reportagem especial

'Pessoas que não menstruam precisam saber sobre menstruação, por que estão tomando decisões sobre a vida e o corpo das mulheres '

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Em entrevista ao Diário, na última quinta-feira, a socióloga Nicole Campos falou sobre a necessidade de quebrar tabus relacionados à menstruação e da urgência de políticas integradas e voltadas a diferentes idades da mulher. Nicole é socióloga, mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e gerente de Estratégia de Programas na Plan International Brasil. Ela atua há 13 anos no setor de desenvolvimento, com foco em programas de igualdade de gênero, direitos sexuais e reprodutivos

::REPORTAGEM ESPECIAL:: "Não dá para deixar de fazer um almoço, comprar uma bolacha para as crianças para comprar absorvente"

CONFIRA A ENTREVISTA

Diário de Santa Maria - O tema e a expressão "pobreza menstrual" ainda não são amplamente difundidos. Por que essa discussão é importante?

Nicole Campos - O tema e a expressão começaram a ser debatidos em anos recentes, principalmente com um movimento em 2017, que chamava a atenção para o fato das desigualdades sociais que afetam as meninas e mulheres em determinados países e regiões onde existe a pobreza. Essas mulheres têm pouco ou nenhum recurso para acessarem produtos para realizar a sua higiene menstrual. É oque a gente chama de gerenciamento da saúde menstrual. A falta de produtos de higiene menstrual e também a falta de educação sobre menstruação, assim como a falta de acesso à água e ao saneamento adequados, passam a ser um problema social, e não um problema individual. Por isso, é tão importante fazer essa discussão socialmente. Quando a gente fala de pobreza menstrual, temos um tripé. Primeiro, temos a educação sobre a menstruação: entender seu ciclo, por que a menstruação existe, como ela é associada à saúde sexual, à saúde reprodutiva, aos direitos sexuais e aos direitos reprodutivos; depois, o acesso a políticas públicas de água e saneamento: banheiros que tenham um mínimo de privacidade e segurança para o uso das meninas para tenham à sua disposição água, locais para descartar o produto usado e um banheiro que possa ser trancado para que não corram o risco, por exemplo, de sofrerem violência sexual. E o terceiro pilar desse tripé é a questão econômica, porque a renda das famílias impacta

diretamente o acesso aos produtos de higiene menstrual, que são basicamente o que elas usam para coletar o sangue. Não é só o absorvente, porque existem vários tipos de produtos para absorver o sangue, mas o absorvente que é uma das opções mais baratas e mais acessíveis no momento, é um dos mais disseminados.


Diário - Uma pesquisa feita pela marca de absorventes Sempre Livre aponta que, no Brasil, 22% das garotas de 12 a 14 anos e 26% entre as adolescentes de 15 a 17 anos não têm acesso a absorventes higiênicos no período menstrual. Como interpretar esses números? Quais as causas e as consequências desta

estatística?

Nicole - A causa material dessas estatísticas é a pobreza. A falta de acesso a produtos para gerenciar a higiene menstrual e a falta de saneamento adequado (um estudo sobre saneamento da BRK Ambiental em 2018 mostrou que 1 em cada 4 mulheres brasileiras vive em situação precária do ponto de vista do acesso ao saneamento básico) têm consequências na sua saúde, no bem-estar, no rendimento escolar e no trabalho. Em meio à pandemia de Covid-19, na qual o Brasil apresentou as piores estatísticas de mortes do mundo e a pior da América Latina, o número de cidadãos que vive abaixo da linha da pobreza triplicou no país e atingiu, em maio de 2021, cerca de 27 milhões de pessoas (12,8%) da população brasileira, com 14 milhões de desempregados (14,6%) conduzindo para o pior cenário da pobreza no Brasil nos últimos dez anos. O percentual de mulheres entre os mais pobres é maior que o dos homens. Em 2016, quase 60% da população feminina na pobreza tinha idade inferior a 29 anos, indicando uma incidência maior entre as jovens brasileiras. Cerca de 34% de todas as mulheres com menos de 14 anos e 30% das mulheres com idade entre 15 e 19 anos pertenciam a famílias na pobreza. A incidência é particularmente elevada nas populações de mulheres

autodeclaradas pretas, pardas e indígenas.


Diário - Como avalias as políticas sociais e voltadas à saúde da mulher e que iniciativas podem ser feitas para melhorar essa área? É papel do Estado, das escolas, das

unidades de saúde?

