luisa neves

Crônica: O impostor que vive em mim

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Não abra mão da sua risada. Nem do choro, tampouco da alegria, nem mesmo da expectativa. O tempo do "engole esse choro", de "tapar a boca para esconder o sorriso e do medo e sentir já passou. É, passou e você nem viu. Não percebeu porque estava com os olhos fechados para não conhecerem as suas emoções. Vive a obedecer o impostor de estimação. Admita...

Basta de comer o que não gosta, de ir aonde tem aversão e de aceitar tanta imposição. Basta de ter medo de compartilhar o que de bom ocorre com você, porque, afinal, nem todos irão celebrar as suas alegrias. A vida é assim. Fazer o quê.

Mas não adianta negar. Faz tempo que você disfarça a alegria para que não o julguem, né? Fica com vergonha de ser feliz porque, afinal, tem gente sofrendo por aí. E você nem conhece ou tem culpa. Você nem sabia, mas não quer ser feliz mesmo assim. A autocomiseração é mais confortável e até atraente às vezes.

Deixou de comemorar o amor, a formatura, a conquista do carro porque o mundo é cruel em alguns momentos. Então, chegou a sua vez e não sabe celebrar. Ser feliz parece vergonhoso. Bom mesmo é sofrer para poder ser empático e, quem sabe, é melhor gerar piedade do que a inveja alheia.

Conquistou um objeto sonhado e queria tanto compartilhar, mas não pode. Vão dizer que é ostentação. Tem orgulho de o quanto cresceu, mas pode parecer esnobe. Então, vive a sustentar o impostor que vive aí dentro de você.

Quer cantar na chuva ou usar roupa do avesso em casa, quem sabe deixar a meia encardir porque tirou os calçados para dançar ou, então, comer brigadeiro de colher assistindo a um desenho animado? Mas o impostor diz que não e você o obedece.

Trazer o impostor para fora e apresentá-lo a você mesmo requer coragem. Você não gosta de arroz de leite (eu não gosto mesmo, eca), mas deixa o impostor comer uma colher atrás da outra para não desagradar os outros.

Quer rir de si mesma, mas o impostor diz para ter compostura. Insiste que, para ser importante, deve-se esconder emoções, fragilidades e medos. O impostor tem ensinado a você que, para ser admirado, é fundamental dizer "sim" para tudo e assumir todas as tarefas possíveis. Ser superatarefado e superútil é ser necessário. E isso enche o ego do impostor. O impostor mente. Por isso é impostor. Usurpador. E esperto. Muito esperto.

Não pense que sabe argumentar com o seu impostor. Terá que ser inteligente e criativo, afinal, foi você que o colocou aí dentro. Agora, vive a engolir sapos, além de outros répteis por aí. Você fica respondendo por dentro quando está com raiva. Tá, vai dizer que não? Fazer o quê. Sustentar um impostor é caro, ainda mais quando é de estimação. E ele se alimenta da sua postura de "eu suporto", "sou superior a isso", "aguento tudo".

O impostor até já lhe foi útil, lembra? Naquelas vezes em que tinha medo do escuro e fantasia para conseguir dormir. Ou quando tinha que tapar os ouvidos porque ouvia gritos e brigas do outro lado da porta. Quando, na escola, assumia uma personagem para dar conta das ausências de afeto e disfarçar o que lhe causava vergonha.

O impostor até ajudou em algum momento, mas ele não sorri. Afinal, ele não subsiste e isso deve ser triste. No lugar dele, eu não sorriria também. No entanto, trazer o impostor à tona e ter coragem para mandá-lo embora é libertador. Ficar frente à frente com ele é listar as situações em que fingiu, demonstrou e interpretou. É sorrir, mas sorrir mesmo. E se ainda não sabe, aprender a gargalhar.

Basta de o mundo colocar volume em você. Não abra mão da sua risada. Não abra mão nem da sua esquisitice. Não é simples, mas é libertador.


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