com a palavra

No Dia do Palhaço, veja a trajetória de Daniel Lucas, o Rabito do Teatro VagaMundo

Nascido em Bagé, o artista mora em Santa Maria há 14 anos

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Foto: Pedro Krum (divulgação)
Na Aldeia indígena guarani de Guaíba

No registro civil ele é Daniel Lucas de Lima Moura. Mas, no cotidiano é ora Daniel Lucas, ora o palhaço Rabito, duas personalidade que se fundem em suma só. Segundo o artista, "palhaço é um ser revolucionário que jamais perde sua potência de guerrilha, é um detonador de padrões, pois quando o palhaço está no picadeiro envolvido no seu universo, ele de alguma forma, está curando a humanidade, curando através do riso".

Natural de Bagé, a rainha da fronteira, Daniel, 35 anos, chegou em Santa Maria há 14. É formado como ator pela Luzarte Escola de Atores e demais cursos de palhaçaria. Até hoje, investe naquela que ele julga ser a grande escola dos palhaços: o público. Somente com o espetáculo La Perseguida tem 10 anos de estrada, 18 Estados do Brasil e cinco países, somando quase 400 apresentações. Também é ator e sócio-administrador do Teatro VagaMundo e Pousada Vale do Riso, que fica em Itaara, onde vive há três anos juntos dos inseparáveis cachorros Sancho, Bagé e Leopoldo.

Foto: Marcelo Ferreira (Divulgação)

Diário de Santa Maria _Qual tua relação com Santa Maria?

Daniel Lucas _Com 20 anos, eu ainda morava em Bagé quando saí do Exército bastante frustrado com a experiência e sem saber o que fazer. Eu desconfiava que levava jeito pra atuar e conheci a Luzarte, escola que formava atores e que estava com uma extensão justamente na minha cidade. Fiz um ano de teatro e depois mudei-me para Santa Maria, em 2005, para continuar na escola. Ao mesmo tempo, fazia cursinho para prestar vestibular pra Artes Cênicas. Quis a vida que eu não fosse aprovado. Na época, a frustração foi imensa. Hoje, olho com orgulho para minha caminhada, e vejo que fui acumulando grandes fracassos ainda bem jovem. E veja só que interessante: os fracassos são a matéria prima do palhaço.

Então, precisei buscar minha formação artística fora do ambiente acadêmico e tive sorte de encontrar a Companhia Retalhos, que integrei por quatro anos. Em 2008, dei uma fugida pra tentar viver num circo, em Chapecó, já buscando ser palhaço, mas não deu certo. Ao retornar, eu e Gabriela Santos fundamos o Teatro VagaMundo. Foi em Santa Maria que conheci boa parte dos responsáveis por me apresentarem o universo do teatro e do circo. Foi em Santa Maria que fiz meu caminho profissional e acabei criando raízes.


Foto: arquivo pessoal

Com os cachorros Sancho, Bagé e Leopoldo

Diário _ E lá, em Bagé, como foi tua infância e adolescência? O teatro e a arte da palhaçaria já eram presentes? Como "nasceu" essa relação?

Daniel Lucas _Tive uma infância simples e feliz. Brinquei e aprendi muito na rua. Meus pais eram empresários e por muitos anos tiveram restaurante na rodoviária de Bagé. Esse foi um dos principais cenários daquela época pra mim, porque passávamos horas brincando por lá.

Como bom ariano, quando identificava prazer em fazer algo, mergulhava de cabeça. Foi assim com o futebol. Cheguei a tentar carreira (primeiro fracasso), depois com o Skate, competia bastante até machucar o joelho e ser proibido de continuar (segundo fracasso). O circo sempre esteve presente. O palhaço Bebé, do Circo Teatro Serelepe, que ia muito a Bagé, era amigo da família. Eu assistia a quase todas as sessões dos espetáculos. Durante a adolescência, o universo artístico se distanciou de mim e só nos reencontramos na época do curso de teatro.

