Como os nossos pais

Pais e filhos artistas falam sobre inspiração e parcerias musicais

Artistas bateram um papo com a Revista Mix sobre a vida, carreira e laços que vão além dos sanguíneos

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Foto: Foto: Pedro Piegas (Diário)

As primeiras referências dos seres humanos são a mãe e o pai, ou quem quer que cumpra esse papel, logo após o nascimento. O desenvolvimento daquele pequeno ser se dá de acordo com rotinas e costumes da casa. Quando os responsáveis são artistas, a convivência e os exemplos podem resultar em um futuro pintor, bailarino, cantor, instrumentista. A arte encanta e, às vezes, direciona sem pressão a esse caminho. Como é o caso do baterista Matheus Schuch, filho da cantora Oristela Alves, que cresceu em meio aos trabalhos da mãe e, segundo ele, naturalmente vive de música desde quando nasceu. O ator e dançarino Lucca Adams Pilla, nasceu quando seu pai, Arion Pilla, deixou o rock e passou a compor temas tradicionalistas. Porém, a relação entre os dois foi regada com admiração pelo trabalho artístico e segue crescendo com a troca de experiências. A cantora e professora de música Juliana Pires segue os passos do pai, o cantor e compositor Beto Pires, em uma relação musical de uma vida inteira. O músico Yuri ML, vocalista e baixista da Guantánamo Groove, recorda de sua relação e do legado de seu pai, o músico João Batista Machado, falecido em 2020.

Conversamos, também, com a psicóloga Rochelli Pacheco sobre como a psicologia analisa o caso de quando seguir a profissão dos pais é obrigação ou inspiração.

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A fruta não cai longe do pé - Oristela Alves e Matheus Schuch


Desde muito pequeno, Matheuzinho já mostrava ter ritmo acompanhando as músicas no aparelho de som, onde ele mesmo colocava um disco do Grupo Raízes e ritmava um chamamé como se já fosse um mini baterista. E não por acaso. A informação vem da cantora e produtora cultural Oristela Alves, 65 anos, mãe do músico Matheus Schuch, 37 anos. Por muitos anos, ela encantou plateias e brilhou nos palcos com sua voz além de atuar fora deles, como produtora de grandes eventos tradicionalistas, como a Tertúlia e o Minuano da Canção.

- Eu estava sempre envolvida com eventos, principalmente musicais, e tratando com músicos. Nesse contexto, ele começou a conhecer os artistas e a se interessar cada vez mais por bateria. Depois, formou a banda Inimigo Público e foi eleito melhor baterista em um concurso. Aí, percebemos que era isso que ele queria fazer e sempre apoiamos. Qual mãe não se orgulharia ao ver o filho se realizar com a profissão que escolheu? - orgulha-se Oristela.

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A admiração mútua é evidente quando um fala do trabalho do outro.

- A mãe sempre foi muito querida e respeitada no meio da arte. Isso sempre me orgulhou e essa foi a maior influência dela sobre mim. Ter o respeito das pessoas do círculo de trabalho é algo mágico. A Fofa (apelido da Oristela) conseguiu isso sempre respeitando os colegas. Sobre o interesse em bateria, a mãe lembra que, aos 4 ou 5 anos, eu comecei a batucar nas panelas da avó. Talvez, realmente, a fruta não caia longe do pé - conclui o baterista.

Para a cantora, o melhor desses quase 40 anos de música com o filho é quando os dois estão juntos dividindo o palco:

- Me apresentar estando com ele é maravilhoso, um sentimento inexplicável! Imagina você estar em um mesmo palco tendo o seu filho vibrando contigo, torcendo para que tudo ocorra bem. O sentimento que vem na minha cabeça, com certeza, é de gratidão!


Foto: Pedro Piegas (Diário)

Seguindo o fluxo - Arion e Lucca Pilla

O ex-vocalista da banda Doce Veneno, uma das bandas mais importantes do rock em Santa Maria nos anos 1980 e 1990, Arion Pilla, 56 anos, e o filho Lucca, 29, trocam figurinhas sobre música e arte desde que suas vocações se uniram. O primeiro é o idealizador do JuvEnart e o segundo formado em dança na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

- Quando eu nasci, ele saiu da banda, mas, nem por isso, deixei de experimentar a cena rock daquela época. No meio tradicionalista, com meu pai, então cantor e compositor de músicas para as invernadas de CTG, foi onde acompanhei de perto, mais de 20 anos de processos criativos - relembra Lucca.

Arion notou que o filho tinha personalidade e que trilhou seu próprio caminho.

