reportagem especial

Custo da pesquisa aumentou e recursos se mantiveram ao longo dos últimos cinco anos

Além disso, cortes no orçamento das universidades e aumento do dólar dificultam a manutenção dos laboratórios

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Foto: Foto: Renan Mattos (Diário)


Foto: Renan Mattos (Diário)

Se hoje as lâmpadas de LED podem ser encontradas a um custo razoável no mercado, muito se deve aos laboratórios da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Santa Maria é um dos maiores centros de pesquisa em iluminação de LED há mais de 20 anos. Daqui foram exportadas pesquisas para os maiores fabricantes do produto no planeta. Essa é só mais uma das tecnologias lançadas pela indústria internacional que passaram pelos laboratórios da UFSM. O Diesel S-10, com menor emissão de dióxido de enxofre na atmosfera, só é produzido em larga escala pela Petrobrás graças aos anos dedicados à pesquisa em espaços como o Centro de Estudos em Petróleo (Cepetro) na UFSM. A universidade também está no mapa da pesquisa da vacina de Oxford/AstraZeneca já em uso no Brasil como uma das estratégias de controle da pandemia da covid-19.

A lista de estudos que ganham o mundo a partir do conhecimento construído na universidade é enorme. Não faltam nos campi pesquisas de ponta, pesquisadores com a maior classificação nos parâmetros internacionais e publicações que despertam o interesse da indústria que investe no futuro. Mesmo assim, a injeção de dinheiro na área de pesquisa desanima professores e alunos. Em 2020 a universidade contou com R$ 44 milhões em incentivos à pesquisa. De acordo com o vice-reitor, Luciano Schuch, o montante se manteve em relação aos últimos cinco anos. Mas, de acordo com pesquisadores, os recursos vêm caindo nas últimas décadas. Além disso, o custo da pesquisa que exige a importação de insumos sofre com a alta do dólar. Com isso, a realidade dos laboratórios vive um paradoxo de sucateamento ao mesmo tempo que equipamentos de alto valor são subutilizados por falta de dinheiro para os testes.

Os recursos são de bolsas para professores e alunos e não contam como parte do orçamento da UFSM, que somou R$ 1,2 bilhão em 2020. Conforme o vice-reitor, tirando o salário de servidores, o que resta para custeio e manutenção gira em torno de R$ 140 milhões. É daí que saem os recursos para manter a funcionando a estrutura de uma engrenagem de 27,5 mil alunos, 267 cursos, mais de 2 mil professores e 2,6 mil técnicos administrativos em educação.

Dos R$ 44, 1 milhões destinados às bolsas, a maior parte são da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), fundação vinculada ao Ministério da Educação e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), entidade ligada ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações.

A maior parte do financiamento das pesquisas está no Centro de Tecnologia (CT), no Centro de Ciências Rurais, que concentra os estudos relacionados ao agronegócio, propulsor do PIB nacional, e o Centro de Ciências Naturais e Exatas, que conta com grande contribuição de parceiros externos.

"A universidade olha o passado para pensar o futuro", lembra o pró-reitor da UFSM

Considerando que a pesquisa no Brasil nasce nas universidades públicas e é financiada pelos impostos pagos pelos cidadãos, a cobrança pela contrapartida das academias para a sociedade é frequente. O vice-reitor lembra que as universidades atendem "o tripé" ensino, pesquisa e extensão. Quando a sociedade cobra um retorno imediato do que é estudado nas academias, está cobrando ações de extensão, mas quando se fala em pesquisa e inovação, a resposta não tem como ser instantânea, explica:

- A universidade olha o passado para pensar o futuro. Não é o nosso principal papel pensar o dia de hoje. A gente contribui com a extensão, mas quem faz o dia de hoje são os nossos empresários, o governo. Se a gente botar toda a nossa força de trabalho para fazer o hoje, não teremos o amanhã.

Isso quer dizer que se a comunidade leiga olhar as pesquisas em andamento no Brasil hoje pode não ver sentido dos objetos de estudo. Schuch explica que Santa Maria quase não tem indústrias que demandem o nível de conhecimento que a universidade produz e que por isso não trabalha diretamente com quem produz aqui.