Logo depois que estreei de palhaço em 2009, meu pai faleceu. Então ele morreu sem ter visto nenhum espetáculo meu. Mas lembro que mandei um DVD pra ele assistir em casa antes de se internar no hospital. Ele morava em Joinville. Ele assitiu e me ligou falando que tinha gostado muito e que tinha entendido a escolha da minha profissão.


Foto: Rafael Scuguglia (Divulgação)

Diário _Tu, imerso no mundo da arte, como avalias o fomento à cultura na cidade que carrega a alcunha de Cidade Cultura?

Daniel Lucas _ Santa Maria tem uma tradição cultural muito forte, mantida a muito trabalho pelos seus artistas mais antigos e sendo constantemente renovada pelas novas levas que chegam. Há vários coletivos, gente fazendo teatro, circo, música, artes visuais. Vejo muita dedicação da classe e pouco apoio, pouca iniciativa dos governos.

Temos eventos de relevância nacional sendo trazidos pra cá, a exemplo do Sesc Circo, que não conta com investimento do poder público municipal. Esse é um exemplo de uma visão de desenvolvimento que não reconhece a cultura como segmento importante, que, além de tudo, também movimenta a economia de uma cidade.

Em tempos sombrios temos que afirmar o óbvio. Santa Maria não deveria carregar essa slogan de cidade cultura, cultura não se carrega, cultura se cultiva se faz no dia a dia de um povo. Partindo desse princípio, percebemos que a cultura é uma herança acumulada ao longo dos anos, e que deve ser preservada. E, se Santa Maria, leva esse nome até hoje é porque tem muitos artistas. Porém, faltam incentivos para que possamos seguir trabalhando com dignidade.

Diário_ Praças, aldeias indígenas e tantos cantos do Brasil e da América Latina. O que fica de essencial a cada encontro do Rabito e seu diversificado público?

Daniel Lucas _Acho que fica o desejo de seguir adiante e melhorar sempre. Fica também a alegria de trabalhar com uma arte que é muito acessível. Em mais de dez anos como palhaço, pude ver na prática o quanto essa arte chega para qualquer pessoa e transforma pessoas e ambiente. Não importa o idioma, o gênero, a religião, a idade. Qualquer ser humano se identifica, se vê na figura do palhaço. Parece clichê dizer, mas é a mais pura verdade: assim como o palhaço, todos nós somos ridículos, vulneráveis ou inadequados em algum momento, em alguma circunstância da vida. Todos nós queremos ser aceitos e amados.

Foto: Pedro Krum (Diário)
Rabito em visita a uma comunidade quilombola em São Lourenço do Sul

Diário _Qual a linha que separa o homem Daniel do palhaço Rabito?

Daniel Lucas _Teoricamente, nenhuma. O palhaço é nossa versão amplificada/aumentada. Rabito revela traços da minha personalidade _ mesmo aqueles que eu tento amenizar. Diferente de um personagem, o palhaço de cada um é a sua essência. Mas, há uma coisa que nos separa: ao Rabito é permitido fazer coisas que eu, Daniel, não posso. Rabito pode brincar com as convenções sociais, bagunçar os padrões e rir disso, e não precisa se adequar a nada. Pelo contrário, quanto mais inadequado, mais risível. No cotidiano, muitas vezes preciso me adequar a situações adversas sem gozar da mesma liberdade do Rabito. Acho que, no fim das contas, somos uma ótima dupla. O palhaço me ensina a ter leveza diante das dificuldades, a viver no presente, a aceitar os fracassos e a rir deles _ e riso é cura.

Diário _ Atualmente tu moras em Itaara e administra a Pousada Vale do Riso. Tens projetos futuros?

Daniel Lucas _Pretendo continuar tocando os dois projetos que é o Teatro VagaMundo e a Pousada Vale do Riso, junto da Júlia Zulke, que também é minha companheira de cena. Os novos projetos estão em processos, mas não sei ao certo o tempo que levarão para serem concretizados, mas tento estar muito atento e presente para fluírem com muita naturalidade

Foto: Gabriel Haesbaert (Diário)
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