reportagem especial

O inverno como algoz: conheça a rotina de quem trabalha e vive exposto à mais fria das estações

Felipe Backes e Pâmela Rubin Matge
Foto: Foto: Renan Mattos (Diário)


Foto: Renan Mattos (Diário)

É no Alto da Boa Vista, no Bairro Nova Santa Marta, que o aposentado Ari da Silva Rodrigues, 65 anos, comemora estar há seis meses sobre um pedaço de chão "emprestado" onde pôde erguer uma casa de dois cômodos, que, "com a graça de Nossa Senhora, tem até chuveiro de água quente". Lá no alto, Rodrigues conta as frágeis paredes de compensado - feitas de finas placas de entalho de madeira -, não parecem deter o vento nas noites geladas. É por isso que o fogão a lenha é mantido com brasas acesas dia e noite. Em cima da cama, cobertores doados pela Campanha do Agasalho e, ao lado, xaropes e bombinha. Asmático, a cada inverno que chega, Rodrigues teme pela saúde e roga que a estação, que neste ano promete registrar um frio histórico em Santa Maria a partir do dia 28, passe depressa.

- A cerração fica fechada até umas 10h, e a geada branqueia tudo. Se encostar a mão na parede, gela. Nos dias frios, esses cobertores finos não dão conta, e como a casa é sem forro, o vento parece que fica aqui dentro. As costas começam a doer e fica ruim de respirar. Tem de colocar tudo quanto é roupa, e sem um foguinho, não tem quem aguente - conta.

CUIDADOS

Além das sensações térmicas desagradáveis, o organismo pode sofrer consequências em invernos rigorosos. A principal incidência, segundo o médico cardiologista e professor aposentado da Universidade Federal de Santa Maria Antonio Vicente Aita Hahn é a vasoconstrição e o aumento da pressão arterial. A ocorrência pode incidir em angina e infartos. Em pessoas hipertensas, o risco pode ser maior, se não tiver acompanhamento médico:

- Quando faz muito frio ou muito calor, nosso organismo sofre um estresse. Nesta época do ano, é muito comum termos de reajustar medicação de quem vem em tratamento. O sangue passa pelas artérias que estão "mais apertadas", e a pressão arterial é elevada. 

Conforme o cardiologista, doenças respiratórias como asma, descrita pelo aposentado que vive no Alto da Boa Vista, e bronquite podem ser agravadas. Algumas pessoas passam a ter maior retenção de líquido, já que, em geral, o suor diminui em dias frios. 


Foto: Renan Mattos (Diário)

ROTINA

Na estação mais gelada, seja para quem necessita trabalhar exposto às baixas temperaturas, para quem não tem escolha de onde morar, como Rodrigues, ou tampouco se abrigar, o inverno chega como algoz.

Nesta reportagem, meteorologistas explicam porque Santa Maria é uma cidade de temperaturas tão extremas, em que o frio é sempre uma certeza. Um homem em situação de rua, quatro motoboys e dois produtores de leite que vivem na cidade relatam suas rotinas, preocupações e lembram de como atravessaram diferentes invernos no centro do Estado. (Colaborou Leonardo Catto)


RESISTÊNCIA À BAIXA TEMPERATURA ADQUIRIDA POR NECESSIDADE

Foto: Renan Mattos (Diário)

Ainda com a lua alta no céu do distrito de Pains, o produtor de leite Eugênio Luiz Santini repete a atividade que exerce há quase 70 anos. Com agasalhos e uma touca, ele parece ignorar o frio de 4°C da madrugada da última quinta-feira. Junto do filho, Bruno Santini, 32 anos, ele trabalhava no processo de ordenha de 40 vacas.

- Eu gosto. Estou com 70 anos. Para mim, estar aqui de manhã é uma terapia. Com o frio, estou acostumado - diz.

O frio congelante parece não afetar os trabalhadores. Mas não é tão simples assim. A resistência foi adquirida com a experiência, e não é qualquer um que consegue seguir com o trabalho exposto ao frio do inverno justamente no horário mais gelado do dia. O trabalho é feito diariamente, sem exceção, seja domingo ou feriado, sol ou chuva.