- O Lucca não seguiu os meus passos, nem os de ninguém, ele tem personalidade própria. E esse é meu grande orgulho. A minha parte nisso, foi em algum momento, quando ele era menininho ainda, ter dado acesso à arte. Num convívio que era parte do meu trabalho, ele estava sempre em todas as atividades que eu fazia - recorda Arion, saudoso.

 A troca e o aprendizado entre pai e filho segue até hoje. Lucca discorda do pai quanto à influência pela escolha de ser artista e aponta o pai como influência, sim:

- Por eu estar sempre perto, todas as experiências que pude ter junto dele na música, na dança, na construção do maior evento que o Estado tem de dança gaúcha, tudo foi me dando bagagem para hoje eu conseguir me colocar no mundo como um profissional da arte. E isso a gente não aprende em nenhum outro lugar senão em casa.

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Sem assumir um processo de continuidade, mas de parceria, o pai não economiza em elogios ao filho.

- Ele é o artista que ele é pelo talento. Esse brilho todo pertence a ele. E a mim cabe aplaudir e me orgulhar. Tudo o que mais me orgulho de ter construído artisticamente no tradicionalismo gaúcho, todas tiveram o testemunho dele. O estímulo de continuidade, de feedback, faziam dele um cúmplice do que eu estava fazendo. Se eu tive um fã, se alguém gostou do meu trabalho foi o Lucca. E para mim isso já bastou como artista - declara Arion.

Lucca diz que eles seguem compartilhando as criações com a mesma exigência e com mais amor, espaço e compreensão.

- Ele é um ótimo contador de histórias! Todas são apresentadas com forte carga emocional e são marcadas pela habilidade dele em criar atmosferas, balancear o tom, as dinâmicas, sem deixar de ser simples, palatável, humano - avalia Lucca.

Foto: Pedro Piegas (Diário)

"De poeta e de louco, todo mundo tem um pouco" - Juliana e Beto Pires

Juliana Pires, praticamente, nasceu em cima de um palco. Desde muito pequena, acompanhava a carreira do pai,Beto Pires, o que, segundo ela, a fez seguir, naturalmente, o caminho da música. Hoje, aos 28 anos, ela tem um duo musical com o marido, Matheus Lopes, e trabalha com os corais Illumina, Magnificat e Astra Dei. Beto, autor da música Santa Maria, considerada um dos hinos da Cidade Cultura, é professor, compositor e cantor, além de seguir se apresentando com seus shows que misturam belas canções e pitadas de comédia.

- Quando a Ju era pequeninha, a gente já percebia que ela cantava muito afinada. Desde que ganhou um tecladinho, parece que a vida dela se voltou para a música. Ela tem uma voz linda. Parece que ela nasceu para ser a musicista que é. Eu tenho muito orgulho que ela tenha seguido, mais ou menos, os mesmos passos que eu. Ela diz que eu tenho participação no aprendizado dela. Mas isso é o coração dela que fala, porque tudo ela buscou. Ela foi atrás dos sonhos dela e da música que ela queria para si - comenta Beto Pires.

Juliana recorda que, assim como ela, a mãe e a irmã, acompanham Beto.

- O fato de ver todo esse talento desde pequena me inspirou a estudar e a seguir no caminho da música. E o pai sempre me incentivou. Quando eu tinha uns 6 anos, ele me deu meu primeiro teclado de presente de Natal. Era um tecladinho infantil, e ele me ensinou o nome das notas musicais e mostrou como tocava. Além disso, sempre me presentear com discos de artistas maravilhosos.

A cantora reconhece seus privilégios e confessa ter sorte de ter tido além de um exemplo, o incentivo da família dentro de casa.

- Nem todos tem a sorte de ter o apoio dos pais quando querem seguir a arte. Sou grata por ele ser quem ele é. Meio louco, meio brincalhão, e com uma linda alma de artista. É aquela frase que ele mesmo usa em seus shows: "De poeta e de louco, todo mundo tem um pouco" - declara a cantora.

A mesma coisa - Yuri ML e João Batista Machado (in memorian)

"Uma das primeiras lembranças sonoras que eu tenho é daquele tecladinho do Dire Straits, na introdução da Walk of Life. Meu pai tinha uma banda de rock, e eu tinha uns 4 anos. Era um convívio cotidiano com a música". O músico Yuri ML busca na memória seus primeiros contatos com a música e vai longe, pois o pai, João Batista Machado (falecido), já desempenhava a profissão artística quando ele nasceu, há 30 anos.