- Como as pessoas vão sentir a pesquisa na universidade? Ao instalar esses painéis de energia solar que vemos nas casas hoje, por exemplo. Praticamente todo o inversor que é vendido no brasil, passa pelo laboratório da universidade para fazer certificação ou avaliação de eficiência, mesmo sendo feito por uma empresa que não é daqui - assegura o vice-reitor.

Outro exemplo colocado por Schuch é o estudo de transformadores eletrônicos. Enquanto a realidade da rede de distribuição de energia ainda é de transformadores a óleo nos postes, na universidade, uma empresa americana financia o estudo de transformadores elétricos para no futuro serem produzidos em larga escala e substituírem o processo mecânico atual.

Nesta reportagem você confere alguns exemplos de pesquisas e pesquisadores de renome internacional que enfrentam o sucateamento dos laboratórios e a falta de recursos para tocar projetos de inovação no Brasil.

VALOR DESTINADO À PESQUISA NA UFSM EM 2020

  • Projeto de Internacionalização Institucional (CAPES/PrInt) - R$ 7.649.013,28
  • Bolsas CAPES (Demanda Social e de de Apoio à Excelência - PROEX) - R$ R$ 29.689.200
  • Bolsas Programa Nacional de Pós-Doutorado (PNPD/CAPES) - R$ 1.771.200
  • Bolsa Ação Emergencial CAPES (Pesquisas voltadas à criação de conhecimento para a prevenção e combate ao novo coronavírus) - R$ 337.200
  • Bolsas Fapergs - R$ 442.800
  • Bolsas CNPQ - R$ 2.082.000
  • Bolsas Programa de Mestrado e Doutorado Acadêmico para Inovação(MAI/DAI/CNPq) - R$ 442.800
  • Pró-revistas - R$ 56.000
  • Programa de Apoio a Pós-graduação (PROAP) - R$ 1.665.824,04
  • Total - R$ 44.136.037,28*
    *Valor não compõe o orçamento geral da UFSM e é pago diretamente ao bolsista

Foto: Renan Mattos (Diário)
Na Granja Irmãos Santini, Roberto Rossini Santini, 56 anos, comemora a ajuda do app desenvolvido pela UFSM para ajudar no manejo da lavoura de arroz

Aplicativo PlanejArroz aproxima o produtor da ciência

A Organização das Nações Unidas para Alimentação (FAO) estima que a agricultura mundial terá uma demanda 80% maior de produção de alimentos para atender a uma população de 9,7 bilhões de pessoas até 2050. Com base nesta projeção, o Brasil se coloca como uma potência global pela abundância de terras aptas, clima e pela expertise da produção agropecuária. Se hoje isso é possível é porque a pesquisa possibilitou a adaptação das culturas ao clima, às pragas e outros percalços. E para que a pesquisa de ponta chegue ao produtor é preciso eficiência, segundo o professor Nereu Augusto Streck:

- Precisamos ser eficientes no tempo e nos recursos financeiros para a pesquisa. E só conseguimos ser eficientes se conseguimos resolver problemas reais com a pesquisa que fazemos. Tudo está mudando muito rápido e temos que estar junto com o produtor aprendendo e ensinando, de forma descomplicada.

Engenheiro agrônomo com doutorado no Estados Unidos, Streck estuda como as plantas agrícolas funcionam e como este conhecimento pode melhorar o manejo e a lucratividade do produtor rural. Ele é o coordenador e responsável pelo software SimulArroz, desenvolvido a partir de conhecimento gerado durante 15 anos pela Equipe FieldCrops da UFSM. O produto é resultado de um modelo matemático que simula diversos processos da cultura do arroz.

