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Dia internacional da mulher

VÍDEO: quatro mulheres, quatro gerações, quatro experiências e visões de mundo

09 Março 2019 09:00:00


Não há como dissociar o 8 de Março da luta feminista. O Dia Internacional da Mulher, instituído pela ONU em 1975, tem raízes nos movimentos feministas europeus no período da revolução comunista na Rússia. De acordo com a historiadora Nikelen Witter, quando a ONU estabeleceu a data, em plena Guerra Fria e com conflitos entre União Soviética e Estados Unidos, a narrativa acabou ganhando como pano de fundo um incêndio que ocorreu em 1911 em uma camisaria nos Estados Unidos em que a maioria das operárias foram vítimas. O fato aconteceu, na verdade, em 25 de março. Se a publicidade hoje adota a data como um dia de celebração, os motivos para comemorar vêm das conquistas reivindicadas nas ruas.  

Nesta edição, o Diário traz histórias de mulheres de diferentes gerações - de 9 a 81 anos - e de como elas vivem com as escolhas que estiveram ao longo das décadas.
No vídeo abaixo, elas contam o que significa ser mulheres para elas



DÉCADA DE 1930 - A OPÇÃO PELO LAR


Flordeliz Bittencourt de Souza, 81 anos, formou-se em Letras, na então Faculdade Imaculada Conceição (FIC) - hoje Universidade Franciscana - mas, em vez de trabalhar, optou por cuidar dos filhos e acompanhar o ex-marido, Luiz Osório, na peregrinação da carreira militar por várias cidades. Com o companheiro, concebeu Roberto, 54 anos; Selma, 53 anos; Andréa, 50 anos; e Ane Márcia, 48 anos.

Formada aos 22 anos, teve a oportunidade de fazer uma especialização na Alemanha, mas desistiu porque preferiu casar, pois, segundo ela, "estava apaixonada". A ex-professora, que chegou a lecionar no Instituto Estadual Olavo Bilac, largou a sala de aula assim que casou, com 27 anos. Ela sabe que, atualmente, a possibilidade de estudar fora do país poderia continuar nos planos de uma mulher casada, mas não se arrepende de ter optado pela família.

- Aproveitei várias fases dos meus filhos. Meu marido não ajudava tanto quanto os maridos de hoje em dia, que trocam fralda, dão mamadeira, mas ele sempre deu apoio na criação e nunca se importou que eu fizesse cursos, como o de Do-In, uma automassagem chinesa que aplico hoje nos meus netos - conta.

De uma geração que acreditou que os filhos precisavam da mãe em tempo quase integral, Flordeliz viu nas filhas o reflexo da modernidade. Para ela, Selma, Andréa e Ane Márcia fizeram jus ao cuidado dos filhos, mesmo em paralelo às carreiras e estudos.

-Acho que, por machismo, a mulher era criada para ser esposa, ser mãe. A mulher que saía para trabalhar era vista como se não tivesse dado apoio aos filhos. Até eu criticava, às vezes, mas minhas filhas são mães maravilhosas - considera a aposentada.

DÉCADA DE 1960 - SONHO REALIZADO AOS 50 ANOS


Ser mulher é levantar e trabalhar". A frase que Rosane Menezes da Silva, 58 anos, dispara é, para ela, a verdadeira definição do que sente na pele. Em 2017, aos 56 anos, ela ingressou no curso de Geografia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) pelo Enem. No ano seguinte, tentou de novo o processo e passou para História, o curso que sonhava estudar. Enfrentar os bancos acadêmicos depois dos cinquenta não foi o maior desafio de Rosane. Aos 27 anos, ela viu-se grávida sem planejar na Capital do Estado. A notícia veio seguida da separação do pai da criança e da perda do emprego.

Tímida, Rosane foi incentivada pela filha Kelara, 30 anos, a matricular-se no Ensino Superior. A renda vinha do emprego como auxiliar de enfermagem. De volta a Santa Maria, em 2001, as dificuldades foram ainda maiores. A discriminação por ser mãe solteira veio de alguns membros da família e do mercado de trabalho. Atuou como doméstica, cuidadora de idosos, camareira, auxiliar de cozinheira e, há cinco anos, passou a trabalhar como auxiliar de serviços gerais na universidade.

