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reportagem especial

VÍDEO: as memórias de minha mãe

11 Maio 2019 13:29:00

Reportagem especial conta a história de três filhos que relatam a relação que têm ou tiveram com suas mães: uma com Alzheimer, outra a oceanos de distância e uma terceira que faleceu há 33 anos

Pâmela Rubin Matge

Foto: Pedro Piegas (Diário) 

Pode ter sido ontem, pode estar a milhares de quilômetros, podem ter se passado 33 anos, mas as lembranças que muitos filhos carregam de suas mães permanecem vivas. Algumas têm cheiro, cor e gosto de saudade. Outras confrontam os anos e parecem atemporais.

Não importa quais as circunstâncias que ainda os ligam. Alheia a qualquer reflexão histórica, social ou conceitual - inclusive, à luz da psicanálise - a relação entre mães e filhos tem peculiaridades que só ambos podem compreender. 

No fim de semana dedicado a elas, a reportagem do Diário apresenta três filhos que falam um pouco da relação que têm ou que tiveram com suas genitoras. Esmel Atchori, estudante de Psicologia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), viu a mãe pela última vez em agosto de 2015, quando deixou o país africano Costa do Marfim. Desde 2008, a nutricionista Maria Amália Rodrigues convive com gradativos sinais de demência e Alzheimer da mãe e procura dar um novo sentido à convivência das duas a cada dia; João Joel Rodrigues Gomes celebra o amor materno em pensamento, orações e visitas ao cemitério. Para todos, mãe é amor que não sai da memória.

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AFETO MATERNO QUE DISPENSA TRADUÇÃOFoto: Pedro Piegas (Diário)

Há vezes em que algumas palavras traduzidas para o português confundem o vocabulário do estudante de Psicologia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) Esmel Atchori, 38 anos. Ele é fluente em inglês, francês e adjoukrou, idioma típico da comunidade em que cresceu, no país africano Costa do Marfim. Porém, quando fala da própria mãe, o sentimento é tamanho, que mesmo que ele não pronunciasse uma sílaba sequer, seus olhos já falariam por si. Basta que ela seja assunto para que o estudante mude a expressão e se inunde de orgulho e outros dois sentimentos: amor e saudade. O segundo, ironicamente, uma palavra que, em sua ampla significação, gramáticos ferrenhos já defenderam como uma particularidade da língua portuguesa.

O último abraço de filho para mãe ocorreu em agosto de 2015, quando Esmel saiu do país onde dona Agnès Essi Jeannette, 62 anos, segue vivendo. Ela está em Vieux-Badien, uma aldeia da cidade Dabou. A um oceano distante de casa, Esmel e suas memórias são transportados por detalhes cotidianos:

- Como dizem aqui? É capricho, isso? Quando vejo uma mãe com os filhos pequenos andado bem arrumados, lembro de como minha mãe me cuidava, do quanto ela era caprichosa comigo. Não sei muito que palavras dizer. Sinto saudade e muito amor. Ela fazia tudo com amor: a comida, a roupa que ela comprava para mim. Fui o primeiro filho, então, ela teve ainda mais tempo para me cuidar - conta Esmel.

Para o estudante, que não lembra ao certo a data alusiva à "Maman" ou "Mére" (mãe) em seu país, todos os dias deveriam ser comemorados, e as mães, homenageadas. Ele lembra, inclusive, de um ditado, que também é muito comum por aqui:

- Na minha cultura costumam falar: "A gente tem só uma mãe " - conta.

TECNOLOGIAFoto: Pedro Piegas (Diário)

São ligações e vídeo-chamadas que amenizam a distância entre mãe e filho. Toda a semana, com auxílio dos irmãos, Esmel consegue estabelecer contato.

- A tecnologia ajuda. Mas não tem um dia que eu não lembre dela, do abraço dela. Ela sempre me incentivou a não desistir do meu sonho de estudar e de fazer mestrado. Nunca esqueço da voz dela, que acho que é a última lembrança que a gente tem de uma pessoa. Quando me olho no espelho, enxergo ela. Somos parecidos, principalmente as nossas mãos. Desejo à minha e a todas as mulheres e mães, o valor que merecem pelo amor que dão aos filhos a vida toda - enfatiza Esmel.