O sistema utiliza parte de códigos fontes de modelos anteriores, o ORYZA 2000, do Instituto Internacional de Pesquisa em Arroz e o InfoCrop, publicado em 2006, por pesquisadores indianos. O Grupo de Agrometeorologia da UFSM adaptou os formatos às cultivares de arroz indicadas para cultivo no Rio Grande do Sul. Gerado com recursos da UFSM, Fapergs, CNPq e Capes, o produto da pesquisa hoje está disponível gratuitamente para todos os produtores.

O modelo também é usado pela Embrapa no Ministério da Agricultura há três anos para atualizar, a cada safra, o zoneamento da cultura do arroz no Estado. Esses indicadores determinam como o produtor de arroz acessa o crédito agrícola no Branco do Brasil. Ou seja, a pesquisa gerada na UFSM ajuda na definição de políticas agrícolas para otimizar os recursos públicos.

Nesta safra também está disponível o aplicativo para celular chamado PlanejArroz, desenvolvido por uma parceria entre a Embrapa, a UFSM, o Irga e o INMET. No PlanejArroz, o SimulArroz é a parte inteligente do algoritmo que permite o produtor de arroz tenha uma previsão de produtividade da sua lavoura, além de acompanhar a evolução dela desde a semeadura. Para isso, o produtor insere quatro informações: o município, a cultivar (a variedade da planta) semeada, o estágio de desenvolvimento da planta e a data de emergência das plantas na lavoura.

- É uma ferramenta única no mundo para a cultura do arroz - conta o professor.

AUXÍLIO NO MANEJO

Com 62 hectares de arroz, a propriedade da família Santini, em Arroio do Só, Distrito de Santa Maria, utiliza os resultados dos estudos da UFSM. Conforme o agricultor e estudante de Agronomia Daniel Bisognin Santini, 21 anos, a família conheceu o SimulArroz em 2017, antes da existência do aplicativo. O jovem conta que a versão web era um pouco mais complicada para o produtor com pouco conhecimento de informática, mas que o problema foi ultrapassado com o PlanejArroz:

- A versão para celulares Android facilitou muito o uso por qualquer pessoa, seja agricultor ou profissional da área da agronomia, para utilizar direto a campo. É mais uma ferramenta da agricultura 4.0 que veio pra ajudar e trazer mais tecnologia pro campo. E o melhor de tudo isso que é uma ferramenta gratuita e acessível a todos.

Há duas formas de uso do app. Uma delas é para estimar a produtividade e a outra é para auxílio no manejo da lavoura. De acordo com Daniel, na Granja Irmãos Santini, a segunda forma é a mais útil.

- É possível se planejar para realizar intervenções na lavoura, por exemplo no manejo em R4 da lavoura, que é o início da floração, devemos estar preparados para a aplicação de fungicida, para controle da Brusone (doença causada por um fungo na lavoura de arroz). Sem o aplicativo, o produtor precisa estimar com base nos seus conhecimentos quando que irá ocorrer o estágio R4 - exemplifica.

Pai de Daniel, Roberto Rossini Santini, 56 anos, comemora a tecnologia:

- Agora só falta inventarem um aplicativo pra abrir as porteiras pra gente. 

Foto: Divulgação (Arquivo Pessoal)
Fernanda Barbisan (à esquerda), no laboratório de Biogenômica da UFSM, onde foi realizado o estudo sobre óleo de abacate

Óleo de abacate para diminuir efeitos do estresse também é um dos estudos da universidade pública

É do Laboratório de Biogenômica da UFSM que também surge um estudo inédito no mundo: o uso do óleo de abacate para a diminuição dos efeitos negativos do estresse. O mesmo laboratório descobriu, em 2017, o potencial do açaí, uma das riquezas da Amazônia, no tratamento de doenças como o transtorno bipolar, em parceria com a Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e a Universidade de Toronto, do Canadá. O trabalho sobre o óleo de abacate nasceu da dissertação da mestranda Jéssica de Rosso Motta com orientação da professora Fernanda Barbisan e co-orientação da prof Ivana Beatrice Mânica da Cruz.

