comportamento

A saga do entretenimento a favor do bem-estar é o assunto deste episódio

Conversamos com psicólogos e com fãs para entender como a cultura pop pode manter a saúde mental em dia

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Fotos: Fabiano Marques (Diário)
Legenda: Fernando é fã da saga "Star Wars" desde a infância. Atualmente, colecionar itens e rever as histórias proporcionam a ele um mix de bons sentimentos.

(Trilha sonora) "Há muito tempo atrás, numa galáxia muito distante..." (em letras amarelas subindo, com o espaço sideral de plano de fundo)... Neste momento, os pelos dos braços se arrepiam, aquela sensação de ansiedade misturada com euforia se eleva e segue até os créditos finais do filme. Apesar de estar assistindo pela décima vez, é assim que acontece com os fãs de Star Wars. A saga, lançada em maio de 1977, que hoje conta com 12 filmes, três séries animadas, uma em live action, além de uma série de livros, brinquedos, colecionáveis, linha de roupas, é uma seara de interpretações, discussões e relações com a realidade. Há até quem use a filosofia Jedi* como modo de vida, imaginem só?

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Além desse universo, que encanta a milhões de pessoas há décadas, criado pelo cineasta norte-americano George Lucas, existem tantos outros, como as sagas de Harry Potter, Vingadores, Senhor dos Anéis, Cavaleiros do Zodíaco, todas exaltadas por seguidores da cultura pop, nerd e cult. Em meio à pandemia, a Revista MIX questionou psicólogos e fãs a respeito de como esse tipo de entretenimento influencia (positiva ou negativamente) na vida das pessoas. Seria esse hábito uma forma de distrair a mente e, assim, preservar a saúde mental? Aproveitamos o gancho da exposição Multiverso Expo - O Lado Sombrio da Força, em cartaz no Royal Plazza Shopping, até 31 de janeiro, do meio-dia às 20h, e embarcamos no hiperespaço de Star Wars em busca dessas respostas.

IDENTIFICAÇÃO 

O engenheiro e professor do Colégio Técnico Industrial da UFSM Fernando Kaehler Guarda, 37 anos, conheceu os filmes aos 5 anos e se apaixonou. Atualmente, ele avalia como positiva a experiência de fã:
- O que me cativou foi o paradigma da luta do "bem contra o mal". Hoje, quando eu assisto, sou realmente capturado para dentro do universo Star Wars. Acabo esquecendo, momentaneamente, stresses e problemas e, agora, que sou mais velho, tenho uma gostosa sensação de nostalgia, pois é uma série que me acompanhou pela vida inteira. 

A bacharela em Direito Jéssica Oliveira (ao lado), 29 anos, é fã da saga desde a adolescência. Na época, assistiu aos filmes e a pesquisou sobre todo o universo. Ela acredita que a saga traz mensagens que podem ser utilizadas e aplicadas na vida e cita as forças políticas poderosas opressoras, e, por outro lado, a resistência de uma rebelião de pessoas que se recusam abrir mão de sua liberdade. Durante a pandemia, rever os episódios era um dos programas favoritos dela e do irmão caçula.

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- Meu irmão nasceu quando eu tinha 14 anos. Há quatro anos, apresentei a saga para ele. Como bom Jedi Oliveira (brincadeira), ele também virou fã. Na pandemia, ele sofreu com crises de ansiedade e o primeiro convite para lidar com elas era: "mana, vamos assistir Star Wars?" - conta. 

O psicanalista Luís Henrique Ramalho Pereira, 43 anos, que é fã da saga desde criança,

afirma que a trama de Star Wars traz elementos de interesse humano ainda atuais, como as relações de mestre e aprendiz, assim como outras mais profundas, como um novo mundo, as diferenças e o estrangeiro, elementos que sempre fascinaram os seres humanos. 

- Star Wars comporta todos os tipos de personagens épicos, representando, para a nossa cultura, marcos fundamentais da mitologia e da literatura. Representa uma saga humana de sobrevivência, de luta por liberdades e pela ruptura por sistemas tirânicos. Eu diria bem atual - comenta Luís.   

