falta de chuvas

Com 25 cidades em emergência, prejuízo no campo chega a R$ 1,5 bilhão na Região Central

Para além do prejuízo econômico, esses municípios sofrem também com falta de água potável para consumo dos moradores

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Foto: Foto: Eduardo Ramos (Especial)


Foto: Eduardo Ramos (Especial)

Quase quatro meses de chuvas escassas no Estado se refletem em produção minguada no campo. Boa parte de todo o arroz, soja e milho produzidos na Região Central devem ficar com produtividade muito abaixo do esperado. A forte estiagem compromete a economia agrícola, principal fonte de renda de muitos municípios, e já deixa 25 prefeituras da região em situação de emergência. A expectativa de perdas já está em R$ 1,5 bilhão em 35 cidades da regional da Emater, com projeção de aumento dos prejuízos nos próximos meses.


As maiores perdas são na soja, principal cultura produzida na região. Houve dificuldade no plantio e, agora, no desenvolvimento das plantações. Como a colheita ocorre entre os meses de março e maio, as perdas ainda tendem a aumentar até lá.

- Já se tem perdas irreversíveis, que não tem como recuperar. E a cada dia sem chuva cresce a preocupação e a estimativa de perdas. Só na soja devemos ter cerca de 40% da produção comprometida - analisa o gerente regional da Emater, Guilherme Passamani. 

Os dados são preocupantes, uma vez que o tamanho das lavouras de soja quase triplicou em 11 anos na região: em 2010, eram de 370 mil hectares; neste ano, chegou a 919 mil hectares. Preço, rentabilidade e uso de novas tecnologias estão entre os fatores que contribuíram para o avanço do chamado "grão de ouro". Porém, em períodos de estiagem, como agora, o prejuízo dos agricultores é diretamente proporcional, já que não há irrigação e há dependência exclusiva das chuvas.

Ainda assim, mesmo nas lavouras de arroz, que são 100% irrigadas na região, já há perspectiva de 20% de perdas. Isso porque os reservatórios de água estão baixos e sem vazão.

- O que acontece é que alguns produtores puxam a água de rios e riachos para as lavouras. E todos os rios da região já estão em uma situação crítica. Mesmo aqueles arrozeiros que têm açudes ou barragens próprias podem não ter água suficiente até o fim da safra - explica o gerente regional da Emater. 

PERDAS AGRÍCOLAS NA REGIÃO CENTRAL*

CulturaÁrea plantada (hectares)Área atingida (hectares)Perdas (toneladas)
Arroz30.8106.04011.244
Milho35.55531.10589.110
Soja919.573714.417462.748
Feijão1.231896595
Leite--1.102.103

*Dados referentes aos 35 municípios de abrangência da Emater na região

Segundo o professor Alencar Zanon, do Departamento de Fitotecnia da UFSM, mesmo que chova nos próximos dias, a safra já está comprometida. Milho e soja devem ficar com a maior porcentagem de perdas.

- O milho está todo comprometido, com perdas superiores a 60% no Estado. Com relação à soja, o prejuízo já começou com o atraso na época de semeadura. E quanto mais tarde o produtor fez o plantio, mais perdas deve ter. Se não vier a chuva que está marcando para os próximos dias, o prejuízo deverá ser ainda mais avassalador - destaca.  


Foto: Prefeitura de Formigueiro (Divulgação)
Lavoura na cidade de Formigueiro

EMERGÊNCIA NA REGIÃO

As cifras expressivas de perdas deixam 25 municípios da Região Central em situação de emergência. Para além do prejuízo econômico, essas cidades sofrem também com falta de água potável para consumo dos moradores. Conforme levantamento feito pelo Diário na semana passada, são, pelo menos, 2,1 mil famílias com esta realidade na região. 

Para amenizar o problema, as prefeituras fazem entrega de água em caminhão-pipa. Além do óbvio transtorno que isso causa aos moradores, que precisam armazenar a água em galões e caixas e racionar para que não falte até a próxima distribuição, há o impacto às prefeituras, que precisam despender recursos para essas e outras ações de mitigação dos impactos da seca. Por isso, a necessidade de assinatura do decreto do emergência, que dá benefícios aos produtores rurais, como renegociação de dívidas, mas também acesso a recursos estaduais e federais aos municípios.

Entre as prefeituras que assinaram o decreto nos últimos dias está Formigueiro. Por lá, As perdas na soja são de 40% e no milho de 50%. A Defesa Civil faz entrega de água das 7h às 19h, todos os dias.

- Nossa barragem está secando e já trabalhamos junto à Corsan a possibilidade de racionamento na cidade. Cada vez que o caminhão-pipa vai ao interior, tem mais famílias precisando de água - afirma o prefeito Jocelvio Crdoso (MDB), o Xirú.