Conforme Ivana, o grupo de pesquisa partiu de estudos já existentes apontando o óleo de abacate como responsável por uma ação antiinflamatória e antioxidante no organismo, ajudando a reduzir sobrepeso e obesidade. Nesses estudos as conclusões se baseavam em fases mais avançadas, os chamados ensaios clínicos, isto é, os testes feitos em humanos. Segundo Ivana, já existe interesse nas propriedades do óleo de abacate também na área veterinária.

- Em um deles (dos estudos), vimos que, após o consumo do abacate por um dos grupos estudados, havia redução drásticas nos marcadores inflamatórios. Aí a ente se perguntou quais seriam esses mecanismos que levariam a este processo e se o óleo do abacate não poderia estar controlando os efeitos negativos do hormônio cortisol, que está associado ao estresse - explica Ivana.

A professora explica que o estresse é uma adaptação do organismo em situações de sobrevivência, como fuga e luta. Este processo desencadeia a liberação de cortisol, que é um hormônio que faz parte do ritmo circadiano. Porém, quando exposto por muito tempo ao estresse, o organismo começa a apresentar desequilíbrios que podem levar à ansiedade, depressão, ganho de peso e afetar o sistema imunológico, por exemplo.

No trabalho feito na UFSM, os pesquisadores submeteram células uma grande quantidade de cortisol por 72 horas in vitro. Depois, repetiram o protocolo incluindo o óleo de abacate. O resultado foi a diminuição dos efeitos negativos do estresse nas células.

- Nosso próximo passo é fazer outros estudos para comprovar qual seria a melhor dose para seres humanos, mas, de qualquer forma, como o óleo de abacate tem muitos ensaios clínicos mostrando que não faz mal para saúde, é possível sugerir a inclusão na dieta para diminuir os efeitos do estresse - instrui a pesquisadora.

CONTINUIDADE AMEAÇADA

A pesquisa teve parceria com a Fundação Universidade Aberta da Terceira Idade do Amazonas (UnATI) com apoio da Ulbra Santa Maria. O investimento no estudo girou em torno de R$ 20 mil. Com o dólar em alta, o preço dos insumos tende a elevar os gastos com os experimentos. Só as células, que são importadas dos Estados Unidos, custam cerca de R$ 4 mil.

O grupo de pesquisa ainda não sabe como dará continuidade aos estudos com ensaios clínicos. Conforme Ivana, a primeira etapa contou com recursos já liberados pela Fapergs e CNPq. No entanto, para um horizonte próximo, não há perspectiva de novos recursos.

- Nos últimos dois anos não obtivemos mais nada. A gente está numa situação de penúria. A maior parte dos outros projetos a gente parou - lamenta.

Os cortes nos orçamentos das universidades públicas, celeiros das pesquisas no Brasil, obrigam os entusiastas do conhecimento a investir dinheiro do próprio bolso. Mesmo com bolsas de no máximo R$ 2,2 mil, valor que só é pago aos doutorandos, os estudantes promovem vaquinhas para a compra de reagentes. Os alunos de graduação, inclusive, estão trabalhando de forma voluntária, já que o laboratório está sem bolsas de iniciação científica para este público no momento. O custo da revisão da versão em inglês do artigo exigida por revistas internacionais também foi rateado entre os estudantes. A própria orientadora, Fernanda Barbisan, usou recursos próprios para a compra do óleo.

De acordo com Fernanda, os recursos que veem de projetos de pesquisa aprovados em editais de agências financiadoras como a Capes são pequenos diante dos custos cada vez mais altos do material:

- Ganhamos um projeto na Fapergs de R$ 54 mil, mas foram liberados somente R$ 16 mil. Foi assim que sustentamos o laboratório ano passado. Hoje em dia, nosso saldo para compras de reagente está zerado. Com o aumento do dólar, tudo subiu mais de 100%. O mesmo trabalho hoje custaria R$ 40 mil - ilustra Fernanda.

O resultado é que, sem os reagentes, existem equipamentos financiados por verba pública que estão parados e, portanto, sendo subutilizados.

