das estruturas são de madeira, como os tampos das mesas, o bar e o revestimento de algumas paredes. Mesmo com o incêndio, o material não pegou fogo.


Foto: Renan Mattos (Diário)
Tampos das mesas, de madeira, permanecem intactos

As paredes mudaram de cor. Da metade da altura até o teto, as paredes roxas agora são pretas, cobertas de fuligem. Ao fundo do vão central, uma boca vermelha está pintada sobre uma parede preta. O lábio superior está tostado, com fuligem. O lábio inferior, mais longe do teto, ainda ostenta um vermelho mais brilhante. Do palco principal, ao fundo, no lado esquerdo, pouco se vê. O que se destaca é a parede com tijolos à vista.

Pelo chão, fuligem, restos de gesso e do material que desabou do teto e resíduos do caos que se instaurou naquela noite de janeiro - pedaços de madeira, restos de plásticos e muita sujeira. Não há objetos que pertenceram às vítimas. Tudo - documentos, roupas, calçados, eletrônicos - foi recolhido logo após a tragédia, ainda quando o prédio passou por perícia. Em uma das mesas, ainda está colado o nome de quem a reservou naquela noite.



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