- O serviço não para. É uma atividade que só faz isso aqui quem nasceu nesse meio e se criou aqui. Quem vem de fora, fica no máximo uns dois anos - explica o produtor.

ROTINA

Foto: Renan Mattos (Diário)

O despertador toca às 3h15min. Após um lanche rápido, os trabalhadores se encaminham ao galpão, onde estão os equipamentos de ordenha. As vacas, também acostumadas com a rotina, já aguardam na porta da sala de ordenha. O trabalho vai até por volta das 7h30min. Tudo se repete à tarde, quando uma nova ordenha é realizada. O processo é mecanizado, com ordenhadeiras. A modernização da propriedade foi promovida por Bruno. Aos 20 anos, ele largou um curso técnico em mecânica na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) para se dedicar à propriedade e auxiliar o pai e o tio, que também trabalha no local mas está afastado temporariamente por problemas de saúde. Com investimentos, a rentabilidade cresceu. Antes, todo o trabalho era manual, e o inverno castigava os produtores.

- Lá no início, nem energia elétrica se tinha, era um sacrifício. Era tudo manual, passava o inverno todo cortando cana e aveia. Passava-se frio, na chuva, o inverno todo molhado. Se a gente conta, a gurizada nova nem acredita. Hoje é mais tranquilo - relata Eugênio.

Na propriedade dos Santini, o frio já é da rotina.

- É bem tranquilo. Até prefiro o frio ao calor. É a melhor época do ano. Coloco bastante roupa. Mas daqui a pouco começo a me movimentar, já esquenta, tem que tirar algumas roupas. Em questão de produção é bom também. Os animais se sentem melhor - relata Bruno.

Na sala de ordenha, Bruno, sem luvas, pega água de um balde para higienizar o úbere das vacas. No inverno, essa água é esquentada previamente.

- Também não somos de ferro, né - explica.

Foto: Renan Mattos (Diário)


DE PEITO ABERTO NAS MADRUGADAS GELADAS

Seja por necessidade ou escolha, tem quem encare o frio de frente. Até mesmo nas madrugadas mais geladas de julho, não precisa esperar muito tempo para flagrar um motoboy cruzando as ruas de Santa Maria para realizar uma entrega. Com a pandemia, a profissão teve um crescimento exponencial, alavancado pelo aumento da demanda pelas tele-entregas. Mesmo assim, o frio é um fator que afasta muitos trabalhadores desse ramo.

- É uma balança difícil de equilibrar. No inverno, aumenta a demanda por entrega, mas diminuiu o número de pessoas no serviço. A gente entende, pois cansa, ninguém gosta de passar frio. Tem vezes que precisamos ficar procurando gente para trabalhar - explica Cláudio Martins Júnior, 40 anos, proprietário da Diferencial Moto Express, que reúne mais de 80 entregadores em Santa Maria.


Foto: Renan Mattos (Diário)

No pátio da empresa, a entrada e a saída de motos é intensa já por volta de 19h. A partir desse horário, a temperatura cai gradativamente, enquanto a demanda por entregas cresce.

Jocenir Nunes, de 53 anos, é um dos que enfrenta o frio há oito anos para se sustentar. Para ele, ser motoboy é encarar uma luta a cada dia.

- É gostar da profissão, é precisar do trabalho. Mas a gente gosta da moto, de pilotar. É algo que está no sangue - resume.

No frio, a pilotagem é dificultada. Os músculos tensionam, a viseira embaça e, em algumas noites, a umidade é tanta que deixa a pista escorregadia, isso quando não chove. Entregadores mais velhos também acumulam problemas como artrite e artrose causados pela trepidação. As dores nas articulações se potencializam. O mesmo acontece com quem já quebrou um osso ou teve uma torção por conta de acidentes de trânsito, que também são recorrentes para quem passa cerca de 12h por dia na rua. No caso de Jocenir, há também o agravante da Covid-19. O profissional teve 40% da capacidade pulmonar comprometida. A classe reclama que não recebeu prioridade no Plano Nacional de Imunização.

