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BBB 21 pautou discussões sobre preconceito, cancelamento e saúde mental

Revista MIX repercutiu temas com especialistas santa-marienses, que expressaram opiniões e falaram a respeito da relevância do programa como vitrine da sociedade brasileira atual

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Foto: Fabiano Marques (Diário)

Comparar a peruca de homem das cavernas a um cabelo black power é ou não é racismo? Excluir alguém do convívio social ou digital por diferença de opinião é correto? Militar é fazer "mimimi"? O que é transfobia ou bifobia? Essas foram algumas das questões debatidas no Brasil, nos últimos meses, a partir de situações vividas por participantes do Big Brother 21, que chega ao fim nesta terça.

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Depois de quase 100 dias de programa, apenas quatro dos 20 participantes seguem na disputa pelo prêmio de R$ 1,5 milhão. A advogada e maquiadora Juliette Freire, 31 anos, e o economista Gilberto Nogueira, 29 anos, ambos do grupo Pipoca que, até entrarem na casa, não eram famosos. E do grupo Camarote, o cantor e ator Fiuk, 30 anos, e a produtora de conteúdo digital Camilla de Lucas, 26 anos.

Desde a estreia, em 2002, o reality acompanhou as transformações da sociedade e, principalmente, o "boom" das redes sociais. O programa chegou a ficar esquecidinho em algumas edições, mas com o confinamento da vida real, em função da pandemia, desde o ano passado, o BBB voltou a atingir bons índices de audiência e, principalmente, a pautar assuntos dentro e fora do programa.

A Revista MIX elencou alguns temas que vieram à tona nesta edição e repercutiu com especialistas santa-marienses, que expressaram opiniões e falaram a respeito da relevância do programa como vitrine da sociedade brasileira atual.

Fotos: Rede Globo (reprodução)

O CANCELAMENTO DENTRO E FORA DO BBB
Desde o começo da edição, a palavra cancelamento fez parte do dia a dia dos participantes. "Será que estou cancelado (a)?". Não por acaso, já que um dos maiores temores de figuras públicas e dos assíduos das redes sociais é fazer parte da cultura do cancelamento, quando se é excluído ou deixado à margem da sociedade.

Esse comportamento, entretanto, não é novo, mas sim foi ampliado por conta da internet, de acordo a professora do Departamento de Ciência Política e do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Jennifer Azambuja de Morais:

- O ser humano já fazia isso antes, mas isso ficava restrito a quem ele convivia pessoalmente. Na internet, as pessoas têm a sensação de capacitação, ou seja, falam e são ouvidas, têm o anonimato, criam e excluem perfis, e, ainda, a questão da impunidade, pois no Brasil a lei da internet ainda está em desenvolvimento e raramente algum caso é punido. Esses três fatores facilitam que as redes sociais sejam vistas como um palco, onde se pode falar o que bem entender - explica Jennifer.

No reality, isso foi uma das primeiras polêmicas - um cancelamento dentro e fora da casa. O episódio começou quando o ator Lucas Penteado, 24 anos, se desentendeu com alguns participantes, entre eles, a cantora Karol Conká, 34. Ele foi pressionado psicologicamente e excluído do convívio com os demais. Se por um lado o sofrimento do brother acendeu um debate sobre saúde mental, por outro, as atitudes vistas como cruéis de Karol não foram perdoadas pelos espectadores. Prova disso foi a eliminação da artista com 99,17% dos votos - o maior índice de rejeição de todas as edições.

- É muito complicado, porque estamos falando de pessoas vivendo as suas vidas. Essa edição trouxe isso com força porque ela também é uma edição de pandemia. Então, precisamos pensar qual era a condição, qual era o estado de saúde mental dessas pessoas selecionadas e qual acompanhamento se teve disso. Me parece que teve uma condução para que isso fosse revertido em entretenimento, mas o sofrimento não é um espetáculo. Tem coisas que não podem ser aceitas nem se tornarem um show - comenta a psicóloga e mestranda no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Nathalia Schramm Silva.