- Lembro que em algum momento o pai deixou de tocar rock e voltou para as origens, na música gaúcha. Em 2001, eu tinha 10 anos, ele lançou um disco, e tenho lembranças mais vívidas de ir ao estúdio, acompanhar as gravações. Lembro bem do ambiente. A música era a identidade dele, um multi-instrumentista, tocava piano, gaita. Era um cara das comunicações, jornalista e radialista, também - lembra Yuri, que também é jornalista.

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Mas Yuri comenta que esse fato não foi planejado deliberadamente:

- Por incrível que pareça, eu também sou jornalista, mas, antes, pensei em ser muitas outras coisas. Com o passar do tempo eu fui perceber o quanto eu estava me tornando como ele. Mas não foi um espelho espontâneo ou deliberado. Mas acabou sendo, porque a gente se espelha nos pais. São as referências que a gente tem.

Yuri relembra que foi João Batista que trouxe muitas referências musicais desde a canção regional até o rock e o blues.

- O pai formou a base do meu gosto musical. O próprio contato com a música regional do Rio Grande do Sul para além do que a gente ouvia no rádio e no CTG. Me conectou com o folclore. Tinha uma coleção de mestres do blues, foi ele que me mostrou. Quando descobri os The Beatles, ele me contou tudo que ele sabia. Era tudo meio espontâneo, eu ia conhecendo e ele ia compartilhando.

O músico conta que houve até mesmo uma tentativa frustrada de aulas de gaita.

- Nas aulas, a gente brigava mais do que qualquer outra coisa. Ele era professor de música também, um professor bem rígido. Depois, pelos 10 anos, eu quis aprender a tocar violão. Aí sim, rolou. A maior herança que eu tenho dele é a percepção, o ouvido musical.

Yuri lembra que já na fase adulta, a amizade e a admiração de um pelo outro aumentou e se concretizou:

- No último dia que estive com ele, passamos a tarde brincando de reconstruir músicas dos Racionais MCs. E foi uma conquista convencer um cara tradicional e resistente musicalmente que rap era música boa. A gente tinha um diálogo muito franco, de amigo. Ainda estou me reaproximando da música. Perder ele foi um baque bem forte. O pai e a música, para mim, são a mesma coisa.


A psicologia enxerga com cautela

Até agora, falamos de casos espontâneos. Mas, às vezes, os pais forçam a barra para que os filhos sigam suas profissões. A psicóloga Rochelli Pacheco, da clínica Atêlie da Saúde, que desenvolveu técnicas como Musicoterapia, Cinematerapia, Arteterapia para acompanhar seus pacientes, explica que se vê na ciência do homem, o quanto suas origens, evolução, desenvolvimentos fisiológicos, materiais, culturais, psicológicos, características raciais, sociais, crenças e afins afetam seu comportamento:

- Há décadas, era bem comum ver os filhos seguindo a profissão dos pais. Isso ainda acontece, porém, com menor frequência, pois, hoje em dia, os jovens conseguem ter mais voz e seu discurso é mais validado.

Rochelli argumenta que a maioria dessas "induções" a certas profissões, geralmente, vem atrelada e justificada pelo discurso de que são profissões percebidas pelos pais como com bom status no mercado de trabalho e estabilidade financeira. Indiscutivelmente, há uma pitada de traço egoico, onde se vê a possibilidade de se satisfazer ou realizar por meio dos filhos, pois, em muitos casos, os pais não conseguem lidar com as próprias frustrações ou falta de oportunidades de exercer tal função.

- Muitas dessas escolhas, que eram feitas pelos filhos, ao seguir os passos dos pais, eram decididas por admiração, identificação, processo transferencial, vínculos fortalecidos e tantos outros. Entretanto, cabe salientar, que não raramente essas escolhas também acabam se dando em função do medo de desagradar, por pressão, e pela busca de saciar a expectativa dos pais, criada para o futuro dos filhos, isso, inclusive, pode prejudicar muito os filhos emocionalmente - avalia.

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A psicóloga sugere que os pais tenham diálogos abertos com os filhos, os conheçam, saibam do que gostam, o que sonham, no que se sentem capazes e bons. Falem, mas também escutem.

- Contudo, é lógico que é importante e saudável haver investimento emocional, afetivo, demonstrar interesse e validar o processo de escolha do filho, mas jamais com intuito de querer definir ou influenciar a pessoa que por si só (principalmente se for na adolescência), muitas vezes, já está com várias dúvidas sobre outras demandas da vida nessa fase. Caso as dificuldades sigam, é importante procurar um orientador profissional - finaliza.


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