A sede da empresa fica em um terreno de fundo na Avenida Presidente Vargas. Ali tem sofás, uma cozinha e ganchos para pendurar os casacos e cobertores que ajudam a proteger os profissionais do frio. Um secador de cabelo também é usado para aquecer as mãos de quem volta da rua. Em média, um motoboy consegue arrecadar entre R$ 150 e R$ 200 em dia de alta demanda e jornada de 12 horas.

CUIDADO COM A SAÚDE

O entregador Bruno Flores, 32 anos, faz o que pode para se proteger das baixas temperaturas.

- Tem dias que não tem roupa suficiente para proteger. Eu uso uma luva de guidão, pois não gosto de usar luva na mão, já que lido toda hora com máquina de cartão. Uso calça de proteção para o frio, com mais outra por baixa. No peito também, hoje usei uma térmica, uma básica, um blusão e mais uma jaqueta - afirma.


Foto: Renan Mattos (Diário)

Fernando Paixão Chaves, 43 anos, é um dos entregadores que, durante a pandemia, passou a tirar da profissão o sustento da família. Ele atua como motoboy há 12 anos, mas antes as entregas eram um hobby, um adicional na renda. Hoje, com a pandemia, ele não consegue mais trabalhos como marceneiro e eletricista. Mesmo assim, tem dias que o risco à saúde causado pelo frio extremo o faz repensar a saída para rua.

- Tem noite que é muito frio. Pode colocar a roupa que for, que o frio passa igual. Quando eu vejo que estou ficando mal, dou uma folga. Se ficar todos os dias no frio, nos fins de semana também, o cara não aguenta, não tem como. Tem que pensar no serviço e na própria saúde - explica.


"A CACHAÇA É  O COBERTOR DE QUEM VIVE NA RUA"

Foto: Pedro Piegas (Diário)

Luiz Carlos Oliveira, 65 anos, sentiu o vento que parecia atravessar a roupa durante todo domingo. A noite de 18 de junho chegou a registrar 4ºC, mas a sensação era de frio ainda mais intenso. Apesar de viver e dormir na rua, naquela noite, ele teve de bater à porta de um prédio. O porteiro, compadecido, abriu e ofereceu um cobertor. Oliveira, contudo, sabia que aquilo era uma ocasião de sorte. Na normalidade, passa as madrugadas em frente à Igreja Nossa Senhora das Dores, com o corpo sobre o chão.

- Isso aqui verte umidade. Até um papelão, ajuda - diz apontando para a calçada enquanto conta técnicas para amenizar o frio, mas lamenta ser impossível não senti-lo.

Oliveira não lembra de onde veio e há anos perambula por Santa Maria. Pessoa em situação de rua, ele conta que é do tempo em o que termo "mendigo" era bem mais usual.

Entre um relato e outro, que por vezes se contradizem, também menciona que veio "de fora". Em uma das passadas como pai pelo município, Oliveira ficou. Hoje, ele evita casas de passagem e diz que "até o que ele não tem" já foi roubado quando esteve lá.

Sobrevivência

O idoso tem registro junto a um Centro de Referência da Assistência Social (Cras) e guarda, no bolso da calça, o documento que lhe garante gratuidade no Restaurante Popular Dom Ivo Lorscheiter. Ele também guarda gratidão a quem trabalha lá e o auxilia com a higiene.

Diz não usar drogas ilícitas. Fuma cigarros e bebe álcool. Sutilmente, levanta o moletom e mostra o bolso do casaco. Puxa uma garrafa mini de refrigerante. O líquido contido não tem corante. Guarda novamente e diz, como se bebesse porque precisa e não porque quer:

- A cachaça é o cobertor de quem vive na rua.


UMA CIDADE DE EXTREMOS, ONDE O FRIO É UMA CERTEZA

Foto: Renan Mattos (Diário)


O escritor britânico Tim Marshall já havia escrito em seu livro Prisioneiros da Geografia que "por mais que existam diversos fatores econômicos ou tecnológicos, a geografia física, em seus diferentes aspectos, limita e condiciona as ações humanas". E é justamente a localização geográfica de Santa Maria, em médias latitudes e mais próxima da região polar da Linha do Equador, que faz com que, entre junho e setembro, o frio chegue avassalador a essa região. E não há investimento ou obra que mude isso. Todo ano, o inverno vai chegar.

