Reflexão

Comentário sobre cabelo de participante do BBB reacende a discussão sobre o racismo no Brasil

Brother Rodolffo comparou a peruca de 'homem das cavernas' ao black power de João


Foto: Reprodução/Divulgação Rede Globo

Rodrigo Ricordi ([email protected])

Nesta terça-feira à noite, a vigésima primeira edição do Big Brother Brasil, da Rede Globo,registrou um momento histórico para a televisão brasileira, trazendo à tona uma reflexão a respeito de racismo estrutural. Dentro (e fora) da casa, o assunto surgiu no último sábado, quando o cantor Rodolffo, ao vestir a fantasia do castigo do Monstro, que era de homem das cavernas, comparou a peruca desgrenhada e com pedaços de ossos e de sujeiras ao cabelo black power de João. No momento da fala, João ficou surpreso e não se motivou a revidar. Porém, logo depois, o brother chamou Camilla para a despensa e revelou a mágoa com o comentário de Rodolffo. O fato desencadeou uma enxurrada de publicações nas redes sociais sobre as questões culturais do povo negro e do simbolismo do black power para a afirmação e identidade negra.

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Tiago Leifert quebrou o protocolo do jogo e falou sobre a situação em um momento isolado, depois do fim da votação e antes do discurso de eliminação. Leifert falou sobre como a atitude do brother, mesmo que sem querer, reflete o preconceito vivido pelos negros por sua aparência.
"Ele ficou bastante magoado, e vendo o jogo, e a forma que você se defendeu, me preocupou e, por isso, estou aqui para conversar, de homem branco para homem branco", iniciou Tiago,se dirigindo diretamente a Rodolffo, que argumentou dizendo que seu pai também "tinha o cabelo assim" e jamais falaria algo que magoasse seu pai:

Tiago Leifert seguiu o discurso afirmando que "Um cabelo black power, como o do João é um símbolo de luta, resistência. Que há pouco tempo, nos anos 1970, os norte-americanos vestiram o black power para se sentirem pertencentes, porque até há alguns anos uma pessoa negra não podia ir num restaurante ou tinha que levantar do ônibus para dar lugar a uma pessoa branca. Durante muito tempo, não existia essa representatividade. E é por isso que, quando a gente faz um comentário do cabelo do João, você não está falando de um penteado, você está falando de um símbolo", explicou. A fala do apresentador foi tão impactante que as buscas pela expressão 'black power' e 'racismo' cresceram 500% no Google.

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Manifestações de ativistas negros

O relações públicas Sergio Marques, que tem um programa semanal no Instagram, que discute o papel do negro na sociedade, o Afirmações Negras, participou do Papo D BBB, live do Instagram do Diário, que ocorre todas as terças, às 22h, e apresentado pelo editor de Cultura do Diário, Cassiano Cavalheiro. Além das falas no programa, Sergio se manifestou no Facebook. 
- A gente está, até hoje, tentando corrigir um erro de antes. Os argumentos que ele usou para se desculpar era falando de onde ele nasceu, onde ele viveu. Mas o cara viaja o Brasil cantando e ainda não tem consciência de que tudo que ele fala repercute, ofende, desmoraliza e é racista e preconceituoso?, questionou no programa.

Em seu perfil pessoal, o relações públicas escreveu: "Cada um tem seu jeito de assumir sua coroa! Nossos BLACKS nos representam! Tem história, tem ancestralidade, tem muita africanidade! É uma aceitação diária, que passa pela desconstrução do padrão imposto! Em pleno 2021 com pessoas dotadas de privilégios e intelecto falando "besteirol" em rede nacional, não dá mais tempo de corrigir! Emicida em seu documentário Amarelo muito bem afirmou, "Exu matou um pássaro ontem, com uma pedra que só jogou hoje"

