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VÍDEO: Há 25 anos TV OVO ensina a arte do cinema e documenta a memória de Santa Maria

Ao longo desse tempo, projeto transformou a vida de milhares de jovens e conta com mais de 1 mil produções sobre a cidade

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Fotos: Renan Mattos (Diário)
Neli, a pequena Elis, Marcos, Heitor e Denise são parte da grande família da TV OVO

O ano era 1996, e o cenário uma casa na Vila Caramelo. Em cena, um jovem sonhador começava um projeto que transformaria a vida de milhares de pessoas - mas isso ele ainda não sabia. Na época, Paulo Roberto Tavares, hoje com 55 anos, era diretor cultural da Associação Comunitária da vila e dirigente do Sindicato dos Bancários. Ele queria criar um espaço para os adolescentes da região que, sem alternativas de lazer, ficavam nas ruas no turno inverso ao da escola. Das câmeras guardadas, de um antigo estúdio, brilhou a ideia: uma oficina de audiovisual. Paulo fez uma ligeira divulgação na Igreja São João Evangelista e na Escola Irmão Quintino. Em 12 de maio daquele ano, nascia a TV Oficina de Vídeo Oeste, a TV OVO.

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A curiosidade levou 15 jovens para a primeira turma na garagem da casa do Paulo, a primeira sede da TV. Dois meses depois, eles lançaram o primeiro programa de 45 minutos sobre pautas da comunidade, como a falta de calçamento e saneamento básico, e a criação foi exibida em uma sessão especialmente para os moradores.

Nesse alvoroço de ideias, o projeto foi crescendo e se tornou uma associação sem fins lucrativos. Além das oficinas, também foram organizados cineclubes, exibições de filmes nos bairros e distritos, sem contar as mais de mil produções que documentam a história de Santa Maria.

Em 25 anos de trajetória, a vida de todos que passaram pela TV OVO mudou, inclusive a de Paulo, que se tornou cineasta e educador social. Muitos dos milhares de adolescentes que participaram dos projetos viram que os sonhos poderiam se tornar realidade e continuaram a espalhar a sementinha da educação e do audiovisual pelo mundo afora.

- Eu vejo que a minha ideia deu certo, tão certo que foi muito além. Eu imaginava reunir a gurizada na comunidade e fazer o trabalho, até imaginávamos uma TV comunitária, mas foi muito mais longe - completa Paulo.

DESAFIOS PARA SOBREVIVER
Logo no início, foi preciso muito amor e criatividade para continuar com o projeto. Sem apoio financeiro, a turma chegou a etiquetar e dobrar jornais feitos pelo Sindicato dos Bancários para ganhar dinheiro e comprar as fitas VHS para treinar as gravações.

Em 1999, um convite para trabalhar com a TVE no programa Povo Gaúcho deu uma guinada na história da TV OVO. Foi a primeira vez que eles receberam recurso, fundamental para impulsionar o projeto. Em 2004, com o convênio encerrado, a situação financeira ficou crítica, e o trabalho estava quase parado. Surgiu, então, o edital do Pontos de Cultura, e a associação conseguiu retomar o fôlego. Cerca de três anos depois, foi aprovada no edital Pontões de Cultura, para trabalhar em rede com os Pontos de Cultura, e a TV viajou toda a região sul para fazer e difundir produções audiovisuais:

- Foi aí que entendemos que a gente precisava ter projetos para conseguir recursos. Foram três momentos cruciais para que a TV OVO se firmasse, fosse reconhecida, e também conseguisse se estruturar e trabalhar com uma certa autonomia. Conseguimos melhorar nossa gestão e seguir até hoje.

A TV acompanhou as transformações tecnológicas, como a transição das gravações em fita VHS ao digital, como relembra a documentarista e professora universitária Neli Mombelli, 34 anos:

- Eu entrei em 2009, e nesse tempo fomos nos adaptando, porque é preciso se reinventar e diversificar as coisas que fazemos. O que permanece sempre como direcionamento são as oficinas nas escolas periféricas públicas e a produção voltada à memória de Santa Maria, como o projeto Por Onde Passa a Memória Da Cidade.

DA GARAGEM AO SOBRADO
Sem uma sede própria, a TV se abrigou em diversos lugares desde aquele 12 de maio de 1996. Até que, no aniversário de 20 anos, eles ganharam um presente:

- Quando chegou os 15 anos, a gente tinha como meta ficar mais conhecido na cidade. Propusemos uma série de atividades, entre elas uma fala no Livro Livre com Marcelo Canellas. Trouxemos ele para Santa Maria para falar sobre comunicação comunitária, então ele nos conheceu. Na época, ele estava comprando o casarão, e em 2016 ele doou para a TV o espaço - conta Neli.

Desde então, a sede funciona no casarão da Rua Floriano Peixoto, 267. Mas a ideia é ainda maior: o Sobrado Centro Cultural, aprovado na Lei de Incentivo à Cultura do Estado (LIC-RS). A proposta é recuperar a construção centenária e criar um centro de cultura com uma biblioteca audiovisual, museu da imagem e som, café cultural e salas multiuso, onde vão funcionar cineclube, exposições, encontros e oficinas.

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O projeto é dividido em três etapas, e agora está em busca de captação de recursos.

- Com a pandemia, tudo atrasou. A loja Eny é uma das nossas parceiras através do repasse do ICMS, mas ainda precisamos de, pelo menos, mais duas empresas para dar o start e conseguir começar a obra para que o projeto deslanche - explica Neli.

