reportagem especial

Pior seca em 10 anos: campo sofre com a falta d'água e amarga prejuízos na Região Central

Pâmela Rubin Matge e Janaína Wille
Foto: Foto: Eduardo Ramos (Especial)


Foto: Eduardo Ramos (Especial)

A paisagem da Região Central, sobretudo no aspecto da vegetação, está diferente. Se no campo, as lavouras perderam a cor e as safras agonizam, na área urbana, setores da economia já se preparam para prejuízos. A disponibilidade e o acesso à agua potável também preocupa, e rios estão a cada dia com nível abaixo do normal. Uma estiagem que começou ainda em outubro é encarada por especialistas como uma das mais intensas dos últimos dez anos. No final da manhã de sexta-feira, Santa Maria passou a ser a 12ª cidade da região a decretar situação de emergência.

A Emater acompanha os impactos da estiagem e é responsável pela emissão de laudos e contabilização das perdas na agricultura. Somente no Coração do Rio Grande, (leia mais na página 30) os prejuízos chegam na cifra de R$ 44,5 milhões e, certamente, aumentarão significativamente nos próximos meses com o avanço da safra da soja, principal cultura produzida no município.

- São perdas irreversíveis. Ou seja, mesmo que chova, essas perdas já são definitivas e com potenciais aumentos. Tivemos atraso no plantio da soja e houve casos de lavouras que não puderam ser plantadas, contabilizando prejuízo de 100% - explica o engenheiro agrônomo Guilherme Passamani, gerente regional da Emater.

Além da soja, houve quebra nas safras de milho e arroz. A pecuária amarga danos e tem pouca perspectiva de melhora. Tanto a bovinocultura de corte (para venda de carne) quanto de criação leiteira sofrem com falta de pastagens e demais alimentos, além de pouca água disponível para consumo. Isso já reflete no peso do gado, que tem permanecido estável, e começa a impactar na dificuldade de reprodução dos rebanhos.

A Emater ainda contabiliza os dados das 35 cidades que compõe a regional e não concluíram o envio de documentações. Em municípios como Tupanciretã e Júlio de Castilhos - o 1º do Estado a homologar o decreto -, uma das preocupações é em levar água a comunidades do Interior, além de garantir recursos para manter o agronegócio de pequenos e grandes produtores. Em Pinhal Grande, até a população da área urbana tem sido afetada. Por lá, a estiagem implica em racionamento diário de água. Na última semana, a reportagem do Diário visitou propriedades, conversou com prefeitos e especialistas que deram um panorama do quanto a falta de chuva tem afetado a rotina e preocupa cada vez mais.

CIDADES EM SITUAÇÃO DE EMERGÊNCIA NA REGIÃO

  • Agudo (decreto já homologado pelo Estado)
  • Cacequi
  • Cruz Alta
  • Itacurubi
  • Júlio de Castilhos (decreto já homologado pelo Estado e reconhecido pela União)
  • Nova Esperança do Sul
  • Quevedos
  • Pinhal Grande
  • Santa Maria
  • São Martinho da Serra 
  • São Pedro do Sul
  • Tupanciretã (decreto já homologado pelo Estado e reconhecido pela União)


Foto: Eduardo Ramos (Especial)
Era do poço de cerca de 6 metros de profundidade que Júlio tirava água para beber, tratrar os animais e irrigar à terra. Desde outubro, o reservátório secou completamente

Em três meses, poços e nascentes secaram

É na comunidade de Cerrito, interior de Júlio de Castilhos, que o agricultor Júlio Pereira de Souza, 64 anos, vive e tira da terra e da criação de animais o próprio sustento. Pequenas áreas de plantio de milho, mandioca e além "meia dúzia de ovelhas" e vacas garantem a sobrevivência dele, da esposa e do filho. Ocorre, que a água extraída de um poço, a qual matava a sede da família, de animais e irrigava a terra há 20 anos, simplesmente desapareceu.