Para Ivana, a figura profissional do cientista não existe no Brasil e a população não sabe que o professor ocupa esse papel nas academias, com um investimento muito baixo para a pesquisa:

- Às vezes a população não enxerga que cada vez que ela entra em uma farmácia e compra um remédio ou um suplemento alimentar, tem muito estudo por trás daquele produto. A Anvisa só autoriza a entrada no mercado de produtos com eficácia. A ciência está na nossa vida - defende a professora.

Foto: Pedro Piegas (Diário)
Cristina é parte do percentual de 10% de mulheres entre os 600 pesquisadores brasileiros mais influentes do mundo

RESISTÊNCIA FEMININA

A professora Cristina Wayne Nogueira, do Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular, que pertence ao Centro de Ciências Naturais e Exatas da UFSM representa um público ainda pequeno na ciência. Ela é parte do percentual de 10% de mulheres entre os 600 pesquisadores brasileiros mais influentes do mundo segundo a revista Plos Biology. Entre os professores da UFSM, ela é uma das duas mulheres no ranking dos 14. Dados do CNPq de 2015 também mostra que o universo de mulheres bolsistas de produtividade 1A do CNPq é de 24%.

Abrir caminho para as mulheres na pesquisa demanda uma série de políticas para minimizar a desigualdade de gênero, na visão da pesquisadora. As mulheres enfrentam uma corrida desigual pela produtividade acadêmica durante a maternidade, por exemplo. De acordo com Cristina, o benefício da licença maternidade para as bolsistas de pós-graduação, e a desconsideração, nos processos de avaliação, do período em que as mulheres estão em licença, já que a produtividade é menor, são algumas das ações possíveis. Outra necessidade é criar meios de expandir a representatividade de mulheres em cargos diretivos, comitês científicos, associações de classe, fundações, entre outros.

Além dos obstáculos de gênero, Cristina enfrenta a realidade da desvalorização da ciência em termos de incentivo financeiro. Para ela, os pesquisadores vivem uma dualidade. Se por um lado o momento é de muita visibilidade para a ciência, por conta da pandemia e da avalanche de informações sobre as vacinas, por outro lado, tanto as oportunidades de bolsas de pesquisa quanto os financiamentos de projetos estão escassos. Somado a isso, a crise econômica global impacta os custos dos insumos utilizados na pesquisa, e os cortes nos orçamentos das universidades prejudicam a manutenção dos laboratórios.

- Certos consumíveis são contrapartida das universidades para a execução dos projetos de pesquisa - explica.

O grupo de pesquisa coordenado por Cristina se dedica a entender se estresse pode influenciar nos efeitos indesejados de remédios usados no tratamento do câncer, ou na predisposição à depressão associada a disfunções gastrointestinais. Para isso, é feito o estudo toxicológico e o potencial farmacológico de moléculas inéditas que contenham os átomos de selênio ou telúrio. A pesquisa é o pontapé inicial para criação de alternativas terapêuticas para obesidade, diabetes e toxicidade causada por quimioterápicos, por exemplo.

A professora alerta que os cortes em ciência irão refletir negativamente no crescimento econômico e desenvolvimento social do país. Enquanto isso, como cientista, ela aposta nas parcerias público-privadas e o financiamento de agências internacionais como tábua de salvação:

- Não restam dúvidas que precisamos aporte de recursos contínuos para a pesquisa, por que como todos estão vivenciando, no caso do coronavírus, não se faz ciência do dia para noite. Não existe milagre - lembra.

Foto: Pedro Piegas (Diário)
Professor Gilson Rogerio Zeni é um dos pesquisadores mais influentes do mundo segundo a revista Plos Biology

Paradoxo: sobra destaque e falta incentivo

Assim como Cristina, o professor Gilson Rogério Zeni, trabalha com moléculas que contenham um átomo de selênio com o intuito de apontar remédios que possam representar novas opções de tratamento para doenças como depressão, diabetes e obesidade. Ambos são pesquisadores nível 1A, o mais alto da classificação de produtividade do CNPq. Eles trabalham com ciência básica, ou seja, em pesquisas que não têm aplicação imediata e que, portanto, despertam menos interesse de financiamento de empresas que esperam um retorno mais rápido.