Prestes a aposentar,-se Rosane afirma que o peso de ser mulher está em todos os lugares. No trabalho, o serviço operado por máquinas é deixado para os homens. Já as mulheres, ganham menos pelo mesmo número de horas, não têm ferramentas tecnológicas, e a limpeza ainda é feita no modo tradicional, com instrumentos de "donas-de-casa": o mop, a vassoura e o rodo.

Agora, além do curso de História, Rosane vai fazer curso de cuidador de idosos pela manhã, para ajudar na renda da família. Ela comemora a convivência com os colegas do curso, mas ainda é questionada pelas escolhas.

- Uma colega do trabalho me viu na fila fazendo matrícula para o curso de Geografia e perguntou porque eu não fazia curso de Corte e Costura. Eu respondi que não era uma coisa que eu quero fazer, ora -rebateu a futura historiadora.

DÉCADA DE 1970 - FEMINISMO NEGRO NA PERIFERIA


Com 43 anos, Angela Souza coordena um grupo de mulheres que discute gênero, raça e justiça social e desenvolve projetos de emancipação financeira. Moradoras do Bairro Urlândia, as integrantes do coletivo Marias Bonitas Fazendo História remam contra o preconceito, e pelas poucas oportunidades para mulheres da periferia, principalmente para as negras. O projeto também as ajudam mutuamente a abandonar situações de violência familiar. Angela se dedica ao grupo nos intervalos da rotina familiar e da jornada em dois empregos: em uma instituição de acolhimento masculino e no escritório de um clube de formação de futebol de base.

Além de transitar no universo masculino no trabalho, Angela convive com o sexo oposto dentro de casa. Mãe de duas meninas - Leandra, 9 anos; e Luandra, 6 anos; - e de três meninos - Lucas, 24 anos; Henrique, 20; e Bruno, 19 - considera um desafio educar os filhos e o próprio companheiro, Carlos Leandro Escobar da Silva, 49 anos, para uma sociedade mais igualitária.

- Antes, ele (o companheiro) saia às 7h e voltava às 19h e eu que tinha que pensar onde as crianças iam ficar e tudo mais. Hoje, a gente compartilha. É uma tarefa diária. Mesmo dentro do lar, todos os dias tu tens que reafirmar o teu posicionamento - relata.

Consciente das questões sociais, Angela não deixa o discurso conflitar com a prática. Por falta de creches em turno integral para as filhas, ela já precisou levar a menor para o trabalho, por não ter onde deixar e não querer explorar outra mulher.

- Não consigo pagar o que uma mulher merece para estar cuidando as minhas filhas. Nós mulheres somos muito prejudicadas em todos os aspectos, porque temos que sair para o mercado de trabalho para somar na renda da família, mas a gente não tem condições de trabalhar - esclarece.

ANOS 2000 - SORORIDADE DESDE A INFÂNCIA


Sofia Brunet Santos, 9 anos, é a mais nova da turma dela na escola. Aluna do 5º ano do Colégio Coração de Maria tem uma estatura maior que as outras meninas junto de uma consciência de que pode fazer tudo que um menino faz. O pulso firme permite Sofia praticar a sororidade, um termo disseminado entre feministas e significa solidariedade entre mulheres.

- Os meninos dizem que a gente não pode brincar, que a gente não consegue fazer as coisas. Uma vez um colega estava ameaçando bater em uma menina, porque ela quis brincar com eles e disseram que era coisa de menino, aí eu falei: "Não... Ela só quer brincar" - conta.

A mãe de Sofia, a professora de Direito Karina Brunet, tenta desconstruir os papeis de gênero e ajuda a identificar o machismo presente em atos como os colegas que riem do menino que chora na sala de aula e o preconceito sobreposto que atinge as meninas negras.

- Quando meus colegas meninos choram os outros ficam debochando. Quando são as meninas, dizem: o que houve, se machucou? - diferencia Sofia.

Karina acredita que instituições como a escola de Sofia até tentam mudar o cenário, mas esbarram em questões culturais. A escolinha de futsal, permitida para meninos e meninas, é um exemplo disso:

- Formalmente, ela até entra se quiser e vai participar porque o professor vai mandar passar a bola pra ela, mas os meninos não passam a bola de forma espontânea - acredita a mãe.

Assim como no futsal, as brincadeiras ainda são separadas por gênero, mesmo na geração de Sofia. Segundo ela, a separação é natural.