Foto: Prefeitura de Ivorá (Divulgação)
Distribuição de água em Ivorá

Em Ivorá, cidade da Quarta Colônia, a entrega de água na Zona Rural é feita desde o dia 26 de novembro. No momento, a prefeitura atende mais de 80 famílias em diferentes comunidades. Também é realizada a aquisição de mangueiras e reservatórios de água para facilitar a distribuição. 

O município de Mata, que encaminhou o decreto na terça-feira, já estima um prejuízo de R$ 7 milhões no setor agrícola, ao levar em consideração a soja (20%), milho grão (60%), milho silagem (60%), fruticultura (20%).

Em Santa Maria, já são 75 pontos de abastecimento de água no interior, para cerca de 124 famílias. Nesta semana, a prefeitura recebeu auxílio do Exército para a atividade. No campo, os prejuízos estão em torno de R$ 44,5 milhões, segundo a Emater. 

No Rio Grande do Sul, já são 200 prefeituras que assinaram o decreto, o que representa 40% do total de 497 municípios gaúchos.

CIDADES EM SITUAÇÃO DE EMERGÊNCIA NA REGIÃO

  • Agudo (decreto já homologado pelo Estado)
  • Cacequi
  • Cruz Alta
  • Faxinal do Soturno
  • Formigueiro
  • Itacurubi
  • Ivorá
  • Jaguari
  • Jari
  • Júlio de Castilhos (decreto já homologado pelo Estado e reconhecido pela União)
  • Mata
  • Nova Esperança do Sul
  • Nova Palma
  • Quevedos
  • Paraíso do Sul
  • Pinhal Grande
  • Rosário do Sul
  • Santa Maria
  • São Francisco de Assis
  • São João do Polêsine
  • São Martinho da Serra
  • São Pedro do Sul
  • Toropi
  • Tupanciretã (decreto já homologado pelo Estado e reconhecido pela União)
  • Vila Nova do Sul

EM 2020, PREJUÍZO CHEGOU AOS R$ 3 BILHÕES

No ano passado, o campo não sofreu com a estiagem. Embora os primeiros meses do ano tivessem sido de pouca chuva também, as precipitações ocorreram nos momentos "certos" e permitiram o bom desenvolvimento das plantações. Com isso, o Estado teve safra de soja recorde, com quase 20 milhões de toneladas colhidas em solo gaúcho. Na Região Central, o "grão de ouro" movimentou cerca de R$ 9 bilhões.

Porém, um ano antes, na safra 2019/2020, houve perdas bilionárias com a seca e todos os municípios da região assinaram o decreto de emergência. A estimativa ficou em torno de R$ 3 bilhões de prejuízos na safra de verão só na Região Central. Além dos danos mais aparentes no milho e na soja, a falta de chuva e o calor excessivo impactaram na pecuária e hortifrutigranjeiros. Dados do escritório municipal da Emater estimaram que R$ 175 milhões deixaram de circular em Santa Maria naquele ano por causa da estiagem que afetou o setor agrícola. O cenário vai se repetir em 2022.

MINISTÉRIO DA AGRICULTURA

A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, visitou propriedades afetadas pela estiagem em Santo Ângelo, na Região das Missões no Rio Grande do Sul, nesta quarta-feira. Tereza conversou com agricultores, foi até algumas lavouras e se reuniu com entidades do agronegócio para ouvir as reivindicações do campo. Cidades de Santa Catarina, Paraná e Mato Grosso do Sul também estão na agenda da ministra nos próximos dias. A Federação das Associações Municipais do Rio Grande do Sul (Famurs) cobra medidas do governo federal para amenizar os impactos da seca.

RECURSOS ESTADUAIS

O governo do Estado informou, nesta quarta-feira, que os recursos para a execução do programa Avançar na Agropecuária e no Desenvolvimento Rural devem estar liberados na próxima semana. Neste momento, a Secretaria da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural (Seapdr) vem concluindo os termos de referência necessários aos processos licitatórios das obras relacionadas à reservação de água no Rio Grande o Sul. 

Num primeiro momento, a secretaria vai concentrar os trabalhos na viabilização de quatro licitações para concretizar a perfuração de 750 poços, a implantação das 750 torres metálicas e caixas d'água, escavação de 6 mil microaçudes e implantação de 1,5 mil cisternas no Rio Grande do Sul.

Lançado em 2 de dezembro do ano passado, o Avançar na Agropecuária e no Desenvolvimento Rural prevê um investimento de R$ 275,9 milhões. Entre os três grandes eixos estratégicos contemplados, está a agenda da qualificação da irrigação e conservação da água, com o montante de R$ 201,42 milhões. Os outros eixos são o fortalecimento da agricultura familiar (R$ 35,34 milhões) e as melhorias nos acessos às propriedades para facilitar o escoamento da produção agropecuária (R$ 39,15 milhões).


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