Graduado em Química Industrial com mestrado em Química pela UFSM, Zeni fez doutorado em Química na USP-SP e pós-doutorado nos Estados Unidos. Ele também figura entre os 14 pesquisadores da UFSM no ranking dos mais influentes do mundo. Mas o lugar de destaque contrasta com uma realidade nada glamourosa. O ritmo das pesquisas no laboratório diminuiu e existe o risco de paralização das atividades por falta de recursos.

- Não é um bom momento, houve um corte significativo de bolsas para os alunos, em todos os níveis (iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado) e não há financiamento para pesquisa. Nós aprovamos recursos nos últimos editais das agências financiadoras, mas o dinheiro vai acabar nos próximos meses e não tem novos editais abertos - detalha.

Segundo o pesquisador, o cenário é assim há décadas, mas o contexto atual é ainda mais severo.

- A pesquisa no Brasil é altamente criativa e resolve muitas demandas da população, mas o grande problema é o financiamento. Temos ideias, somos criativos e trabalhos muito, entretanto, atualmente os financiamentos quase inexistem. Em outros períodos nos recuperamos, trabalhando mais, acredito que com dedicação e muito trabalho também possamos superar este momento - espera Zeni.

Foto: Renan Mattos (Diário)
Laboratório que Flores coordena na UFSM foi contratado para desenvolver um sistema de remoção de enxofre do óleo diesel pela Petrobrás

Diesel S-10 um dos combustíveis mais limpos tem assinatura da UFSM

Outro nome entre os 14 pesquisadores referidos entre os internacionalmente influentes é o do professor Érico Flores. Com várias patentes de produtos comercializados em mais de 20 países, o cientista é representante brasileiro em instituições técnicas ou científicas internacionais e ministra palestras em mais de 15 países. O laboratório que Flores coordena na UFSM foi contratado para desenvolver um sistema de remoção de enxofre do óleo diesel para que o combustível chegasse a um teor de 10 ppm (10 miligramas de enxofre para cada 1 quilo do líquido). A missão foi cumprida e tem nome: o óleo Diesel S-10 Petrobras, disponível desde 2013 para uso. O pesquisador e equipe desenvolveram, dentro da UFSM, um sistema baseado no uso de ultrassom de alta potência que foi patenteado pelo grupo de pesquisa em conjunto com a Petrobrás. Os resultados foram publicados em diversas revistas internacionais de alto impacto.

É Érico Flores que está à frente de alguns dos mais modernos laboratórios da UFSM, o Centro de Estudos em Petróleo (Cepetro) e o Laboratório de Análises Químicas Industriais e Ambientais (LAQIA). O Cepetro, inclusive, é uma estrutura financiada pela Petrobrás para pesquisas de energias alternativas vinculadas à área petroquímica.

Entre as principais pesquisas em andamento do grupo de pesquisas, estão o desenvolvimento de métodos de controle de qualidade de medicamentos e de produtos industriais.

Mesmo com um currículo extenso e premiado, o discurso do professor é de temor em relação aos rumos da ciência no Brasil. Segundo ele, a pesquisa teve um bom momento na década de 2000, mas, desde 2016, vem sofrendo cortes significativos. O resultado é o sucateamento dos laboratórios, a perda de cientistas para outros países e a interrupção de estudos. O pesquisador lembra que é das universidades públicas que saem a maioria dos trabalhos científicos de alto nível no Brasil e que mesmo assim, não recebem o incentivo necessário em termos financeiros.

Segundo Flores, enquanto países que estão em crise investem maciçamente em ciência, o Brasil tem seguido na contramão:

- Para chegar onde estamos houve investimentos por décadas, mas que tudo pode ser perdido em poucos anos se nada for feito por nossos governantes. O Brasil é um país que, atualmente, investe muito pouco em ciência e essa falta de compromisso certamente cobrará seu preço a curto prazo. 

*Colaborou Luiza Oliveira


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