para pensar

O que dizem militantes do movimento negro sobre especial 'Falas Negras'

Flávio Bauraqui, ator de Santa Maria interpreta um dos personagens da produção global

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Na sexta-feira, 20, Dia da Consciência Negra, a Rede Globo apresentou o especial Falas Negras, que trouxe um resumo da história de 22 personalidades negras ao longo da história do Brasil e do mundo. Santa Maria está presente na produção pelo o ator Flávio Bauraqui, que interpreta no o jornalista, poeta e líder abolicionista Luiz Gama. A Revista MIX pegou esse gancho e conversou com o ator e com outros artistas e representantes do Movimento Negro de Santa Maria sobre os prós e os contras do programa da Rede Globo e, também, pediu sugestões de obras protagonizadas ou produzidas por artistas negros. Chamamos para a discussão as duas mulheres mais votadas na eleição para vereador 2020, Alice Carvalho e Maria Rita Py, e os artistas Evelíny Pedroso e Braziliano. 

NEGRO PELOS NEGROS
O ator santa-mariense Flávio Bauraqui vê, nos últimos anos, uma ascensão do artista negro. Segundo ele, há autores, escritores, diretores negros como proponentes e homens e mulheres negras estão lançando livros incríveis. 

- É importante que tenhamos pessoas que escrevam a nossa história. Que a caneta e o teclado sejam usados por mãos negras, pois só nós sabemos como contar a nossa história. Precisamos ir ao encontro dos livros. Esse afastamento nos deixou mais frágeis. Precisamos ocupar os espaços, para, assim, transformar esse mundo em um mundo mais justo - afirma o ator que foi homenageado pela UFSM no Dia da Consciência Negra.

 

A doutora em educação Maria Rita Py Dutra, 72 anos, segunda mulher mais votada nas eleições deste ano, vê a exibição da atração com bons olhos, mas ressalta que não basta combater o racismo, tem que ter atitudes antirracistas. Ela sugere que a Globo poderia mostrar isso se ampliasse o quadro de negros em papeis superiores, aí sim, mostraria esforço para diminuir o racismo estrutural. Senão, vira modismo.

- Eu acho importante porque a nossa história foi visibilizada. O que ficou da cultura negra? O rap, o samba, o esporte. Sempre lembrada da cintura para baixo, no caso da mulher. Então, é importante que a sociedade brasileira conheça outros nomes. É preciso formar um referencial, um panteão de referência negra. São pessoas com quem o sujeito vai se identificar.


"Me lembrei do Oliveira Silveira, um escritor que tem uma importância enorme.
Foi uma das pessoas que criou a  expressão "dia da consciência negra",
e é gaúcho  de Rosário do Sul."
Maria Rita Py

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O artista visual Braziliano, 39 anos, vê o programa de forma positiva, visto que a TV aberta ainda alcança grande público.

- Ainda hoje, a TV aberta tem um poder grande para alcançar as periferias. Tenho certeza que muitas pessoas na estrutura dessa base terão um conhecimento maior da existência dessas pessoas. Essas personalidades brasileiras têm um peso maior, porque muitos deles não são conhecidos pelo grande público, e isso deve trazer muitas reflexões - avalia.

Braziliano destaca também o envolvimento de atores e equipe negros, junto o diretor Lazaro Ramos:

- Além das personalidades, tanto a produção quanto os atores são estrelas máximas da dramaturgia negra brasileira. Só isso já demonstra a importância desse projeto. Apesar de podermos questionar o que é o simbólico da Globo, ainda assim, acredito muito mais nas possibilidades positivas disso. Se tem tantos irmãos e irmãs negros envolvidos nesse projeto, eu confio.


"O quadrinista  Marcelo D'Salete tem Angola Janga, que mostra um período
do Quilombo dos Palmares de forma histórica e  poética"
Braziliano

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REPRESENTATIVIDADE
A artista visual, cantora e professora Evelíny Pedroso, 34 anos, não confia na produção global, pois, segundo ela, a Globo, na maior parte da história das suas produções, alimentou o racismo, o consumismo e já compactuou com a censura. 

- Algumas grandes mídias não são ferramentas educativas com a mesma profundidade que uma peça de teatro, um livro, um rap, um grafite ou um show de música ao vivo e sem edições quando criados com liberdade de expressão - comenta.

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Em relação ao especial, Evelíny sugere que se o artista Lázaro Ramos puder expressar livremente verdades históricas sobre os 22 protagonistas negros, impulsionando catarse e empatia, acaba por tornar válido o uso desta mídia, visto que a maioria dos brasileiros ainda não tem acesso a outros meios e é urgente que os negros conheçam a história de seus antepassados e dos protagonistas que reverberam até hoje uma luta antirracismo.

- Em relação ao especial visto como obra de arte, penso ser importante questionar a romantização exacerbada dos heróis nacionais e mundiais quando publicados por grandes mídias, pois precisamos também valorizar o "ser comunitário" de um sincero rap da periferia até uma consulta de um Preto Velho, que não cobra nenhum centavo por sua espiritualidade - exemplifica a artista.


Sabotage, Emicida, Elza Soares,  Elisa Lucinda.
Também cito o escultor Arthur Bispo do Rosário
e filmes que trazem recortes da cultura negra como  
"O Grande Tambor"

Evelíny Pedroso

Alice Carvalho, candidata a vereadora mais votada e que não se elegeu em função do quociente eleitoral, destaca uma evolução na forma de como o negro é retratado nessas produções.

- Antigamente, quase não tínhamos representação. E o que tinha era muito pautado em estereótipos negativos de pessoas negras em espaços subalternizados, escravizados, em cenários de dor e sofrimento. Creio que, agora, estamos conseguindo mudar essa narrativa, que as pessoas estejam em evidência e estejam em outras posições, como de empoderamento - comenta a psicóloga.


"Ao assistir "Dear  White People",
as pessoas negras podem pensar em relação a representatividade
e as brancas podem fazer  um questionamento sobre pensamentos e atitudes"
Alice Carvalho


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