Nicole - As políticas sociais voltadas à saúde da mulher precisam também ter um recorte etário. Quando a gente fala de direito das meninas, precisamos ter um olhar voltado às necessidades das meninas, porque elas não são mulheres, e a categoria crianças pode acabar fazendo com que as meninas sejam diluídas no contingente de meninos, meninas e crianças com outras identidades, e suas especificidades não são observadas. Também são importantes os recortes territorial, de raça e de etnia. Nem todas as mulheres e meninas vivenciam, experimentam a menstruação de forma igual. É papel do Estado coletar esses dados, saber quais são as questões que mais enfrentam para atuar em políticas eficazes na educação, na saúde, no mundo do trabalho. As escolas precisam ter banheiros equipados, com acesso à água, à privacidade para as meninas, com produtos adequados. Inclusive, com a distribuição de absorventes gratuitamente nas escolas públicas. Nas unidades de saúde e nas escolas, a gente precisa romper com determinados tabus em torno da sexualidade para poder trabalhar a educação sexual com as meninas, a saúde sexual, a saúde reprodutiva, os direitos sexuais e direitos reprodutivos. As unidades de saúde podem fazer uma abordagem amigável com as adolescentes na fase da puberdade, não só falar de agravos de saúde, mas ter conversas sobre as transformações corporais, falar sobre a menstruação, perguntar para a menina sobre o acesso a produtos de higiene, ao saneamento. Todas as políticas devem trabalhar de forma integrada, sem tabus e com acesso a direitos básicos.


Diário - A pobreza menstrual também afeta mulheres privadas de liberdade. Qual a necessidade de sanar esse problema no sistema penitenciário?

Nicole -  O sistema prisional tem uma maioria de pessoas pobres e negras. Isso é muito discrepante quando a gente compara, por exemplo, com carreiras jurídicas, em que a esmagadora maioria dos desembargadores (74%), como apontado em uma pesquisa realizada em 15 estados, é formada por homens brancos. Depois, o maior contingente é de mulheres brancas, depois os homens negros e por fim as mulheres negras. O sistema jurídico é um sistema cheio de desigualdades, que penaliza muito mais as pessoas pobres e negras.

. É muito importante que as mulheres tenham todas as condições necessárias para acessar produtos de higiene e as condições adequadas de saneamento. Se a questão dos direitos humanos e da humanidade das pessoas não forem suficientes para acessar essas políticas, vamos falar das consequências para a sociedade como um todo. As mulheres que não têm acesso a produtos adequados e ao saneamento básico estão muito mais suscetíveis a sofrer com infecções e doenças. Com isso, existe um inchaço do sistema de saúde, que onera também o orçamento público e gera mais gastos que poderiam estar sendo investidos em outras coisas.


Diário_ A pobreza menstrua lé uma violação de direitos de gênero. Porém, por que é importante levar o tema a conhecimento de pessoas que não menstruam?

Nicole - É uma questão de direitos humanos das meninas e das mulheres e é também uma questão de gênero. Os homens, historicamente, culturalmente, acessam muito mais oportunidades e muito mais direitos em relação às mulheres e às meninas. Quando a gente trabalha a questão de gênero como uma questão relacional, meninos e homens também devem se envolver em todas as questões que afetam suas vidas. Concretamente, pessoas que não menstruam precisam saber sobre menstruação, por que estão tomando decisões nas escolas, estão fazendo leis, estão no sistema jurídico, estão em todos os espaços tomando decisões sobre a vida e os corpos das mulheres, das meninas e das pessoas que menstruam e têm outras identidades de gênero. Os meninos devem saber sobre menstruação para entender o ciclo menstrual, acabar com os tabus e os mitos, saber que não é nenhuma vergonha uma menina estar menstruada, não é sujo, não é uma coisa que contamina. Os meninos precisam entender sobre saúde sexual e saúde reprodutiva, principalmente, o momento em que a mulher está fértil, quais são os riscos para engravidar. No Brasil, a gente tem um índice muito alto de gravidez na adolescência.


PLAN INTERNATIONAL

  • A Plan International é uma organização humanitária e de desenvolvimento não governamental e sem fins lucrativos que tem mais de 80 anos de história. Atua na defesa dos direitos das crianças, adolescentes e jovens, com foco na promoção de igualdade de gênero. No Brasil, a organização chegou em 1997 e conta com dezenas de projetos em diversos Estados do país, desenvolvendo campanhas para combater todas as formas de violência contra meninas e meninos


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