AMAR E RESSIGNIFICAR AS COISAS INTERESSA MAIS Foto: Pedro Piegas (Diário) 

Ressignificar o dia a dia e prezar pela qualidade de vida tem sido a opção da nutricionista Maria Amália Rodrigues, 38 anos, para manter Arlete Rodrigues de Rodrigues, 66 anos, sempre por perto. Em 2008, a mãe de Maria Amália começou a apresentar sinais de demência vascular associada a Alzheimer. Há dois anos, ela diminuiu a fala e, hoje, verbaliza apenas poucas palavras: 

- A relação mudou. A gente teve de inverter tudo. Eu virei mãe dela. Mas, dentro do possível, a gente quer estar sempre junto, pois o amor é o mesmo. Fica a memória, pois ela está aqui, mas não é mesma pessoa, com a interação que tinha. É difícil enfrentar a perda da pessoa como ela é. Até perda do contato físico. É um processo lento, gradual e dolorido. Tudo é adaptação. Tenho saudade até de ir ao supermercado com ela. Ela está aqui, mas sendo privada de muita coisa. Logo, vai nascer a Amora, a primeira neta dela. É dífícil compreender. A gente sofre um pouco, mas depois aceita e vai levando - conta a filha.

Arlete gozou de plena lucidez até 2016. Entendia com certa clareza o que acontecia a sua volta. Depois, passou a ter perda parcial dos movimentos, e a doença afetou a visão.

- Eu comecei a ver que, quando falavam Arlete, ela reagia. Quando eu chamava de mãe, ela seguia olhando para o horizonte. Foi o jeito, né? Como ela não verbaliza, não sei se ela está com sede, se está com frio, se está com fome. A gente faz de tudo para dar a maior qualidade de vida. Nem todo mundo entende a situação ou sabe lidar. Tem gente que nunca mais a viu porque quer ficar com a memória da Arlete falante, elétrica - explica Maria Amália.

Foto: Pedro Piegas (Diário) 

Na última quarta-feira, a nutricionista foi ao mercado e comprou uma violeta, uma das flores preferidas de Arlete. Na sala de casa, um quadro feito pela própria Arlete foi pendurado na parede. São formas que a filha encontra de se manter conectada à mãe. 

- Na minha casa, hoje, há muita coisa dela. É uma música que ela gosta, é eu comer umas coisas que ela gosta. Morei em casa até os 31 anos. Éramos muito próximas, companheiras. Qualquer data era motivo para ela comprar um presentinho, fazer um cartãozinho, uma festa. Tudo era motivo para ela cozinhar, virar a noite fazendo bolo, reunir os amigos e a família. Ela festejava a vida - afirma.


Há dois anos, Arlete passou a viver em uma clínica de idosos junto do marido Vitor Rodrigues, 78 anos. Juntos ouvem Beatles, clássicos da Velha Guarda, Belchior e outras músicas anos 1960 e 1970. Ambos são cuidados por profissionais e familiares e recebem visitas, inclusive da Preta, uma simpática vira-lata que foi resgatada da rua e hoje está com 11 anos. Nos quartos onde dormem, as fotografias materializaram uma memória imagética que permanece intacta. Entre elas, a foto do casamento em 1976. Objetos do antigo lar e imagens religiosas ajudam a compor a familiaridade do ambiente. 

- O amor que tenho por ela é o que ela e o pai alimentaram em nós, é uma sensação de gratidão por tudo que eu e meu irmão (Luis Fernando Rodrigues, 33 anos) temos e somos. A mãe adora música, tocava acordeon e nos passou referências. O Dia das Mães, eu passarei longe dela porque vou a um show do Los Hermanos, em Porto Alegre. Ela amava a banda. Hoje, consigo entender que, para ela, não vai fazer diferença se eu vier no domingo ou em outro dia, mas vou almoçar com a minha vó, com minha tia e manter essa ligação, coisa que ela fazia. Me espelhei muito nela, com a empatia que ela tinha pelas pessoas. São essas memórias afetivas e referências de vida que ficam. Ela foi e é meu o exemplo em tudo - afirma Maria Amália.

MÊS DE MAIO TAMBÉM É MÊS DA SAUDADE HÁ 33 ANOS Foto: Renan Mattos (Diário) 

Fazer uma refeição ou mesmo tomar um café sozinho é quase um martírio para o aposentado João Joel Rodrigues Gomes, 59 anos. O costume foi fundamentado pela mãe, que não sossegava enquanto o filho, as duas filhas e o marido não estivessem sentados à mesa. Por isso, que ter de lidar com uma eventual falta de companhia na hora da comida angustia Joel. 

