de olho no céu

VÍDEO: agricultores se preparam para uma nova temporada de seca

Com o solo seco, produtores ainda não conseguiram iniciar o plantio da soja. Situação é preocupante porque, na última safra, a seca já provocou quebra na produção de grãos

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Foto: Foto: Renan Mattos (Diário)


Foto: Renan Mattos (Diário)
Solo seco e pouca perspectiva de chuva preocupam para a próxima safra

Desde que nasceu, o agricultor Roberto Santini, 56 anos, vive no Distrito de Arroio do Só, interior de Santa Maria. Ele mora com a esposa Rose e o filho Daniel, estudante de Agronomia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). O sustento de toda a família vem do campo. Na última safra, ele teve perdas de quase 50% na lavoura de soja, nesta que considera a pior seca que já enfrentou. Agora, a previsão de uma nova estiagem para a próxima safra volta a preocupar Roberto e todos os produtores rurais da região.

- Tinha uns dias que a gente achava que não ia colher nada, mas ainda conseguimos 40 sacas de soja por hectare. O que aconteceu foi que a estiagem pegou bem na hora do enchimento de grão, que define a produtividade. A possibilidade de uma nova seca preocupa, mas eu prefiro me manter otimista - afirma Roberto, que mantém a Granja Irmãos Santini junto com os irmãos Rogério e Nelson.


Para a próxima safra, o produtor já plantou cerca de 70% dos 65 hectares destinados ao arroz. No entanto, ainda não conseguiu iniciar o plantio da soja, pois o chão está muito seco, já que não chove há quase três semanas. As sementes e adubo estão estocados no galpão, esperando pela chuva.

 - Não tem o que fazer, é preciso esperar chover. O arroz ainda conseguimos plantar e temos irrigação, mas com a soja não tem o que fazer, precisa de chuva - fala.

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A barragem usada para irrigação de arroz na propriedade também está abaixo do nível normal, pois o reservatório ainda não se recuperou na seca do início do ano. Porém, segundo o agricultor, a água deve ser suficiente para a safra, uma vez que houve redução da área plantada. 

- Nós chegamos a plantar 200 hectares de arroz, mas diminuímos nos últimos anos porque o custo de produção era muito alto e o preço da venda não compensava, diferente do que acontece agora, com a explosão dos preços - explica Roberto. 


Foto: Renan Mattos (Diário)
Na Granja Irmãos Santini, Roberto tem as sementes de soja armazenadas esperando uma chuva para o plantio

PREVISÃO É DE POUCA CHUVA
A atuação do fenômeno La Niña em áreas do Rio Grande do Sul desde agosto é responsável pela pouca chuva no Estado nos últimos meses. E as projeções meteorológicas para o próximos meses não são animadoras. Hoje, o La Niña tem intensidade moderada, mas a expectativa é que entre novembro e janeiro atinja forte intensidade trazendo estiagem. 

- O fenômeno é conhecido como o resfriamento das águas do Pacífico. Ele mantém a umidade deslocada para o Norte e Nordeste do pais, favorecendo a ocorrência de estiagem no Rio Grande do Sul. Isso não significa que não teremos chuva. Ela aparecerá, mas de forma muito irregular, mal distribuída, o que é péssimo para a agricultura - adianta o meteorologista Gustavo Verardo, da Baroclima. 

Se em 2019 os impactos da estiagem começaram a ser sentidos em dezembro, neste ano, já em outubro há um déficit de chuva. O meteorologista e estudante de mestrado em Engenharia Agrícola Anderson Haas Poersch lembra que outubro costuma ser o mês mais chuvoso do ano na região, mas, em 2020, só choveu 20 milímetros até esta quinta-feira, dia 22 (apenas 11% da média história do mês, que é 173 mm). Para se ter uma ideia, em outubro de 2019, choveu 455,4mm na cidade.

- O mês é caracterizado como muito chuvoso, ano passado tivemos até enchentes nesse mês em Santa Maria. Mas isso não aconteceu este ano, por causa de bloqueios atmosféricos - afirma Anderson.

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Ainda há previsão de chuva para mês. No próximo final de semana, há chance de cerca de 10 milímetros na cidade. Para os dias 30 e 31 também há previsão de chuva, mas, da mesma forma, os acumulados não devem passar de 10 ou 15 milímetros. 

Anderson destaca que novembro e dezembro serão dois meses críticos, onde os acumulados devem ficar entre 50 e 80mm em cada mês, sendo que a média histórica fica em torno de 130mm. 

- Em janeiro, tem previsão de uma melhora no quadro, com chuvas um pouco mais regulares. Mas, a partir de fevereiro ainda é cedo para falar, pois os modelos climatológicos ainda estão com muitas variações - pondera o meteorologista.

Especialistas consideram que, se confirmada, a próxima estiagem pode causar ainda mais danos à agricultura do que a anterior, quando houve uma média de perdas na soja em torno de 53% e no milho de 64% na região de Santa Maria. Isso porque os níveis pluviométricos ao longo de todo o 2020 foram muito irregulares, com apenas janeiro, maio, junho e julho com chuvas superiores ou bem próximas da média histórica (veja no gráfico). 


Dados: Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet)
Os dados referentes a outubro são contabilizados até o dia 22

OS IMPACTOS E COMO AMENIZAR
Segundo o professor Alencar Zanon, do Departamento de Fitotecnia da UFSM, uma seca nos meses de novembro e dezembro prejudica o estabelecimento da lavoura, ou seja, o número de plantas que vai nascer, tendo o potencial produtivo prejudicado. 

- A gente vem de uma crise de produção de alimentos muito grande e, se confirmar a nova seca, viveremos uma das maiores crises na agricultura, maior até do que a crise de 2004 a 2006, quando tivemos três períodos de estiagem em sequência - explica Zanon.

O professor afirma que a situação vivida na Granja dos Irmãos Santini é a mesma da maioria dos produtores: as lavouras de arroz já puderam ser semeadas, mas a soja ainda não. 

- Só algumas plantações onde os agricultores conseguiram molhar o solo com pivôs de irrigação já conseguiram plantar a soja, mas a maioria está esperando a chuva - relata. 


Foto: Renan Mattos (Diário) 
Na Granja dos Irmãos Santini, boa parte da área destinada ao arroz já foi semeada

O gerente regional e engenheiro agrônomo da Emater, Guilherme Godoy dos Santos, destaca que houve um aumento de projetos de irrigação desde a última safra. Segundo ele, a Emater tem trabalhado para estimular os investimentos em armazenamento de água por parte dos agricultores.

- Além das questões de irrigação, que a gente sabe que demanda um investimento que nem todo mundo está disposto a fazer, é importante fazer um bom manejo da palhada, para ter uma boa cobertura do solo. Isso pode fazer a diferença, porque ajuda na recomposição do solo, reduz a temperatura e fortalece a infiltração da água no solo - considera Guilherme. 

Ainda não se fala em atraso do plantio de soja, visto que a janela da semeadura vai até fim de novembro. Mas, existem possíveis atrasos pontuais. A Emater acompanha com preocupação a possibilidade de seca junto aos produtores:

- Foi um ano desafiador para os agricultores por causa da seca. A gente torce para que chova regularmente, embora não seja o que a perspectiva aponte.

*Colaborou Janaína Wille


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