A jornalista Tatina Py Dutra também participou do bate-papo promovido pelo Diário. 
"Não tenho a fantasia de que vamos resolver o racismo tirando o Rodolffo do BBB. Só que ele está no horário nobre da TV, e aceitar que essas falas racistas, machistas e homofóbicas continue, é inadmissível.Numa época de tecnologia, de globalização, não faz sentido nenhum dizer que não tem informação por ser da roça. Se alguém compara meu cabelo com um bombril, e eu digo que é errado, mesmo que esse alguém não entenda, eu sou uma pessoa negra que está dizendo que isso é errado, que isso machuca. A primeira coisa que a pessoa precisa fazer, antes de entender, é reconhecer..."não vou fazer mais". Pare de fazer, peça desculpas e tente entender. Compreender isso é um processo, uma evolução. Mas tem que ter o primeiro passo. Quando o Rodolffo fala aquilo ao vivo, e sai naturalmente dele, e as pessoas concordam é porque durante muito tempo o cabelo negro foi comparado a um cabelo sujo, um cabelo duro, um cabelo ruim. E quando ele compara aquela peruca com o cabelo do João ele traz à tona, ainda que sem querer, o que é o racismo estrutural. Essa negação à beleza negra. Se tem mulheres, como eu, que não conseguem assumir o sabelo natural, é por causa disso. Então quando a gente diz "não faça isso" é porque é importante para muita gente".

A doutora em educação Maria Rita Py, mãe de Tatiana, também falou a respeito no Facebook.
"O brother João Luiz Pedrosa foi vítima de racismo, um racismo que estrutura a sociedade brasileira. Crianças e jovens negros sofrem opressões raciais cotidianamente, na forma de apelidos, exclusão de festas ou de grupos de trabalhos, piadas com a justificativa de que "foi brincadeirinha", é o racismo recreativo. O corpo negro causa estranhamento: o cabelo crespo, os lábios, o nariz, a cor da pele e desde os primeiros dias de escola, ainda muito pequenas, em virtude do cabelo, crianças são chamadas de "cabelo de BomBril", "cabelo ruim", "cabelo duro", "ninho de guacho", "nega/o do cabelo duro" , etc. Esses apelidos, recebidos desde os primeiros anos na escola, passam a fazer parte do cotidiano dos alunos negros, e o cabelo passa a ser uma marca negativa, um estigma a ser carregado. O João sofreu desde os 4-5 aninhos violência racial, é uma dor, uma ferida aberta que custa a cicatrizar. Por isso ao ouvir a comparação que Rodolpho fez do seu cabelo, com o cabelo do homem da caverna, ficou tão chocado, que não conseguiu reagir na hora. Precisou conversar com a Camila, precisou pensar. Ainda bem, que no Jogo da Discórdia conseguiu falar! Nosso cabelo negro, assim como outros sinais fenotípicos: formato da boca, nariz, cor da pele são usados como critério para discriminar pretos e pardos. Mesmo chorando, João conseguiu verbalizar o sentimento de dor que carregava. Espero que Rodolffo entenda que foi racista, que as características raciais são próprias de cada raça, e que devem ser respeitadas. Quem inventou o racismo não foram os negros."

Anderson França, professor, ativista dos direitos humanos, consultor político e escritor se manifestou de forma bastante forte sobre o caso. França chamou a atenção para o racismo estrutural e a importância do povo negro para a história do Brasil. "15 milhões de pessoas arrancadas de seus lares e trazidas por 400 anos para um continente onde não tinham recursos, nomes, memórias, passado, presente ou futuro. Esse povo, ESSE, é ridicularizado. Filho de alemão, italiano, belga, russo, francês, não. Descendentes de africanos, sim. Não é, e nunca foi, sobre o João", escreveu.

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No longo texto, Anderson ainda fala sobre como países africanos reclamam do mesmo racismo que os negros enfrentam no Brasil. Citou o YouTuber norte-americano Goony Googles que ficou impressionado com o rap brasileiro, e com "Negro Drama", dos Racionais MCs.
- Porque isso mostra que " todos os países africanos", ele disse, TODOS OS PAÍSES AFRICANOS, falam sobre as mesmas dores. Ele sabe que o Brasil fica na América do Sul. Ele disse que, não importa onde esteja, é a Diáspora Africana, o Brasil é um país africano, o Brasil precisa entender que não há chances dele ser aceito entre os brancos, desiste. O Brasil é africano, construído por africanos, narrado por africanos, pensado por africanos, cantado e escrito por africanos,

Em outra parte de seu texto, Anderson França chama atenção para a ignorância sobre a formação da identidade brasileira a partir da cultura negra africana.
- Nenhum descendente de alemão, italiano, inglês ou austríaco contribuiu tanto para a identidade brasileira como os descendentes de africanos o fazem. Se muito, os descendentes desses grupos apenas repetem a cultura da terra de origem, não conseguem se desligar de lá. O Brasil é, de fato e de direito, africano. O chão que você pisa, o dinheiro que você usa, a sociedade que você integra, tudo, construído por africanos - afirmou o ativista.




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