A hora de comer era sagrada. Mais do que minutos dedicados à alimentação, aquele era o melhor momento da família. Entre uma garfada e outra, falavam sobre banalidades cotidianas e planos futuros. Desabafavam, riam, apoiavam uns aos outros, e quando era preciso, até davam uns puxões de orelha.

O último almoço foi no dia 18 de maio. Afonsina Rodrigues Gomes, mãe de Joel, tinha 60 anos. Naquele dia, o cardápio era um dos preferidos da casa: arroz branco, galinha frita, polenta e salada verde. Ela estava feliz com a notícia da gravidez da filha. A menina que ela nem pôde conhecer foi a primeira dos quatro netos. Pouco mais de meia-hora depois, a matriarca organizou a cozinha e foi deitar. Um aperto no peito anunciava um infarto, ao qual ela não resistiu.

- Perdemos o chão quando ela faleceu. Ela era o suporte de tudo, até para uma simples decisão. Hoje, ela faz mais falta. Eu não me casei e não tenho filhos. Tem vezes que eu preciso dela. E não adianta: mãe é quem esquenta nosso leite toda a manhã. É quem vai no nosso quarto e dá boa noite antes de dormir - conclui o filho.

Na carteira, o aposentado guarda uma a única imagem fotográfica da mãe, um a foto 3x4 que data de 1979, quando ela tinha 49 anos. Afonsina era vaidosa e até se arriscava em ler a sorte nas cartas de um tarô cigano. Mas a prática era puro lazer. Aliás, ela sempre advertia: "Não acreditem em nada que vejo no baralho". Eram raros os momentos de "folga". Durante toda a vida, acordou cedo e dormiu tarde em nome dos filhos:

- Tenho a imagem da minha mãe cansada, com os dedos tortos de reumatismo, por causa de tanta água e quente e fria nas mãos. A mãe trabalhava como doméstica e fazia uns lavados em casa. Devo tudo a ela. Se eu pude estudar, foi porque até meus 22 anos, não precisei trabalhar. Ela se virava para dar o melhor para a gente. Foi nosso exemplo.

Foto: Renan Mattos (Diário) 

Ao longo dos anos, a tristeza da perda foi amenizada, mas o falecimento de Afonsina fez de maio um mês de reflexão e saudade para família. Visitas esporádicas ao Cemitério Ecumênico Municipal - onde ela e o esposo estão sepultados -, orações e recordações bem vivas na memória a mantém, de certa forma, sempre presente: 

- O aniversário dela era dia 8 de maio, o Dia da Mães, logo em seguida, quando não caía no mesmo dia. A morte foi no dia 18, então, essas datas sempre são difíceis para nós. Nos apegamos nas lembranças do jeito dela, alguém que estudou pouco, mas era sensacional, dinâmico. Depois que ela morreu, me tornei uma pessoa mais afetiva, mais preocupada com os sobrinhos. Fico pensado "Isso, ela faria deste jeito". Algo que ela gostava muito era de passear. Nos finais de semana, íamos até o coreto da Praça Saldanha Marinho e quando dava, íamos a algum circo nos bairros da cidade - conta Joel.

ORIGEM 
Embora o Dia das Mães tenha ganhado um apelo comercial, desde a Idade Antiga, há relatos de rituais em torno de figuras mitológicas maternas e de fenômenos como a fertilidade. Na Grécia antiga, a entrada da primavera era festejada em honra de Rhea, a Mãe dos Deuses. Na Idade Média, havia também muitas referências, por exemplo, às figuras de Eva e Maria.

A popularização da data, porém, remente à norte-americana Anna Jarvis, que, em 12 de maio de 1907, dois anos após a morte de sua mãe, criou um memorial e iniciou uma campanha para que o Dia das Mães fosse um feriado reconhecido. Ela obteve sucesso ao torná-lo reconhecido nos Estados Unidos em 8 de maio de 1914, após a aprovação do congresso norte-americano. Instituiu-se, então, o segundo domingo do mês de maio como Dia das Mães.

No Brasil, foi em 1932 que o então presidente Getúlio Vargas, a pedido das feministas da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, oficializou a data também no segundo domingo do mesmo mês. Em outros países do mundo, há, ainda, diferentes data de comemoração.


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