Volume de chuvas*

  • 2019 - 35% a menos que o ano anterior
  • 2020 - 45% a menos que o ano anterior
  • 2021 - 56% a menos que o ano anterior

*Conforme a Secretaria de Agricultura de Júlio de Castilhos


Foto: Eduardo Ramos (Especial)

CHUVA ESCASSA

O principal motivo foi a falta de chuvas. Grandes lavouras muito próximas à propriedade de Júlio também culminaram no problema. Há dois anos, o acesso à água vinha diminuindo, mas, desde outubro, a água que chega à casa do agricultor teve de ser viabilizada pela prefeitura que distribuía cerca de 5 mil litros por semana. Há poucos dias, uma ligação à rede de água de um vizinho foi a solução.

- Esse transporte de água que temos é o que nos salvou. Usamos pra tudo: para beber, tomar banho, lavar a louça e para os bichos. O poço tem uns metros. Às vezes, baixava o nível da água, mas nunca tinha visto secar desse jeito. Pelo menos agora temos essa ligação do vizinho, mas o pouco que a gente plantou, não vai colher nada - lamenta Souza. 

Júlio de Castilhos foi 1º município a decretar emergência, e comunidade, diz ser a pior seca da década

Antigos moradores da cidade, especialistas da área ambiental e os próprios governantes afirmam que há pelo menos uma década, Júlio de Castilhos não sofria tanto com a seca. Não foi à toa que o município foi o primeiro do Estado a decretar situação de emergência ainda no dia 6 de dezembro.

- O decreto surgiu após uma reunião do Conselho Agropecuário com a Emater, a Secretaria de Agricultura e representantes das cooperativas e sindicatos. A partir do levantamento, chegamos a um percentual significativo de perdas. No período que fizemos o decreto, não tínhamos resultados em relação à soja, já estávamos com um prejuízo de R$ 15 milhões. Fora isso, nosso maior agravante era o dano humano, que é o principal fator que justifica decreto de emergência. Na ocasião, eram 18 famílias necessitando de água potável para consumo, visto que não tinham mais nada nos poços artesianos - conta a secretária de Agricultura, Ana Paula Alfredo Lima Ferreira

Um mês depois, a cidade tem 100 famílias sem acesso água potável e as perdas, agora relacionadas à soja, milho sequeiro, milho silagem e produção de leite já passam R$ 200 milhões. Conforme a secretária e o prefeito em exercício, Carlos Alberto Pedroso Rezende, a estiagem que assolou a região em 2021 não é pontual. Desde 2019, o volume de chuvas tem diminuído.

Outro problema, segundo a secretária, que tem doutorado em agronegócio pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), são as altas temperaturas. A pouca precipitação que tínhamos não era absorvida pelo solo, a temperatura acelerava processo de evaporação:

- Costumo dar exemplo de uma aula simples de ciências: para ter chuva é preciso ter umidade no solo, para que suba e faça o processo da chuva. Além disso, nossos rios viraram sangas. Estão com volume muito abaixo do normal.

Prejuízos

  • Leite - 45%/ R$ 14,9 mi
  • Milho grão - 38%/ R$ 7,7 mi
  • Milho silagem - 42%/ R$ 577 mil
  • Soja sequeiro - 20% / R$ 202 mi
  • Total: R$ 225 milhões

Rios da cidade abaixo do nível normal

  • Toropi - 55%
  • Soturno - 60%
  • Mello - 65%

Queda de 50% na cidade com maior produção de soja do Sul

Ao trafegar pelas margens da BR-158 o cenário denuncia o que a seca tem causado: lavouras de milho praticamente perdidas e as plantas de soja bem diferentes de que anos anteriores. O prefeito de Tupanciretã, Gustavo Terra, já estima um prejuízo que ultrapassa R$ 150 milhões em janeiro e que tende a piorar, já que as previsões meteorológicas não são animadoras até o final de março.

- Tupanciretã é maior produtora de soja do Sul do Brasil e o maior PIB agropecuário do país. Temos uma quebra significativa do potencial produtivo. Esse é um dos pontos. O outro é o retrabalho: replantio, reaplicação de insumos, do custo das sementes, do óleo diesel, do maquinário, além de plantar fora da janela de produção. É uma quebradeira... Temos o cadastro no governo do Estado, solicitando auxílio. Também estamos buscando a União para auxílio federal, mas a situação é difícil.

