memória

Você sabe como era Santa Maria nos anos 1950?

Imagens do acervo da Fundação Eny mostram a arquitetura do centro da cidade na época

Colaboração*
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As gravações registram a antiga configuração da Avenida Rio Branco

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As gravações registram a antiga configuração da Avenida Rio Branco

Santa Maria, início da década de 1950. A ferrovia ainda fazia da Avenida Rio Branco um dos locais mais movimentados de Santa Maria quando foi inaugurado o Edifício Mauá. Do alto do prédio de oito andares, foi feito um registro em 16 milímetros mostrando um olhar sobre a Santa Maria daquele tempo.

O registro fílmico do empresário Guido Isaia foi recuperado em 2017, por meio de um projeto da Fundação Eny. O fragmento tem menos de dois minutos, mas a riqueza dos detalhes mostra uma cidade que faz parte só das lembranças de quem viveu aquela época. Esse mesmo lugar pode ser visto em jornais antigos e fotografias. Porém, no filme, as imagens ganham um elemento importante: o movimento.

O primeiro aspecto sobre o qual precisamos refletir é o fato da apropriação que se dá de uma filmadora projetada para o âmbito doméstico, como é o caso do suporte 16 milímetros, para uma filmagem que tem como objetivo o registro de memórias sobre um lugar. Em dissertação de mestrado defendida no Programa de Pós Graduação em Comunicação da UFSM, em 2017, orientada pelo professor Cássio Tomaim, mostramos como esse tipo de câmera possibilitou o primeiro momento de democratização da realização cinematográfica no Brasil. Motivos não faltaram: era menor, mais leve e mais barata que as profissionais.

Outro ponto que merece atenção é como essas imagens estabelecem relação com a memória. Para o crítico de arte alemão Andreas Huyssen "um dos fenômenos culturais e políticos mais surpreendentes dos anos recentes é a emergência da memória como uma das preocupações culturais e políticas centrais das sociedades ocidentais" (HUYSSEN, 2004, p.9), pois quando falamos de imagens como as registradas por Isaia, estamos tratando de algo especial, que o historiador francês Pierre Nora (1993) chama de "lugar de memória".

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Nas produções de Guido Isaia, o recém-construído Edifício Mauá, no Centro

Para Nora, esses lugares são construídos por pessoas que têm vontade de preservar memórias: "[...] a razão fundamental de ser de um lugar de memória é parar o tempo, é bloquear o trabalho do esquecimento, fixar um estado de coisas, imortalizar a morte, materializar o imaterial para prender o máximo de sentido num mínimo de sinais" (NORA, 1993, p.22). Desta forma, podemos identificar no fragmento de Isaia essa vontade e esse lugar de memória sobre Santa Maria naquele tempo.

No registro fílmico, é possível, primeiramente, ter contato com uma vista do edifício Mauá, feita do outro lado da Avenida, com destaque para seus elementos geométricos em estilo Art Decó. Como relembra Isaia, em entrevista à autora, em 2016, "o prédio havia sido projetado para ser um símbolo do desenvolvimento ferroviário na cidade".

A sequência seguinte já é feita do Mauá. Ao contrário da anterior, não se trata de uma imagem com equipamento parado. Os movimentos feitos, que envolvem deslocamento da câmera, entre eles uma panorâmica, feita inicialmente da direita para a esquerda e posteriormente na direção inversa, são tomados colocando em quadro como ponto central inicial a catedral da cidade, o que parece orientar o olhar de quem assiste para que se localize geograficamente.

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É
 possível observar que Santa Maria ainda não possuía a quantidade de prédios altos que tem atualmente

A partir dessas sequências, é possível notar como não havia ocorrido uma expansão do núcleo urbano. A arquitetura composta por casas mais antigas também chama a atenção para como esses bens não conseguirem sobreviver a ponto de serem tombados e preservados. Entre os destaques em cena estão as estradas, ainda de chão batido, além de ser possível identificar estabelecimentos que fizeram parte da história de Santa Maria, mas já não existem mais, como o Piraju Hotel.

A recuperação de fragmentos como esses revelam ao nosso olhar uma Santa Maria que não mais existe, mas que estava em movimento. Movimento pelo deslocamento de câmera e movimento pelo próprio crescimento que a cidade passaria nas décadas seguintes. Haverá outros baús guardando tesouros do cinema doméstico como esse pela cidade? Onde estarão tais imagens? Ainda é possível recuperá-las? São perguntas sem resposta, mas que a cada novo filme descoberto nos motivam a querer descobrir mais sobre esse passado que, aos poucos, ganha a tela. 

Referências

  • DARONCO, Marilice. Milímetros da história: memórias e identidades da produção cinematográfica em 16mm em Santa Maria nos anos de 1960. 2017. 283p. Dissertação (Mestrado e Comunicação) - Universidade Federal de Santa Maria, RS 2017.
  • Entrevista concedida por Isaia, Guido. Entrevista I. [mai. 2016]. Entrevistador: Marilice Daronco. Santa Maria, 2016, isaia.mp3 (63min.).
  • HUYSSEN, Andreas. Seduzidos pela memória: arquitetura, monumentos, mídia. 2. ed. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2004.
  • NORA, Pierre. Entre memória e história - a problemática dos lugares. Tradução: Yara Khoury. Projeto História. São Paulo, n. 10, p. 7-28, dez. 1993.

*O artigo acima foi escrito por Marilice Daronco, doutoranda em Comunicação do Poscom da UFSM e foi apresentado no IX Encontro de Pesquisadores do Arquivo Histórico Municipal de Santa Maria, realizado nos dias 29 e 30 de novembro de 2018, promovido pela Prefeitura Municipal de Santa Maria por meio da Secretaria de Município de Cultura, Esporte e Lazer e Arquivo Histórico Municipal de Santa Maria, com apoio da Associação dos Amigos do Arquivo Histórico Municipal de Santa Maria - AMARQHIST.


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