BISSEXUALIDADE QUESTIONADA
Quando Carla Diaz e Arthur, Fiuk e Thaís, e até Karol Conká e Acrebiano (que estava visivelmente incomodado) trocaram beijos, os colegas de confinamento os aplaudiram e festejaram. O mesmo clima de celebração não ocorreu quando Lucas, que se declarou bissexual, e Gilberto, que é gay, protagonizaram o primeiro beijo entre homens (e provavelmente o mais tórrido da edição). Ao invés disso, questionamentos. Alguns participantes criticaram e acusaram Lucas de estar performando e se aproveitando da pauta LGBTQIA+.

A pressão foi tanta que o jovem optou por abandonar o programa. Após a saída, em entrevistas, Lucas declarou que sentiu dentro do programa a mesma invalidação que sente fora. A psicóloga Nathalia, que estuda a bissexualidade no mestrado, afirma que a invisibilidade e o apagamento de questões sobre o tema ainda são fortes inclusive no mundo acadêmico, onde poucas pesquisas são encontradas.

- A gente viu a bifobia sendo reproduzida com o Lucas. Ele teve a sexualidade questionada e ouviu pessoas falando que ele estava confuso. A própria história que ele narra, de ter dificuldade de conseguir validar para si mesmo, carrega um pouco do que as pessoas bissexuais enfrentam, porque somos criadas dentro de uma lógica monossexual - aponta a psicóloga.

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Isso também pode impactar diretamente na saúde mental, o que pode explicar a desistência do participante:

- Cabe a nós pensarmos o quanto essa invisibilização, essa negação, contribui para esse adoecimento. É enlouquecedor você estar dizendo que é bissexual e as outras pessoas dizendo que não, questionando o tempo todo - completa a psicóloga.

TRANSFOBIA
Uma ação de marketing de uma marca de maquiagem desencadeou uma série de debates sobre transfobia - preconceito contra pessoas transgênero. No episódio, as mulheres maquiaram os homens e, na sequência, eles desfilaram de forma caricata com sombras e batons.

Entretanto, a participante Lumena criticou a atitude, justificando que lembrou de muitas amigas trans que usam a maquiagem como forma de serem reconhecidas e sofrem preconceito por isso.

Nas redes, os espectadores ficaram divididos entre achar a fala da participante exagerada e em concordar que a atitude foi, sim, transfóbica.

Para a assessora parlamentar e mulher trans Luiza Barros, o problema não foi o uso da maquiagem, mas, sim, a forma com que os participantes agiram:

- Maquiagem não tem gênero e usa quem quer, é um produto. O problema é ter que forçar um personagem afeminado como se isso fosse motivo de riso. Não, não é. Quando um homem se veste de mulher ele não interpreta uma mulher quando ele se veste com roupas femininas, ele interpreta como se ali fosse uma travesti, e o tempo todo ele coloca a questão afeminadas, caricatura de gays e de travestis. Quando a gente faz isso a gente está diminuindo e deslegitimando as identidade de gêneros - opina Luiza.

Em todas as edições, o programa teve apenas um participante trans, Ariadna Arantes, em 2011. Ela ficou uma semana na casa e foi eliminada. Nesta semana, Ariadna foi confirmada como participante do No Limite, que estreia em maio com ex-bbbs.

MILITÂNCIA ERRADA?
O comportamento de Lumena, que atua na luta antirracista na "vida real", foi questionada diversas vezes por serem autoritárias. A expressão "Lumena autorizou?" chegou a virar sinônimo para designar pessoas que exageram na problematização. Entretanto, a "brincadeira" na internet acabou por banalizar a militância.

A psicóloga e presidente do coletivo Ecoa, uma organização de juventude ecossocialista, feminista, antirracista e antiLGBTfóbica, Alice Carvalho, analisa que Lumena trouxe temas importantes, mas em alguns momentos do programa, ela se perdeu:

- Isso fez com que ela ficasse com a imagem negativa, mas não podemos crucificá-la. Acredito que as atitudes tenham muito a ver com toda a cobrança que nós temos de ser o porta-voz do movimento, a imagem de que sempre temos que problematizar tudo, exercer a militância 24 horas por dia e ser sempre sério. Mas nós somos pessoas, de carne e osso. Debater o racismo e outros preconceitos é também uma tarefa de toda a sociedade - comenta Alice.

