reportagem especial

Profissionais de áreas distintas defendem: Santa Maria precisa de mais áreas verdes

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Foto: Foto: Renan Mattos (Diário)

Foto: Renan Mattos (Diário)

Você já parou para se perguntar porque é tão importante uma cidade ser devidamente arborizada? E, além disso, como é possível saber onde é preciso melhorar? Em quais locais deve-se plantar mais árvores? Quais espécies utilizar? Essas respostas precisam estar em um plano de arborização. Você sabia que além de um plano de deixar a cidade mais verde, a arborização pode ter relação com a saúde mental? 

Por conta desse processo, foi criado em Santa Maria, em 2007, um Plano Municipal de Arborização. No entanto, o documento nunca foi instituído legalmente. A arborização da cidade, inclusive, é uma questão acompanhada pelo Ministério Público. O assunto é tema da reportagem especial do Diário. 

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NO PÓS-PANDEMIA
Uma pesquisa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) mostrou que os problemas de saúde mental aumentaram de forma preocupante na pandemia e o consequente isolamento social. O estudo, feito por meio de um questionário online, entre março e abril, contou com cerca de 1,4 mil respostas de pessoas de 23 Estados brasileiros e apontou que os casos de depressão quase dobraram e os de ansiedade e estresse tiveram crescimento de 80%.

Com o novo cenário, na visão da engenheira florestal Flávia Brum, após o período de reclusão em função da Covid-19, a população estará sedenta por mais parques arborizados e áreas de lazer em meio à natureza. Este é mais um motivo para o poder público se preocupar com a quantidade e distribuição de árvores em Santa Maria.

Segundo a psicóloga Giselma Melo, a natureza colabora com o bem estar emocional e desempenho social e profissional. Conforme ela, o "verde" contribui para a sensação de liberdade, além de melhorar o humor e a memória das pessoas. Junto a isso, a paisagem natural encoraja a curiosidade e estimula a imaginação das crianças.

- Estamos sempre em meio ao barulho. À nossa volta, convive-se com os ruídos do trânsito, estresse urbano, e muitos outros fatos brigando pela nossa atenção. Para amenizar tudo isso, uma olhadinha na natureza já ajuda - diz.

Para Giselma, no pós-pandemia, esse contato com o meio ambiente será ainda mais necessário:

- O Farrezão, por exemplo, poderia ser mais cuidado. Mesmo com atuais condições, as pessoas fazem caminhadas lá. Precisamos de mais parques. Se investíssemos nisso, com certeza, teríamos uma diminuição de doenças relacionadas à saúde mental.

O DIÁRIO OUVIU 10 PESSOAS PARA SABER O QUE PENSAM SOBRE A ARBORIZAÇÃO DE SANTA MARIA. ELAS FORAM UNÂNIMES EM DIZER QUE O MUNICÍPIO PRECISA DE MAIS ÁRVORES. VEJA A OPINIÃO DE CADA UMA DELAS.

"A cidade tem que ter mais árvores porque a população é muito prejudicada pela poluição. A cidade tem muitos carros. Mais árvores significa maior bem- estar" - Jerry Menezes da Silva, representante comercial

"Falta bastante. O verde traz mais qualidade de vida e de espírito. A cidade fica mais bonita. Eu sinto muita falta, principalmente no Centro"
Joseana Pedrozo de Vargas, vendedora

"Moro perto do cerro, onde tem muitas árvores. Então, sinto falta quando venho para "a cidade", até o oxigênio melhora com as plantas"
Silvana Rodrigues, doméstica

"Com mais árvores, a cidade vai ter mais sombra, a estética melhora. Há alguns anos tinha bem mais árvores em Santa Maria"
Chaiane Camargo, auxiliar-veterinária 

"Eu li que as árvores auxiliam na redução da temperatura e da sensação térmica, além de deixar a cidade mais bonita"
Felipe Moreira, vendedor 

"Santa Maria é muito desarborizada. Não tem parques para a população ir aos fins de semana. O mais próximo disso é o campus da UFSM. As pracinhas estão sucateadas. Árvores geram qualidade de vida"
Bruno Fernandes, industriário

"Santa Maria precisa de mais áreas de lazer e mais árvores para melhorar a qualidade do nosso oxigênio"
Edson de Souza, autônomo 

"Em alguns locais até têm bastante árvores. Porém, no Centro, é difícil. O Calçadão não tem uma árvore, por exemplo. Deveriam ser elencados locais estratégicos para serem plantadas novas mudas"
Arlindo Martins, consultor de moda

"As árvores melhoram o ar, a paisagem. As crianças precisam de áreas verdes para brincar. O Parque Itaimbé está abandonado, só se vê árvores caídas"
Cristiane Dutra, atendente 

"Vemos mais árvores no interior, nos bairros. Se cada bairro se juntar para criar áreas verdes, por conta própria, a situação iria melhorar. Árvores são benéficas não só para as pessoas, mas para os animais também" 
Graziele Kohler, empresária

FIOS E CALÇADAS IMPEDEM O DESENVOLVIMENTO DE ÁRVORES

Para o professor Diego Machado, coordenador do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), é fundamental saber qual é o potencial arbóreo do município para, então, estabelecer diretrizes para o tema. Saber quais são as avenidas mais largas e a estrutura de fios e canos por debaixo das calçadas, por exemplo, é uma informação essencial para estabelecer qual a espécie de árvore escolhida para determinado local. Portanto, os estudos são complexos e multidisciplinares.

