com a palavra

Pablo Canalles conta como fez da arte uma parte essencial da vida

Professor, ator e diretor cruz-altense, radicado em Santa Maria, fala sobre teatro, música, família e Universidade

Foto: Fotos: arquivo pessoal

Fotos: arquivo pessoal

Pablo Canalles, 37 anos, é professor universitário, ator e diretor, além de atuar como "DJ nas horas vagas". Nascido em Cruz Alta, ele veio para Santa Maria ainda com 17 anos, quando ingressou no bacharelado em Artes Cênicas na UFSM, onde se graduou e leciona atualmente. Desde então, a arte ocupou um espaço especial na vida de Pablo. Seja como profissão, seja como lazer, a música e o teatro são, acima de tudo, seu prazer.

Diário _ Como o teatro entrou na sua vida?

Pablo _ O teatro já estava presente na minha vida desde o início da adolescência quando, impulsionado pela leitura, me vi fazendo parte do então chamado Clube do Leitor, fundado pela atriz amadora e, posteriormente advogada Luciane Lopes, dentro do Colégio Santíssima Trindade. Nessas reuniões, das quais eu fazia parte, debatíamos livros, conversávamos sobre nossos gostos pela literatura e, mais do que tudo, sentíamo-nos pertencendo a um grupo. Minha entrada no teatro não aconteceu no primeiro convite. Nem no segundo, ou no décimo. Como um adolescente de quatorze anos cheio de medos e cobranças, via o teatro como uma perda de tempo; e esse tempo precioso poderia ser usado em função dos estudos para, posteriormente, ser o primeiro de seis irmãos a me graduar em uma universidade. Mas até os mais dedicados têm seus dias de fraqueza, e duas aulas de matemática após o intervalo eram um desafio maior do que eu gostaria naquela manhã. Como participava do Clube do Leitor, sabia que o grupo de teatro teria uma apresentação e corri para o salão onde ela ocorreria em instantes. E foi um caminho sem volta. Talvez as definições de "amor à primeira vista" tenham sido atualizadas naquele momento.

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Diário _ Depois que você chegou ao teatro, como decidiu que faria disso sua profissão?

Pablo _ Na escola, fazíamos esquetes e peças para datas especiais dentro da escola, tivemos a felicidade de participar de diversos festivais de teatro amador no interior do Rio Grande do Sul. Nossa então diretora havia participado anteriormente de alguns desses festivais com o grupo Máschara, e via nesses eventos uma forma de mostrar o nosso trabalho, e obter algum reconhecimento dentro e fora dos muros da escola. Nós viajávamos para outras cidades do interior do Rio Grande do Sul, e sempre que possível permanecíamos nos festivais, na ânsia de ver os mais diversos tipos de espetáculos, uma vez que em nossa cidade natal as apresentações de outros grupos eram bastante escassas.  Foi em um desses festivais, no Festival de Teatro Amador do Salto do Jacuí (FESTSALTO) que, em 1997, conheci o trabalho do diretor Helquer Paez, de Santa Maria. Foi durante essa noite que, em meio às histórias de Paez, descobri que o diretor graduara-se na Universidade Federal de Santa Maria, no Curso de Licenciatura em Artes. Ainda em 1997, cursando o então chamado segundo grau, na escola Santíssima Trindade, participei ativamente do Grupo Teatral Sem Limites assumindo, inclusive, a liderança da companhia. Paralelo a isso, fazia as provas do PEIES - Programa Experimental de Ingresso ao Ensino Superior e, em 1999, entrei no Curso de Artes Cênicas da UFSM.

Diário _ Depois de chegar em Santa Maria, o que a UFSM significou para você?

Pablo _ Para mim, a Universidade é o lugar em que um artista pode experimentar, "aprender a aprender", e desconstruir-se para se reconstruir a cada processo. É um lugar primordial para o crescimento como indivíduo e que, apesar das tentativas de sucateamento, mantém-se com os esforços dos profissionais que acreditam na possibilidade de construção de um mundo mais justo e mais democrático. Ingressei na UFSM como professor substituto imediatamente após me graduar em Direção Teatral, no ano de 2003. Sempre tive o desejo de ser professor, e quando soube que poderia ser professor de teatro, parecia que o ciclo estava completo, unindo minhas duas paixões. 

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Diário _ A comédia é uma área que tem destaque para você tanto na pesquisa como na prática. Por quê?