- Se a gente vai correr, é mais lenta, é burra. Eu não sofro preconceito porque os meninos que dizem que meu comportamento é de menino, porque eu não tenho medo, mas minhas colegas, por serem magrinhas e menores, sofrem mais - observa.

VIOLÊNCIA - POUCOS MOTIVOS PARA COMEMORAR



Diante de mais um 8 de março, os dispositivos legais de criminalização da violência contra a mulher como a Lei Maria da Penha (Lei 11.340, de 22 de setembro de 2006) e a Lei do Feminicídio (Lei 13.104, de 9 de março de 2015) podem ser considerados avanços concretos de proteção à violência contra a mulher. No entanto, embora a rede de acolhimento desenhada na Lei Maria da Penha para atender às vítimas tenha contornos perfeitos no papel, está longe de ser ideal na prática.

Desde janeiro até última quinta-feira, a Vara de Violência Doméstica de Santa Maria recebeu cerca de três pedidos de Medidas Protetivas por dia. O juiz Rafael Pagnon Cunha deferiu 218 delas. O número referente a pouco mais de dois meses é quase o total de vítimas acompanhadas pela Patrulha Maria da Penha, da Brigada Militar, em todo o ano passado. Composta por três policiais militares, a Patrulha monitorou casos de 236 vítimas em 2018.

Para a delegada Débora Dias, que foi titular da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam) desde a criação da especializada, em 2001, Santa Maria poderia contar com um Centro de Referência de atendimento à mulher que concentrasse serviços como acolhimento psicológico, perícia, entre outros.

- Falta uma integração dos serviços para que a mulher não precise ficar se deslocando. Muitas vezes elas não têm dinheiro nem para a passagem _ explica a delegada.

Outro problema é que a vítima agredida pelo marido ou companheiro, muitas vezes, não tem para onde ir. A prefeitura mantém a Casa Aconchego, um abrigo com 10 vagas para mulheres e seus filhos, para onde são levadas mulheres com risco de morte ou à integridade física. Porém, a demanda é muito maior.

Para aquelas que dependem financeiramente do marido, faltam iniciativas de inserção ao mercado de trabalho e vagas em creches públicas. De acordo com o Censo do IBGE de 2010 , havia mais de 15 mil crianças de 0 a 4 anos em Santa Maria. Segundo a prefeitura de Santa Maria, são oferecidas em torno de 8 mil vagas públicas para crianças em creches municipais e em escolas filantrópicas que firmam parcerias com o Executivo.

Violência em Santa Maria em 2019

  • Tentativas de Feminicídio - 1 
  • Feminicídio consumado -1
  • Estupro - 12
  • Lesão corporal - 4
  • Cerca de 254 pedidos de medidas protetivas já chegaram ao Judiciário este ano
  • Das medidas solicitadas, 2018 foram deferidas (autorizadas) pelo Juizado da Violência Doméstica

Rede de acolhimento

  • Denúncias de agressão podem ser feitas na Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam) - Rua Duque de Caxias, 1169 (em frente à Praça Saturnino de Brito). Telefone _ (55) 3222-9646 
  • Horário _ Segunda a sexta-feira, das 8h30min ao meio-dia e das 13h30min às 18h
  • Santa Maria oferece 8 mil vagas para crianças em creches públicas
  • A Casa do Aconchego, que acolhe mulheres vítimas de violência e seus filhos (até 14 anos) possui 410 vagas (incluindo os filhos) no total. O encaminhamento é feito pela Deam, mas o endereço não é divulgado para a proteção das vítimas 

EDUCAÇÃO E ENFRENTAMENTO


A historiadora Nikelen Witter sustenta que mesmo a criação de políticas públicas não seria suficiente para diminuir os índices de violência contra a mulher. Na opinião dela, os indicadores sempre estarão altos se não houver uma reforma educacional.

_ Em boa parte das nossas escolas, se o menino incomoda uma menina, a menina se retira. Ela é ensinada a entender que menino é assim mesmo. Se a gente atuar no sentindo de uma masculinidade que não precise ser violenta e de uma fêmea que não precise ser obediente, nós já temos um avanço. Enquanto o Estado não assumir que isso é um princípio básico educacional, todo o resto é enxugar gelo _ explica.