Jhefferson Andreatta, coordenador de Meio Ambiente da cidade chama a atenção para a desproporcionalidade dos prejuízos por conta da irregularidade das chuvas. Com esse fenômeno La Ninã, temos chuvas muito localizadas. Às vezes, chove em um vizinho e em outro não, a poucos quilômetros. A perda é de até 50%. A soja, por exemplo, por não ter uma estrutura radicular profunda, mesmo planta da no tempo certo, não desenvolve por conta da falta de chuva.

Perdas em Tupanciretã*

  • Soja - 30%/ R$ 41,8 mi
  • Milho sequeiro - 80%/ R$ 14,3 mi
  • Milho silagem - 80%/ R$9,3 mi
  • Bovinos de leite - 10% R$ 433 mil
  • Bovinos de corte - 20%/ R$ 47, 9 mi
  • Total - R$ 113, 9 milhões

 *Até 16 de dezembro, segundo a Emater

EFEITOS DO LA NIÑA

  • O fenômeno é conhecido como o resfriamento das águas do Pacífico.
  • Ele mantém a umidade deslocada para o Norte e Nordeste do país, favorecendo a ocorrência de estiagem no Rio Grande do Sul.
  • Isso não significa que não haverá chuva neste período. Ela aparecerá, mas de forma muito irregular e mal distribuída


Foto: Eduardo Ramos (Especial)

Busca por recursos estaduais e federais

Para auxiliar as famílias e manter o agronegócio em meio à estiagem são necessários recursos que não estavam orçados. É por isso,que se tornou urgente o decreto para buscar auxílio junto aos governos estadual e federal. A economia da cidade depende cerca de 90% do setor agropecuário.

O prefeito em exercício acrescentou que, ao longo de 2021, foram perfurados poços artesianos e disponibilizados bebedouros. Porém, a estiagem foi mais intensa do que se esperava. Outro fato que preocupa é que o único caminhão -pipa do município serve tanto para distribuir água, quanto para apagar um eventual incêndio.

- Dia 4 de janeiro fomos a Porto Alegre e, junto da Secretaria de Agricultura tratamos de recursos, e com a Defesa Civil conseguimos emprestada uma viniliq, uma espécie de tanque flexível para transporte e armazenamento de água. Logo teremos duas dessas próprias. Já recursos do Ministério da Cidadania também serão aplicados para combustível e cestas básicas. Estamos correndo atrás - pontua.

De forma geral, toda a cadeia econômica é afetada. A saca de soja costumava custar R$ 140. Diante do contexto de estiagem, está sendo comercializada a R$ 171. Isso é um reflexo de que o mercado percebeu que não terá o volume de grãos esperado. Os efeitos são no preço do óleo e derivados, que devem subir.

Já para os produtores de leite, os danos são ainda mais aparentes. Há dificuldade do acesso à água, ao milho, além prejuízo a vacas em período de prenhês, que tem necessidade especiais. Como o animal não tem uma alimentação adequada, a acidez do leite aumenta e a indústria paga menos ao produtor, que tem custo maior. No bolso do consumidor, os alimentos à base de leite encarecem.


Foto: Pedro Piegas (Diário)
Prefeitura aguarda a homologação do decreto pelo Estado e o reconhecimento pelo governo federal

Os prejuízos ocasionados pela estiagem também levaram Santa Maria a uma condição extrema. As perdas na agricultura já chegam a R$ 44,5 milhões no município, além da falta d'água para consumo de pessoas e animais. Dezembro terminou com 73% de déficit de chuvas em relação à média histórica em Santa Maria.

A assinatura do decreto aconteceu após reuniões do prefeito Jorge Pozzobom (PSDB) com secretários, Defesa Civil e entidades do setor agropecuário. Conforme dados da Emater, as perdas mais expressivas na agricultura são na soja, principal cultura produzida no município. Só neste grão, o prejuízo estimado é de R$ 41,5 milhões. Na pecuária, entre bovinocultura de leite e corte, são R$ 2 milhões de perdas. Há quebra também na produção de milho, que chega a 35%, e arroz, com 5%.