Pablo _ Tenho um irmão mais novo, e nossa diferença de idade é de um ano e meio. Fomos criados e brincávamos juntos, e desde que me recordo, já brincávamos de fazer paródias de músicas, compor personagens e contar piadas. Profissionalmente, meu primeiro contato com a comédia foi no terceiro semestre do Curso de Artes Cênicas, com a professora Cândice Lorenzoni. Na época, em 2000, a disciplina de Técnicas de Representação visava ao trabalho do ator com a comicidade, e naquelas aulas em que brincávamos com dublagens, paródias e exageros descobri uma paixão. Participei de várias comédias como ator e, após a formatura, decidi dirigir um espetáculo de comédia baseado nos acontecimentos da Oresteia, trilogia de tragédias gregas que conta 30 anos da saga de Agamenom, desde sua ida a Tróia para resgatar a cunhada Helena, até seu retorno ao lar, quando é assassinado pela esposa. Trabalhamos alguns meses nessa versão "à la novela mexicana" da trilogia e, com o que "sobrava" de material do processo, demos início ao Show de Humor "O Uivo do Coyote", com o qual trabalhamos por mais de 10 anos em Santa Maria, criando mais de 80 quadros de comédia, desde números musicais até talk shows e programas de auditório - tudo revisitado pela lente da paródia e da ironia.

Diário _ Além das paródias, como você se relaciona com a música?

Pablo _  Meu interesse pela música sempre esteve lado a lado com o interesse no teatro. Talvez a primeira venha hereditariamente, por via paterna, e o segundo por osmose, adquirido nos encontros do "Clube do Leitor" e no convívio com os 'desajustados' que enfrentavam o ensino fundamental nos anos 90. Cresci ouvindo todo o tipo de música, já que meu pai é um grande apreciador dessa arte. Em casa, eu ouvia de Chitãozinho e Xororó a Beethoven, de Rod Stewart a Vinícius de Morais. Uma de minhas colegas na UFSM, Priscila Genara Padilha, apresentou-me a dois de seus amigos - Jeferson Bernardo e Atílio Alencar, estudantes de Filosofia e História, respectivamente, que viriam a fundar, em 2005, o Macondo Lugar. O convívio com essas pessoas, as conversas e as ideias compartilhadas me levaram a propor uma festa, chamada Especial Björk, na qual tocava as músicas da cantora e compositora islandesa. Era uma noite eclética e nada convencional. Seguindo essa vibe experimental, fiz ainda a festa Flores Horizontais, permeada por músicas de vocais exclusivamente femininos e, mais adiante naquele ano, a festa Eletropop, que fugia completamente do recorte musical experimental, underground e não-comercial pregados pela casa. Em 2007, o Macondo Lugar mudou de endereço, indo para um prédio de 3 andares, levando consigo um pouco da filosofia que lhe deu origem, mas adequando-a, gradativamente, às necessidades mercadológicas para manter-se em pleno funcionamento. Ainda sob a ideia inicial de fomentar as bandas locais autorais, a casa foi dando mais abertura às festas cuja discotecagem ficava a cargo de algum interessado em determinado estilo de música. Assim, fui chamado em uma reunião com a gerência da casa e, alguns meses posteriores à conversa, surgia a Bubblegum, primeira festa assumidamente Pop e LGBTQI+ do estabelecimento. Desde o começo, percebi que o ofício do DJ é, sem dúvidas, um trabalho artístico. Mais do que isso: há um paralelo entre o trabalho do ator-dramaturgista, responsável pela sua própria narrativa ao criar dramaturgia-em-cena, e os princípios utilizados pelo DJ em seu processo criativo.

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Diário _ Além da arte, como você encara a vida e o seu propósito?

Pablo _ Pode parecer um tanto clichê, mas meu propósito de vida é vivê-la intensamente, no aqui e no agora, que é tão característico do teatro. Sou agnóstico, não acredito em Deus ou em qualquer outra mitologia. Respeito as religiões como cultura, e me interesso bastante por elas, tanto quanto pela filosofia. Acho que o fato de não acreditar em vida após a morte, e pensar que nossa existência se restrinja unicamente ao tempo em que estamos aqui, nesse lugar, me faz encarar a vida como algo extremamente precioso. Acredito que o que temos de mais importante é a relação com os outros, o respeito e o aprendizado do convívio, e isso me leva a fazer minhas escolhas, a ter empatia e a acreditar que aqui e agora podemos fazer um mundo melhor.


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