LUTA AO LONGO DO TEMPO


A professora de Filosofia do Instituto Federal Farroupilha Liliana Souza de Oliveira lembra que as ondas feministas abriram espaço para os direitos que hoje tornam a vida das mulheres mais fácil. As bandeiras foram atualizando-se à medida que as demandas eram alcançadas. O voto feminino, os direitos reprodutivos, sexualidade, e as ideias de separação dos conceitos de sexo e gênero, de Judith Butler, foram pautas até a terceira onda. Alguns estudiosos já falam em uma quarta onda, em pleno andamento. 

Pautas como a cultura do estupro, a representação da mulher na mídia, os abusos vivenciados no trabalho e em sociedade estariam entre as bandeiras. A internet seria a propulsora dos discursos. A hashtag #SomosTodosEva, de apoio à menina baiana que denunciou abusos pelo padrasto durante oito anos, e o levante de denúncias contra o médium João de Deus estariam na esteira da nova era. 

 O termo feminismo, que invoca a luta pela equiparação de direitos sociais e políticos entre homens e mulheres, ainda é visto com ressalvas por grande parte das mulheres. A historiadora acredita que a causa disso é a representação midiática de grupos como as RadFems, que, em geral, são misândricas, ou seja, semeiam o ódio e o desprezo pelo sexo masculino e chegam a considerar o sexo heterossexual uma forma de opressão patriarcal. Nikelen acredita que, hoje, há mais aceitação da palavra do que nunca:  

- Se a gente buscar no Google os cartazes antifeministas do período sufragista, eles são horríveis. Uma das coisas mais engraçadas é que o homem é colocado numa condição feminina quando as mulheres saem para as ruas. Nessa representação, o homem aparece cheio de filhos na volta, como se o inferno dos homens fosse a vida das mulheres - reflete Nikelen.  

Liliana acrescenta que as são poucas representações replicadas nas redes sociais ligadas ao feminismo. Ainda que não haja um mapeamento das vertentes existentes, elas são muitas e devem ser estudadas dentro das diferentes realidades.  

- Angela Davis lembra, por exemplo, o feminismo das mulheres periféricas. Enquanto as mulheres brancas pensavam no direito ao voto, e era uma luta importante, as mulheres negras pensavam na subsistência, uma coisa bem mais elementar. Uma coisa é discutir a situação de mulher branca e hétero outra coisa é discutir a situação de mulheres negras, homossexuais e de periferia - sublinha Liliana.

CONQUISTAS DE DIREITOS

  • Década de 1930 - Voto feminino. Publicação do Código Eleitoral em 1932, na Era Getúlio Vargas, assegura o direito de voto das mulheres e a possibilidade de serem eleitas em cargos no Executivo e no Legislativo 
  • Década de 1940 - Licença-maternidade. Ainda na Era Vargas, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), por meio do decreto-lei 5.452 de 1943, regulamenta o trabalho feminino e determina licença de seis semanas para mães trabalhadoras
  • Década de 1960 - Estatuto da Mulher Casada (Lei nº 4.121, de 27 de agosto de 1962). A partir da legislação, a mulher não necessita da autorização do marido para o trabalho e institui o conceito de bens reservados e o patrimônio adquirido com o produto do trabalho da esposa. Em 1962, a pílula anticoncepcional chegou ao Brasil
  • Década de 1970 - Lei do Divórcio (Lei 6.515, de 26 de dezembro de 1977) - Abre a possibilidade jurídica de separação. Antes, só era possível separar em casos de traição, tentativa de morte ou abandono do lar
  • Década de 1980 - Constituição Federal de 1988 - Carta Magna reconhece que homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações. Garante ampliação da licença à gestante de 84 para 120 dias, sem prejuízo do emprego e do salário. Também concede garantia de emprego por cinco meses após o nascimento da criança
  • Anos 2000 - Lei Maria da Penha - Em agosto de 2006 é sancionada a norma, que cria os juizados especiais criminais de atendimento aos casos de violência doméstica ou familiar contra a mulher. São criadas ferramentas como a medida protetiva contra o agressor, entre outros instrumentos de proteção e apoio à vítima

REPORTAGEM - Camila Gonçalves
EDIÇÃO - Pâmela Rubin Matge
FOTOS - Pedro Piegas e Renan Mattos
IMAGENS - Pedro Piegas
EDIÇÃO DE VÍDEO - Guilherme Borges


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