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'De um dia para o outro eu virei um monstro', diz Elissandro Spohr

Sócio da boate Kiss falou pela primeira vez ao Diário desde o incêndio de 27 de janeiro de 2013

Leonardo Catto
Foto: Foto: Studio Méliès (Divulgação)
Elissandro Spohr falou apenas por texto via assessoria do advogado que o representa

Foto: Studio Méliès (Divulgação)
Elissandro Spohr falou apenas por texto via assessoria do advogado que o representa

A quatro dias para o começo do júri do caso Kiss, os quatro réus do processo adotam diferentes medidas diante da exposição. A reportagem do Diário tentou contato com as defesas de Elissandro Spohr (o Kiko), Mauro Hoffmann, sócios da boate, e Marcelo de Jesus e Luciano Bonilha Leão, integrante e roadie da banda Gurizada Fandangueira, que tocava na Kiss na madrugada do incêndio.

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A assessoria do advogado Jader Marques, que representa Elissandro Spohr, condicionou a entrevista a que o texto fosse publicado sem alterações. Por e-mail,o réu respondeu perguntas enviadas previamente. Esta é a primeira entrevista concedida por Elissandro ao Diário sobre o caso. Aos 38 anos, Elissandro, o Kiko, conta que sua rotina se resume em trabalhar, levar as filhas à escola e ficar em casa, em Porto Alegre, onde reside. Vacinado contra a Covid-19, ele trabalha com compra e venda de pneus e revela que segue afastado das redes sociais desde 2013.

A entrevista a seguir está na íntegra. Apenas foram acrescentadas informações, entre parênteses, para melhor compreensão de alguns fatos citados.

Diário - Para o senhor, de quem é a culpa pelo incêndio?

Elissandro Spohr - É preciso ficar muito claro que nunca fugi das minhas responsabilidades. Assim como não fugia das minhas obrigações antes do acontecimento. Eu era um empresário que confiava no poder público e honrava todas as guias de impostos. E da noite para o dia, passei a ser acusado de tirar a vida de muitas pessoas propositalmente. Pessoas que eram minhas amigas e por muito pouco eu mesmo, a minha a mulher e a minha filha não morremos. Por que eu faria isso de propósito? Os pais de frequentadores menores de idade iam até a boate para saber como funcionava para os filhos assistirem aos shows. Além de sempre orientar que não poderiam entrar sem a presença de um responsável, nós mostramos todas as medidas de segurança: as luzes, os extintores, as reformas que nos mandaram fazer e especialmente todos os alvarás pendurados nas paredes. Aqueles papéis estavam ali para afirmar para mim e para meus clientes que a minha boate era segura. Por que antes do incêndio ninguém disse que a Kiss era perigosa? Por que os agentes públicos que entraram lá não avisaram? Por que recebi todos os alvarás? Por que o MP, que é a maior autoridade de controle, mandou fazer uma reforma que terminou numa tragédia? Quem deixou a Kiss funcionar tem culpa e deveria estar comigo lá no julgamento.

Diário - O incêndio é a maior tragédia do Estado. Como é ser réu neste caso?

Elissandro - É horrível. Eu não comprei a Kiss para matar ninguém. Até mesmo falar com o Diário de Santa Maria é estranho. Sempre dei entrevista para esse jornal para falar de empreendedorismo e de alegria. Agora preciso falar sobre essa situação dolorosa. Mas eu ainda sou o Kiko. Aquele cara que qualquer pessoa tinha o telefone para pedir ingresso. Aquele que todo mundo abraçava e chamava de amigo. Aquele jovem que antes era convidado e bem-vindo, mas que agora precisa montar um esquema de segurança para conseguir sair de casa. Ser réu, ser considerado um assassino, tudo isso é horrível. Especialmente porque eu tinha certeza que estava fazendo tudo certo. De um dia para o outro eu virei um monstro. Eu vivo o dia 27 de janeiro todos os dias. Faria o possível e o impossível para que nada daquilo tivesse acontecido. Santa Maria tinha lugares muito mais perigosos que a Kiss que ficaram abertos anos. Acredito que muita gente lembra da estrutura da boate do DCE. As pessoas faziam festa lá, mas nunca se sentiam seguras. Os frequentadores sempre comentavam sobre a falta de estrutura de escape e de iluminação adequada. O que aconteceu na Kiss foi um choque de realidade. Descobri que não se pode confiar no Poder Público e que é fundamental para um empresário desconfiar se está tudo certo de fato mesmo com todos os alvarás, mas eu soube disso da pior maneira. Desde o primeiro dia após o incêndio, estou disponível para dar todas as informações. Eu sempre assumi minhas responsabilidades e a minha culpa. Porque eu tenho responsabilidade sim, por ter acreditado na prefeitura, nos Bombeiros e especialmente no Ministério Público. Culpa por acreditar que um papel pendurado na parede e guias caríssimas pagas deixavam o meu estabelecimento seguro para eu trabalhar e receber meus clientes, amigos e familiares Eu não tive intenção de matar ninguém. Eu não comprei uma arma, eu comprei uma boate pronta, com todos os documentos e fui submetido a um TAC (termo de ajuste de conduta). A boate sofreu dois TACs. Com o antigo dono e comigo. Por que não fecharam? Porque tudo que eles mandavam era feito. Tudo. Exatamente tudo. Eles entravam pelas mesmas portas, com a mesma iluminação, com os mesmos extintores e me diziam: está tudo certo. Eu quero responder tudo que for da minha responsabilidade. Repito isso há quase nove anos. Mas quero saber qual a resposta que o poder público vai dar para a sociedade gaúcha além de escolher quatro culpados. Porque depois da Kiss, o Mercado Público de Porto Alegre pegou fogo. A Secretária Estadual de Segurança pegou fogo. O hospital federal Bonsucesso pegou fogo no Rio de Janeiro. O Museu Nacional pegou fogo. Um dos depósitos do Detran-RS acabou de incendiar esta semana. Entendo que muita gente quer se sentir vingado, entendo mesmo. É a dor de quem perde. Mas o júri é sobre justiça e não haverá justiça se somente quatro pessoas forem culpadas por um erro cometido por muitas pessoas com cargos públicos e seus altos salários e mordomias. A mesma mão que abriu a porta da boate para funcionar, agora grita aos quatro ventos para me acusar. A sociedade precisa escolher se quer vingança ou justiça. Dia 1º estarei mais uma vez disposto a falar e assumir toda minha responsabilidade. E o promotor (Ricardo) Lozza? Vai aparecer?

Nota da Redação - A última resposta de Elissandro foi dada antes de o promotor de Justiça Ricardo Lozza confirmar a presença no júri. Ele foi convocado como testemunha justamente pelo advogado Jader Marques.


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