Segundo Walter Cruz (foto abaixo), 52 anos, doutor em Psicologia Clínica e Cultura, no que diz respeito aos efeitos dessa identificação como entretenimento e bem-estar, é preciso

destacar que a cultura é uma espécie de mediador para enfrentarmos nossos sofrimentos: 

- É através de novas linguagens que podemos enfrentar aquilo que se apresenta como uma espécie de sintoma social. Isso é, em cada tempo, em cada espaço, novos ideais vão sendo traçados pela sociedade, gerando também o sofrimento de não podermos realizá-los em sua plenitude. Neste sentido, estamos sempre vivendo uma espécie de incompletude fundamental, existencial, poderíamos dizer.  

Ele explica que, embora a linguagem ajude a nomearmos esse mal-estar, ainda assim, costuma ser insuficiente. Como se o cobertor fosse curto e ficasse sempre algo descoberto, mostrando para nós, e para o outro, essa condição de insuficiência do humano:
- Aí, podemos localizar a necessidade da fantasia e sua função como um recurso que utilizamos para nos equilibrar diante da dureza da existência. Fantasiamos para tornarmos o mundo uma experiência possível.

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Luís Henrique acredita que Star Wars representa uma parte da produção cultural muito mais importante que mero entretenimento. Para ele, a saga faz parte de um marco decisivo na cultura pop, ou seja, a cultura como conhecemos hoje, com grande influência nos processos de desenvolvimento humano, que está definitivamente calcada sobre o cinema, a literatura, as HQs, os games e a interseção deles.
- Não vejo como não darmos um lugar de importância e prestígio para a cultura pop no furacão da pandemia, por exemplo. Uma vez que ao passarmos muito tempo isolados ela foi, e será por bastante tempo, uma alternativa de encontrarmos formas de nos situarmos em sociedade e nos relacionamos por uma espécie de laço identificatório. O que eu quero dizer com isso é que nos dá suporte e nos dá caminhos de saúde - explica. 

FANTASIA 

Os irmãos gêmeos Pedro e Marcos Amaral, 23 anos, contam que são fãs desde crianças. Eles começaram a acompanhar a saga nos anos 2000, quando iniciou a retomada dos filmes, como A Ameaça Fantasma, lançado em 1999.
- Nós assistimos aos filmes na ordem cronológica, por volta dos 12 anos. Os primeiros três episódios não nos cativaram muito, o que fez com que assistíssemos à trilogia original somente anos depois. Para assistir ao episódio sete, em 2015, revisitamos a franquia completa, e aí viramos fãs - recorda Pedro, que é publicitário. 

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Marcos, que é produtor editorial, julga ser importante que existam histórias como a de Star Wars no nosso imaginário, que falam de pessoas simples realizando grandes feitos e combatendo forças que tentam oprimir as outras:
- Penso que as pessoas se sintam bem acompanhando esses filmes porque eles as inspiram e as fazem acreditar em uma realidade melhor e, por que não, um pouco mais mágica. Star Wars é o tipo de história que desperta o sentimento de esperança nas pessoas. Acreditar em um mundo melhor (ou nesse caso, em uma galáxia melhor), livre de opressões e líderes autoritários, é um dos grandes temas da franquia. Penso que, em um contexto como o que estamos vivendo, no Brasil e no mundo, esse tipo de narrativa é essencial - sugere.

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Walter também fala sobre o papel da fantasia na formação dos indivíduos e sua função no desenvolvimento das crianças e na fase adulta. Segundo ele, na infância, nos permite exercitar formas de lidar com situações complexas:
- A criança que brinca está aprendendo a resolver situações de conflito e a lidar com suas próprias emoções. Então, o lúdico não deixa de estar associado à esperança, à crença em que as coisas podem se resolver. Neste sentido, é fundamental. Por outro lado, podemos pensar que pode se tornar um problema quando se constitui como uma saída principal, na vida adulta, para problemas complexos. São aquelas pessoas que negam fatos, por vezes, constituindo mesmo um negacionismo, por não conseguirem lidar com as próprias emoções ou conflitos.



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