Para ela, essa redução de um movimento é reflexo da própria sociedade que não sofre opressões e enxerga essa luta como sendo sem valor e sem importância, mas a militância tem um caráter pedagógico:

- As pessoas precisam pensar e se solidarizar com grupos vulneráveis, ter empatia. A militância tem um papel pedagógico de ensinar, mas também é preciso que todos se interessem e saiam dessa bolha branca. Nós não somos uma "wikipreta", uma wikipédia de conhecimento preto, e muitas pessoas que cometem preconceitos tem, sim, acesso à informação, mas não buscam - completa a Alice.

Mesmo o ambiente digital sendo, por vezes, hostil, a professora Jeniffer, que também realiza pesquisas sobre redes sociais com jovens entre 15 a 24 anos, acredita que a internet é um meio necessário para desconstruções:

- Os jovens que utilizam mais internet, que recebem uma educação midiática, são menos intolerantes à opinião do outro, são mais democráticos, confiam nas pessoas e se envolvem mais. Se essa pesquisa está nos dizendo isso, eu compreendo que a internet é mais boa do que ruim. O problema dela ser ruim é a falta de educação de qualidade - completa a professora.

NÃO É SÓ FOGO NO PARQUINHO
As segundas-feiras do programa são marcadas pelo Jogo da Discórdia, em que os confinados discutem e compartilham angústias pessoais e estratégias, geralmente com muito "fogo no parquinho", expressão que o apresentador adora usar para se referir às discussões calorosas que acontecem. Em um dos jogos, o brother João Luiz denunciou a comparação feita pelo cantor Rodolffo, de que seu cabelo black power - considerado uma coroa e símbolo da identidade e poder da negritude - ser semelhante a uma peruca desgrenhada de um homem das cavernas, usada pelo sertanejo durante um castigo de "monstro".

- O episódio reflete o que milhões de Joãos sofrem cotidianamente aqui fora. Foi muito importante a repercussão que esse triste episódio de racismo teve fora da casa, motivado principalmente pela militância preta ativa e cada vez mais combativa nas redes sociais, que pressionou a produção do programa e a emissora. O BBB é um fenômeno de audiência dentro de uma poderosa emissora e "passar pano" para esse caso seria seguir a manutenção do racismo e mais grave ainda, como entretenimento em rede nacional - comenta o ativista social e estudante de Ciências Sociais na UFSM Gustavo Rocha, que, há anos, aderiu ao penteado black power.

Depois da repercussão na internet, Tiago Leifert fez um pronunciamento ao vivo no programa sobre o racismo e o black power, e a participante Camilla de Lucas desabafou: "Escuto esses termos, essas comparações, desde 1994, desde quando eu nasci. Então, hoje, eu não aguento mais. Se é cansativo pra vocês ouvirem, pra mim é cansativo viver! Não quero mais. Pesquisem na internet. Estou cansada de ficar ensinando. Estou esgotada. Vou continuar falando porque é necessário, mas estou cansada de ficar ensinando toda vez".

Para Rocha, minimizar isso a uma "brincadeirinha sem intenção" é seguir reproduzindo ideologias que permeiam o imaginário social e coletivo:

- Estamos cansados de sofrer com o racismo cotidiano e ainda ensinar pessoas brancas a não serem racistas para elas inflarem seus egos considerando-se antirracistas. As pessoas brancas precisam sair dessa posição de constrangidas, ofendidas e que seguem simplificando o racismo a uma questão pessoal.

Não adianta fugir da pauta e ainda seguir fingindo não ver, que o privilégio branco é uma realidade nessa sociedade - acrescenta Rocha.

A GRANDE FINAL
Ao longo dos últimos meses, o Diário promoveu uma série de lives no Instagram, todas as terças-feiras, às 22h, antes de cada paredão. O editor de Cultura Cassiano Cavalheiro recebeu, semanalmente, os comentaristas oficiais de BBB 21, as jornalistas Camila Cunha e Letícia Fontoura, e o ator e diretor Julio Cesar Aranda, administrador do perfil FanDom+, acompanharam o BBB 21 diariamente e participaram, semanalmente, dos encontros virtuais no perfil do Diário. Agora, analisando a trajetória de todos, eles vão elaborar suas possíveis finais para a atração, na próxima terça.