- É um prejuízo que ainda não colhemos. Estamos trabalhando com esse diagnóstico. O prejuízo vai impactar os agricultores, e também o aumento de preços dos produtos e até mesmo escassez de alimentos. As consequências serão sentidas ao longo de todo o ano - destaca o chefe de gabinete do prefeito, Alexandre Lima.

A falta d'água já atinge 105 famílias, que contabilizam 457 pessoas, principalmente no interior de Santa Maria. O serviço de entrega em caminhão-pipa ocorre o ano todo, mas se intensificou com a estiagem, que secou rios, poços e vertentes. A partir de segunda-feira, o Exército irá auxiliar a Defesa Civil na distribuição de água. Para os animais, também há dificuldade em encontrar água, o que faz com que seja necessária a abertura de novos bebedouros e limpeza de açudes, uma vez que muitos também secaram.

AÇÕES

De acordo com Lima, a prefeitura já trabalha com um plano de enfrentamento da estiagem, com compra emergencial de diesel e caixas d'água para continuar a entrega em caminhão-pipa no interior. Além disso, um programa de abertura de açudes para reservatório deágua de animais entrará em vigor na próxima semana.

- É para a construção de geoaçudes, com retroescavadeiras das prefeitura. São tanques de capacidade de armazenamento nas regiões mais distantes, nos distritos. Esse programa terá um caráter técnico-social. A assistente social faz o diagnóstico da família e constata a falta de recursos. Então, a família pode solicitar o tanque. Isso deve evitar a falta d'água também em futuras estiagens - explica o chefe de gabinete.

Ainda segundo Lima, medidas de enfrentamento da seca são prioridades na reabertura do orçamento da prefeitura. A ideia é que 100 açudes sejam abertos na Zona Rural. A operacionalização do programa será feita com os sub-prefeitos de cada localidade.

A prefeitura solicitou ao Estado ajuda na destinação de cisternas e abertura de microaçudes. Em nível federal, o Executivo pediu o repasse de cestas básicas, que devem ser enviadas pelo Ministério de Desenvolvimento Regional a famílias afetadas pelos prejuízos.

- Sabemos que a agricultura é a única fonte de renda para algumas famílias - afirma Alexandre Lima.

DECRETO 

Com a assinatura do decreto de emergência, a prefeitura consegue dispensa de licença ambiental e de licitações, o que agiliza processos e compras para amenizar os problemas da seca. Além disso, financiamentos rurais de produtores podem ser recalculados e parcelas podem ser estendidas. Ainda, após a homologação da situação pelo Estado e o reconhecimento do decreto pela União, é possível a obtenção de recursos estaduais e federais para investir na cidade. Diferente do que acontece em temporais, onde as consequências são factuais, com rastros de destruição, em estiagem prejuízos são sentidos a longo prazo, depois da colheita, por exemplo.

SANTA MARIA*
A agropecuária do município já tem perdas estimadas em R$ 44,5 milhões. Veja os prejuízos por setor:

SOJA

  • Área plantada - 49,8 mil hectares
  • Área atingida - 49,8 mil hectares
  • Perda média na produção - 9%
  • Expectativa de perdas - R$ 41.528.643,30

ARROZ

  • Área plantada - 5,9 mil hectares
  • Área atingida - 590 hectares
  • Perda média na produção - 5%
  • Expectativa de perdas - 265,5 mil

MILHO GRÃO

  • Área plantada - 120 hectares
  • Área atingida - 100 hectares
  • Perda média na produção - 35%
  • Expectativa de perdas - R$ 266.466,20 

MILHO SILAGEM

  • Área plantada - 90 hectares
  • Área atingida - 90 hectares
  • Perda média na produção - 30%
  • Expectativa de perdas - 453,6 mil

BOVINOCULTURA DE CORTE

  • Número de animais - 87.638
  • Animais atingidos - 50 mil 
  • Perda média na produção - 40%
  • Expectativa de perdas - R$ 1,995 milhão

BOVINOCULTURA DE LEITE

  • Número de animais - 602
  • Animais atingidos - 602
  • Perda média na produção - 15%
  • Expectativa de perdas - R$ 38.283,11

*Dados da Emater até o dia 3 de janeiro


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