- Temos que identificar qual é a largura das vias e a profundidade do solo. Não adianta fazer um buraco e querer plantar qualquer árvore ali. É preciso espaço para crescimento - exemplifica o docente, que faz parte do grupo que começou a elaborar o novo plano.

Com formação técnica em paisagismo, o professor defende que as avenidas Rio Branco, Nossa Senhora Medianeira, Fernando Ferrari e Borges de Medeiros são locais que precisam receber maior atenção na remodelação da paisagem de Santa Maria. 


Calçadas e fiação: como adaptá-los à arborização?

De acordo com Machado, a fiação elétrica é uma complicadora da arborização urbana. Por conta da rede de postes, árvores são podadas ou cortadas completamente. A matemática verde não é tão fácil como parece. Árvores nas calçadas precisam ser altas o bastante para as pessoas poderem passar embaixo das copas e, também, não podem prejudicar a rede elétrica 

O que diz a RGE:

  • A RGE somente executa podas preventivas de livramento dos ramos/galhos da arborização urbana quando há crescimento demasiado de espécies de médio e grande porte e, forem essas, incompatíveis ao convívio harmônico com as redes elétricas, implicando em situações de interferência direta ou potencial. Este processo tem o objetivo de minimizar os riscos iminentes à integridade do sistema elétrico e/ou a interrupção do fornecimento de energia elétrica e segurança da população que, a vegetação em contato com as redes, possa causar
  • As podas seguem critérios técnicos da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) NBR 16246-1, as quais devem ser compatibilizadas com as diretrizes da ABNT NBR 15688:2012
  • As normas destacam os espaçamentos mínimos entre rede e vegetal, conforme aspecto técnico-operativo da rede e de segurança. Essa execução sempre visa os menores impactos visual e ambiental possíveis
  • As equipes são devidamente treinadas e capacitadas e o material utilizado é adequado para a atividade
  • As podas contam com licenças ambientais dos órgãos competentes, onde as compensações, compreendidas em projetos ambientais com a Secretaria Estadual de Meio Ambiente são realizadas junto ao órgão emissor das referidas licenças
  • A RGE vem investindo em tecnologias que diminuem a necessidade de podas mais abrangentes e proporcionam maior segurança à população. Contudo, isoladamente, tais tecnologias não eliminam a necessidade de podas periódicas para garantir segurança e continuidade no fornecimento de energia elétrica

Segundo engenheira florestal Flávia Brun, o processo de urbanização modificou a paisagem cidade. Ela conta que, no início dos anos 2000, o Bairro Camobi, na Zona Leste da cidade, tinha muitas árvores. Entretanto, com o aumento do número de conjuntos residenciais e prédios, várias delas foram retiradas e o replantio não ocorreu no mesmo ritmo. A falta de padrão das calçadas é determinante para o sumiço das plantas.

- Em termos gerais, para uma árvore crescer bem, precisa de um metro quadrado de espaço pelo menos. Em alguns locais, é inviável. Na Vila Belga, por exemplo, não existe essa possibilidade. É necessário pensar alternativas. Até mesmo, para estar de acordo com a acessibilidade, o ideal é as calçadas terem três metros de largura. Em áreas de ocupação irregular, esse controle foi totalmente perdido - comenta Flávia. 

Foto: Renan Mattos (Diário)
No canteiro central da Avenida Medianeira, árvores embelezam o ambiente sem riscos de contato com a fiação. Já nas calçadas, as plantas ficam muito perto das redes

Um futuro com menos calor, estresse e barulho?

Formada pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e com doutorado na área de sequestro de carbono por árvores em áreas urbanas, Flávia acredita que a aplicação efetiva de um plano sobre o assunto fará com que a cidade tenha uma nova vida. Colocar mais verde em meio à selva de pedras do século 21 traz inúmeros benefícios. A atenuação no calor é um deles.

- Mais árvores diminuem o fenômeno das chamadas "ilhas de calor", que, geralmente, ocorrem em regiões de morros. O Bairro Nossa Senhora das Dores é muito quente no verão, porque tem poucas árvores. O centro de Santa Maria mudou muito. No passado, a Rua do Acampamento possuía árvores de grande porte. Agora, não tem mais nada - diz a docente da Universidade Tecnológica Federal do Paraná.

O professor Diego Machado lembra que até mesmo a barulheira cotidiana dos carros, caminhões e obras pode ser amenizada por uma arborização eficiente. Inundações em vias públicas também poderiam ser evitadas com essa conscientização.

- Árvores proporcionam mais sombra para a população. Elas melhoram a acústica da cidade, é como se o som fosse atenuado. Algumas também melhoram a drenagem urbana, basta ter espaço para crescerem. Tudo é uma questão de conhecer o local onde você quer alterar - pondera Machado.

*Colaborou Rafael Favero


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