ACOLHIMENTO
Se a TV OVO precisasse ser definida em poucas palavras, com certeza poderia se usar "espaço de formação audiovisual de jovens", "produção de vídeos comunitários" ou "registro da memória santa-mariense". Mas quem acompanha o projeto do lado de dentro, também tem outro sinônimo: acolhimento. Se por um lado a equipe enfrenta inúmeras barreiras, por outro nunca falta amor pelo trabalho e pelas pessoas. Talvez esse seja o grande segredo de se chegar a um quarto de século com tantas conquistas.

O educador social e técnico em enfermagem, Gleen Eduards, 30 anos, começou a frequentar as oficinas em 2005. Com 14 anos na época e, até então, sem nenhum contato com a tecnologia do audiovisual, ele viu não só uma oportunidade de se qualificar, mas também uma nova perspectiva de vida:

- Na época, eu estava em um situação de alta vulnerabilidade social, e estar nas oficinas era um meio que eu encontrava de desopilar das problemáticas de dentro de casa e ser acolhido naquele espaço. Eu acho que não faltei um dia naquele ano. A gurizada e os professores eram muito conectados, eram muito afetuosos, e era o que a gente buscava. Por mais que tivéssemos a formação, o lado humano era a nossa necessidade.

Isso impactou tanto a vida de Gleen que foi por conta da sementinha plantada em sua adolescência que ele se tornou educador social.

- Eu tenho certeza que se eu não tivesse passado pela TV OVO, eu teria outra vida. A forma como eu fui tocado por aqueles professores me moldou para que eu pudesse possibilitar e transferir o conhecimento que adquiri ali - acrescenta o educador social.

Foto: Renan Mattos (Diário)
Gleen se tornou educador social depois de passar pela TV OVO

Para a jornalista Tayná Lopes, 23 anos, que integra a equipe desde 2018, as vivências na equipe da TV foram responsáveis pela formação política, profissional e, principalmente, humana:

- A TV OVO provoca esse sentimento de pertencimento, autoestima e protagonismo. Faz sentir parte de algo, perceber e sentir teu valor e tua possibilidade de fazer a diferença neste mundo. É um espaço de convivência e de formação amorosa e sensível ao outro. Me colocou em contato com realidades totalmente diferentes do meu dia a dia - completa a jovem.

Foto: arquivo pessoal
Tayná conheceu outras realidades por meio dos projetos

Além das amizades, na TV OVO também nasceu uma família. Apesar dos jornalistas Neli Mombelli, 34 anos, e Marcos Borba, 41 anos, já se conhecerem antes, foi durante a trajetória juntos que começaram a namorar e hoje são pais da pequena Elis, 10 meses:

- A Elis é filha da TV OVO, é mais um pintinho da nossa ninhada - brinca Neli.

Mas a família vai além dos laços sanguíneos, como aponta a atriz e produtora cultural Denise Copetti, 45 anos, integrante da associação desde início dos anos 2000:

- A gente sempre fala que a TV OVO é uma família, e eu acho que é isso, a gente vai aprendendo com os outros, nem todo mundo pensa igual, mas esses jovens que vão entrando, a gente vai aprendendo, vai provocando, é instigado a ir mudando. A vida e o audiovisual são movimento. Muita gente passou, mas deixou uma parte de si. É como se cada um fosse colocando um tijolinho na história. E eu tenho orgulho de fazer parte desse processo - comenta Denise.

Foto: Renan Mattos (Diário)
Denise Copetti se orgulha da trajetória de todos que fazem parte do projeto

DO SONHO À REALIDADE
Nos primeiros anos da TV OVO, Evandro Rigon era um adolescente que estudava na Escola Augusto Ruschi, no Bairro Juscelino Kubitschek. A equipe foi até o local convidar os alunos para participar das oficinas, e ele, que sempre teve curiosidade, topou na hora.

Foto: Renan Mattos (Diário)
Evandro hoje é sócio-proprietário de uma produtora da cidade

- Antes eu nunca tinha tido contato com o vídeo. Foi a partir dali que eu soube o que era, como fazia. A TV OVO influenciou não só eu, mas muita gente, mesmo quem não segue na área aprendeu muita coisa e teve muitas vivências - comenta Evandro.

Com a paixão e a experiência adquirida, ele começou a trabalhar como freelancer em produtoras da cidade, e hoje, com 39 anos é sócio-proprietário da Finish Produtora.

- Foi a partir desse conhecimento que eu segui na área até hoje, e não me vejo fazendo outra coisa - acrescenta.

Foto: arquivo pessoal
Francele sentiu-se instigada a estudar novas coisas quando participou da equipe. Hoje é artista visual e vive na Espanha

Assim como Evandro, Francele Cocco, 37 anos, também conheceu a TV OVO com projetos na comunidade. Em 2005, quando havia acabado de ingressar no curso de História da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), passou a fazer parte da equipe depois de conhecer uma oficina na Cohab Fernando Ferrari, em Camobi, onde ela nasceu e foi criada. E foi a partir disso que tudo mudou, para melhor:

- Eu venho de uma família pobre que não tem nenhuma relação com as artes e com os meios de comunicação. Tudo o que fiz na universidade e depois da graduação tiveram, sem dúvida, a influência da TV, que trouxe essa busca e a curiosidade para estudar. A primeira coisa que me seduziu foi poder estar na comunidade e estar fazendo matéria, sessões de cineclube na periferia, todo esse andar no território de Santa Maria - lembra Francele.

Atualmente, ela é historiadora e artista visual, e, há dois anos, mora em Barcelona, na Espanha. Apesar de não trabalhar diretamente com o audiovisual, a imagem sempre permeou seu trabalho:

- A TV OVO tem esse lugar de ampliar os horizontes e mostrar que é possível chegarmos onde quisermos - completa a artista sobre a passagem pelo projeto.

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