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VÍDEO: gás de cozinha chega a custar R$ 108 em Santa Maria

No Rio Grande do Sul, valor do botijão representa a 8,36% do salário mínimo. Campanha busca arrecadar vale-gás para quem precisa

Leonardo Catto
Foto: Foto: Renan Mattos (Diário)

Foto: Renan Mattos (Diário)

As refeições na casa de Gleycimar Carrion, 38 anos, voltaram a ser feitas no fogão a gás no último final de semana. Há um mês, a única opção era o fogão a lenha. Com o preço do gás de cozinha além do que pode pagar - ela chegou a encontrar um botijão por R$ 118 -, foi graças a uma doação que as bocas do fogão voltaram a acender. Para auxiliar quem não consegue bancar o produto, o projeto Gás na Cozinha distribuiu vales.


Ainda que tenha o gás agora, Gleycimar é cautelosa. Engrossar feijão pode ser um luxo, já que gasta mais. Ela vive com quatro filhos, de 3, 6, 13 e 20 anos. O sustento mensal é garantido por R$ 375 do auxílio emergencial. A partir de novembro, porém, o programa acaba, a família volta a ter os R$ 212 do Bolsa Família como renda fixa.

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O último valor divulgado pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) ainda é referente a agosto, mas considerando os R$ 92,03 para o botijão de 13 kg, isso representa 43% do valor da parcela mensal do Bolsa Família que a família de Gleycimar recebe.

- Fica complicado. Sobra uns R$ 200 para comprar um alimento, né? Quase metade do valor que eu ganho. É bem ruim - lamenta, enquanto conta que não deixa faltar comida em casa, mesmo que seja buscando doações.

TRABALHO
O filho mais velho de Gleycimar, enquanto cursa Educação Especial na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), procura um emprego para ajudar nas contas de casa. A mãe comprou há oito meses um pacote de internet para que os três filhos mais velhos acompanhassem as aulas de faculdade e escola. Apesar de essencial, isso representou mais R$ 85 no gasto mensal.

Gleycimar está sem emprego desde o começo de 2020, quando deixou o serviço de limpeza de um clube. Durante toda pandemia, manteve a casa com dinheiro do auxílio e doações. Na última sexta-feira, conseguiu a primeira faxina em tempos.

Ela saiu do serviço com a diária de R$ 120. Consultou o preço do gás no mesmo dia, R$ 118. Foi para casa sem o botijão, mas considerou comprar no dia seguinte. Uma conhecida que sabia da campanha Gás na Cozinha entrou em contato antes.

A expectativa pelo gás tinha outro componente. A filha mais nova de Gleycimar tem asma. A fumaça do fogão a lenha era empurrada pelo vento pelas frestas entre as madeiras da casa.

- O vento empurra muito para dentro de casa. Eu não via a hora de conseguir um gás - lembra

A CAMPANHA
A campanha começou no início do mês de outubro. Em uma semana, foram 12 botijões doados. Quem criou a arrecadação foi o administrador Alexandre Pahim, que vive no Loteamento Cipriano da Rocha e observa a luta de quem fica sem gás para cozinhar.

- Observamos as pessoas catando restos de madeira para fazer seus alimentos. Elas pegam a grade do fogão e levam para o fundo de casa e colocam em cima de tijolos para cozinhar. Usam álcool para fazer fogareiros e cozinhar. Não se faz feijão porque o gás está no fim. As pessoas dizem "não engrosso feijão, porque não tem gás". A insegurança alimentar faz com que as pessoas comprem alimentos de cozimento rápido, que aumentaram a oferta. Resolvemos criar o projeto para ajudar - conta.

As doações não limitam à vizinhança de Alexandre. Já foram auxiliadas famílias de diferentes regiões da cidade. Ele incentiva que sejam feitas doações e, se não for possível a contribuição, que as pessoas divulguem o projeto.

- Se não puder fazer a doação, compartilhe. Tem uma fila enorme de pessoas solicitando. A gente tem que ser o passarinho no incêndio da floresta. Levar aguinha no bico e soltar em cima do fogo - afirma.

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COMO AJUDAR
Qualquer valor pode ser doado para a campanha Gás na Cozinha. As contribuições podem ser via Pix para o e-mail [email protected] Em caso de dúvidas, os organizadores podem ser contatados nos telefones (51) 98559-7117 (Alexandre) e (55) 98124-3732 (Andreia). Todo mundo que doar recebe uma prestação de contas sobre o valor da contribuição.

  • Quanto - Contribuições de qualquer valor
  • Chave Pix - [email protected]
  • Contato - (51) 98559-7117 (Alexandre) e (55) 98124-3732 (Andreia)

CUSTO
O valor do botijão de gás atinge a R$ 108 em Santa Maria. O valor era apontado na segunda-feira segundo o aplicativo Menor Preço Nota Fiscal Gaúcha.

No Rio Grande do Sul, segundo a ANP, a variação chegou a R$ 37,57 entre agosto de 2016 e agosto de 2021. Em nenhum momento, no período, o valor baixou. O mesmo produto, no primeiro marco da série, custava R$ 54,45.


Entre os mesmos meses, o salário mínimo foi de R$ 880 a R$ 1.100. Os valores são a partir do acompanhamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos sobre o salário mínimo nominal.


Em agosto de 2016, o preço do gás representava 6,8% do salário mínimo. O gás até aumentou em 2017 (R$ 59,27), mas como o salário foi para R$ 937, a porcentagem caiu para 6,32%.

No ano de 2018, também em agosto, a parcela do gás no salário mínimo subiu para 7,06%. Depois, teve duas quedas seguidas, em 2018 (6,98%) e 2019 (6,70%), Porém, em nenhum desses momentos, retornou ao menor patamar. Em 2021, com o gás representando 8,36% do salário mínimo, é a maior porcentagem do produto em cinco anos.


O professor do curso de Ciências Econômicas da Universidade Franciscana (UFN) Mateus Frozza atribui a oscilação do preço a um "forte componente cambial". Isso significa que o preço acompanha à risca a variação do dólar. E o parceiro comercial do Brasil neste caso é internacional, a Bolívia. Além disso, o setor vive uma espécie de monopólio.

- Problema é que estamos tratando de um mercado altamente concertado, onde 96% é controla por apenas quatro empresas. Lembro que o gás não tem substituo próximo, seria leviano que a lenha poderia ser. Então todos acabam por comprar, independente do preço, como a insulina ou remédio controlados - explica Frozza.

Uma das saídas no mercado apontadas pelo professor é a abertura para novas empresas, em que a concorrência é forçada, e o preço pode ceder. No caso de empresários, Frozza cita parcerias que reduzem o custo. Por exemplo, restaurantes ou administradoras de condomínios que firmam contratos longos ou compram em grande quantidade, garantem um preço menor e não repassam a alta para o consumidor.


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