As estações do ano são reguladas pela inclinação da Terra em relação ao sol. No período do inverno, o sol incide com mais força no Hemisfério Norte. Com isso, as taxas de radiação no Sul, onde estamos, diminuem, bem como a duração do dia. Sem a radiação solar, as massas de ar frio que vêm da Antártida chegam com mais força ao sul do Brasil.

- Como já estamos em uma época em que a região está mais fria, quando entra essa massa de ar ainda mais fria, demora um pouco mais para perder essa característica. Por isso, ficamos vários dias com a temperatura mais baixa, principalmente no período da manhã e da madrugada - explica o meteorologista da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Daniel Caetano dos Santos.

Além dessa característica, que afeta toda a região, Santa Maria possui algumas peculiaridades, como o relevo, que a faz ser uma "cidade de extremos", de acordo com o meteorologista Gustavo Verardo, da BaroClima Meteorologia.

- Em áreas baixas, como Santa Maria, que tem uma altitude baixa, têm-se uma concentração de ar frio. É como se a gente colocasse ar frio dentro de um buraco. Ele leva mais dias para sair. No verão, é o contrário. Há uma condição de um ar mais quente concentrado dentro desse buraco e esquenta cada vez mais - explica.

Outra especificidade climática daqui causada pelo relevo é a persistência da nebulosidade durante a manhã. Nos dias 5 e 6 de julho, por exemplo, uma forte neblina permaneceu sobreo município enquanto que em cidades vizinhas, como Itaara, predominou o sol durante o dia.

- Às vezes, olhando por satélite, vemos que todo o Estado está ensolarado. Mas essa região da depressão central, onde temos os morros, de Santa Maria a Porto Alegre, em linha reta, acaba canalizando a umidade, que demora mais a se dissipar - explica Caetano.

A nebulosidade também é um fator para o aquecimento ou resfriamento do ar.

  - Quando não tem nuvens, toda a radiação solar que incidiu e aqueceu a superfície terrestre durante o dia começa a ser perdida para o espaço durante a noite. É como tirar uma torta quente do forno. Ela recebeu toda a energia do forno e, ao colocar em cima da mesa, ela passa a perder energia e esfriar. Se há nuvens, elas barram, em parte, essa perda - exemplifica Daniel Caetano.

NEVE NA REGIÃO

Por outro lado, com menos nuvens, o sol aquece a superfície terrestre mais rapidamente durante o dia. As temperaturas mais baixas costumam ser registradas momentos antes de o nascer do sol, quando o resfriamento da superfície atinge o ponto máximo. Também é nesse momento que costuma se acumular a geada, fenômeno comum no inverno. Para a formação da geada, é preciso temperaturas abaixo de 4°C, pouco vento e tempo seco. Na última semana, houve ocorrência de geada nas manhãs de segunda e terça-feira. Neste ano, também foi registrada neve na região pela primeira vez desde 2013. A neve granular caiu em Dilermando de Aguiar, durante a noite de 28 de junho, e foi quase imperceptível. O fenômeno é raro por aqui.

- Depende de fatores bastante complexos que precisam estar em linha. Precisa muito frio e umidade, o que não é o caso de agora, pois estamos com ar frio e seco. Para ter neve, necessitamos ter umidade com temperatura abaixo de 4°C - explica 

Menores temperaturas registradas em Santa Maria nos últimos 60 anos

  •  -2,9°C em 14 de julho de 2000
  • -2,6°C em 17 de junho de 1971
  • -2,5°C em 30 de junho de 1996
  • -2,2°C em 20 de julho de 1962
  • -2,1°C em 25 de julho de 2009
  • -2°C em 19 de julho de 1975
  • -2°C em 8 de junho de 2012
  • -1,8°C em 18 de junho de 1971
  • -1,8°C em 9 de junho de 2012
  • -1,8°C em 15 de julho de 2020

Fonte: BaroClima/Inmet


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