"Creio que a final deve ser um duelo emocionante entre os fãs de Juliette e Gilberto. Os dois foram protagonistas dessa edição e, apesar de não terem andado lado a lado o tempo todo, foram amigos e, agora, estão bem unidos. Cada um teria seus méritos. Juliette com 22 milhões de seguidores é franca favorita nas redes sociais. Mas como diz o apresentador, hashtag e textão não decidem paredão, acredito que Gilberto, que errou, acertou, caiu, levantou, julgou e foi julgado, mas sempre garantiu entretenimento com cenas e situações hilárias tem muita chance de ganhar. Eu acredito que Gilberto será o vencedor por isso... Ele representa a inconstância do ser humano."
Cassiano Cavalheiro, Editor de Cultura do Diário

"Pela primeira vez em 21 edições (assisti todas), gostaria que houvesse um empate entre Gil e Juliette. Ambos foram os protagonistas do programa, o que para mim é essencial para vencer esse reality. Gil nos levou o mais puro entretenimento, nos fez rir, e até nos identificarmos com as escolhas erradas, o arrependimento, tudo que cometemos. Além de uma história de vida inspiradora. Do outro lado, Juliette. Ela é o maior fenômeno midiático dos últimos tempos. É impressionante como a popularidade dela ganhou proporções maiores que o programa. É inteligente e dona de um humor peculiar. Amei assisti-la. Não concordo com o exagerado fanatismo da torcida dela, mas enxergo todos os méritos da jogadora. Preciso escolher né, Tiago? (risos). Vou de Juliette pela sua magnitude perante a todo jogo e público."
Camila Cunha, Colunista MIX

"Afinal, do que se trata o BBB? Ser um bom jogador e evitar conflitos dentro da casa para desviar do paredão? Ou quem sabe ser popular aqui fora e ter milhões de seguidores nas redes sociais? Esta edição veio para provar que a fórmula "ser verdadeiro, ter imperfeições e estar na boca do povo" ainda funciona. Gil foi protagonista das cenas mais felizes até às maiores tretas do reality. Juliette, por sua vez, apenas quando irritava a casa inteira a ponto de fazer com que todos os grupos quisessem eliminá-la. A má sorte dos adversários foi o carisma da paraibana e, claro, a indignação do público ao sentir que ela estava sofrendo com o ranço dos brothers. A receita para ganhar a bolada não é segredo para ninguém, mas nem todos têm os mesmos ingredientes de Juliette e Gil. Dentre as opções, Gil deve ser o vencedor, porque foi mais decisivo no jogo."
Letícia Fontoura, Jornalista

"O Big dos Bigs veio nos questionar o que é entretenimento com atitudes como e falas polêmicas que envolveram assédio moral, racismo, homofobia, machismo e xenofobia. Os diferentes vilões da temporada foram tombando um por um. Desde Mamacita até Viih Tube. Mas o que ficou evidente foram os protagonistas. Juliette passou de menina chata e rejeitada à favorita. Ao lado dela, aquele que, talvez, seja o grande protagonista da edição Gil do Vigor. Poucos participantes da história do reality conseguiram se reinventar tanto quanto ele. Os dois nos mostraram o que é ser protagonista. Acredito na vitória de Juliette, mas tudo é possível. Acho que a competição será acirrada."
Julio Cesar Aranda, Ator e diretor

GLOSSÁRIO BBB

  • Passar pano - a gíria significa se omitir, acobertar ou defender uma pessoa que cometeu ou comete erros.
  • Cancelar/ser cancelado - quem comete algum erro ou até mesmo expressa opiniões diferente das aceitas pelo seu público pode ser boicotado da internet
  • Mimimi - é usada para remeter ao choro, para tentar diminuir a manifestação de alguém, tornando aquilo "frescura" e "reclamação sem sentido"
  • Militância - militar é defender uma causa, a busca da transformação da sociedade através da ação, como a militância política, social ou estudantil, por exemplo
  • Bissexual - é a orientação sexual que se refere à atração a mais de um gênero
  • Bifobia - preconceito ou descriminação contra bissexuais
  • Transexual - é quem se identifica com um gênero diferente daquele que lhe foi atribuído em consonância com seu sexo ao nascer
  • Transfobia - preconceito ou descriminação contra transexuais
  • Empatia - é a capacidade de se identificar com o sentimento de outras pessoas, ou seja, se colocar no lugar do outro
  • Privilégios - é um conjunto de benefícios não merecidos, dados às pessoas que se encaixam em certo grupo social


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