reportagem especial

Em 2020, uma em cada três adolescentes grávidas de Santa Maria já sofreu algum tipo de violação de direitos

Pâmela Rubin Matge e Luiza Oliveira
Foto: Foto: Renan Mattos (Diário)

Foto: Renan Mattos (Diário)

Débora* e Daiane* têm quase a mesma idade, 14 e 15 anos. Na família de 10 irmãos, as duas são as mais ligadas. Cresceram juntas, dividiram os brinquedos, os segredos e a responsabilidade de ajudar na criação da irmã mais nova, hoje, com 8 anos. Porém, em janeiro deste ano, Débora passou a estranhar as sensações que sentia no próprio corpo. A mãe da menina logo percebeu que ela andava sem apetite e cabisbaixa.

- Foi um susto. Eu tomava o remédio (anticoncepcional), mas cheguei no postinho para trocá-lo e descobri que estava grávida. Eles me deram o teste de farmácia, que deu positivo e depois fiz o de sangue, que confirmou - conta a tímida adolescente, na 34ª semana de gestação.

Débora é uma entre as centenas de adolescentes grávidas de Santa Maria. Até a última semana, 218 já haviam ganhado bebê em 2020. Embora o número de gravidez nessa faixa etária tenha registrado uma leve queda de 2019 em relação a 2018, a incidência ainda preocupa, pois diz respeito a uma lacuna na rede de proteção à criança e ao adolescente, na saúde pública, na educação sexual de jovens, na falta de planejamento familiar, além de ser uma idade que pode oferecer riscos ao desenvolvimento das meninas.

VIOLAÇÕES

Mais preocupante ainda são casos de adolescentes que sofrem quaisquer tipos de violação de direitos. Um levantamento feito pelo Diário junto dos Conselhos Tutelares apontou que essa é a realidade de 36% das adolescentes grávidas de Santa Maria em 2020. Isso porque, conforme a 4ª Coordenadoria Regional de Saúde (4ª CRS), 218 meninas de até 19 anos da cidade foram mães e pelo menos 78 demandaram encaminhamentos dos Conselhos Tutelares como a não realização do pré-natal adequadamente, uso de entorpecentes, negligência familiar e violências diversas.

O Conselho Tutelar aplica a medida de proteção que, nos casos de gestantes adolescentes, são no sentido de garantir os direitos do bebê e da própria adolescente.

- Os encaminhamentos serão feitos de acordo com a necessidade de cada caso - explica a conselheira Giovana Rossi, do CT Centro.

Após 30 anos, Estatuto da Criança e do Adolescente tem regras que não são cumpridas na totalidade

APOIO FAMILIAR

Débora, que cursa o 8º ano do Ensino Fundamental, engravidou do namorado de 23 anos, com quem tem relação desde os 13.

Os pais da adolescente vivem da renda da coleta de materiais recicláveis e moram em uma pequena casa de madeira, com condições sanitárias precárias, no final de uma rua sem calçamento, na região leste de Santa Maria. Embora os exames de pré-natal atestem uma gravidez saudável, o casal se preocupa com a filha e o neto. Faltam fraldas, falta uma estrutura de moradia melhor, mas não falta apoio à menina.

- Ela era uma criança e de repente vai ser mulher, mas vou ajudá-la no que eu puder, não fecharia as portas para meus filhos. A gente vê tanta história por aí... mas ela vai ter o bebê e está bem ciente - completa Silvia*, 58 anos, mãe de Débora.

As histórias as quais Silvia se refere são de abortos e de casos de abandono familiar.

*Os nomes são fictícios para preservar a identidade das entrevistadas


SOLUÇÃO INTERSETORIAL

Médica pediatra que atua junto à 4ª CRS ressalta que, desde a implantação do Programa Saúde na Escola, em Santa Maria, houve diminuição na proporção de nascidos vivos de mães adolescentes, porém, é necessário um trabalho constante de educação para os pais, pois observa-se que muitos negam o fato de o seu filho/filha ser adolescente e de ter uma sexualidade aflorando.

- Isso ocorre não só nas classes mais vulneráveis. Também existem diversos fatores sociais e culturais envolvidos. Antes de vir para a 4ª CRS, eu trabalhava em Porto Alegre, em uma Unidade Básica de Saúde tradicional e atendia crianças. Começamos a observar que os adolescentes não eram vistos nem na Pediatria e nem na Clínica, ficando no "limbo". Para melhorar ainda mais estes indicadores (de gravidez precoce) é necessário que se busquem soluções intersetoriais. Só a saúde e a educação não vão dar conta desta situação. É preciso programas de geração de renda e envolver as secretarias de Desenvolvimento Social, organizações não governamentais, as universidades, todos juntos - conclui.

Proporção de nascidos vivos de mães adolescentes em Santa Maria na última década

201014,79%
201114,80%
201215,73%
201314,54%
201415,01%
201514,38%
201614,21%
201712,95%
201811,81%
2019*12,38%
2020*10,41%

*Dados preliminares 

TAXA DE GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA

Ano Mães de 10 a 14 anos Mães de 15 a 19 anos
201020 468
201122502
201231539
201325475
201417494
201521506
201623477
201715439
20188421
201923404
20203215


CONTRASTE SOCIOECONOMICO E CONTROLE DE NATALIDADE

Foto: Renan Mattos (Diário)

Os números falam por si. O Hospital São Francisco* informou que, desde o ano passado, não registra nenhum parto de mãe criança ou adolescente. O Hospital de Caridade* Dr. Astrogildo de Azevedo não disponibilizou o levantamento completo até o fechamento desta edição, mas informou, por meio da Direção Clínica, que, desde 2019, não houve partos de meninas com menos de 14 anos. Ambas instituições são privadas. Já uma estatística que abrange os nascimentos do município em 2019, disponibilizada pela 4ª Coordenadoria Regional de Saúde (4ª CRS), aponta que o ano fechou com 427 partos de mães adolescentes. O que chama atenção é que também no ano passado, 419 adolescentes gestantes passaram pelo atendimento na rede púbica nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) do município.  

Karinna Filippi é médica ginecologista e obstetra, acumula experiência nas redes pública e privada e traça um paralelo a partir do próprio dia a dia.

- Veja só, hoje pela manhã, atendi (no consultório particular) duas adolescentes de 13 anos em que as mães as levaram para contracepção. Na rede pública, por mais que tenhamos métodos contraceptivos gratuitos e disponíveis, ginecologistas nos postos de saúde, culturalmente, as meninas procuram atendimento depois das relações sexuais, quando estão com medo de estarem grávidas ou já estão. Precisamos saber: onde está a falha? E está se falhando duas vezes com essas meninas: na instrução da contracepção e durante o pré-natal, para que sigam com a contracepção depois da gravidez pois, muitas, antes dos 18 anos, estão tendo o segundo ou terceiro filho - constata.

A médica ressalva que também existem mães que não levam as filhas ao ginecologista achando que vão instigá-las à vida sexual ativa porque estão procurando um método contraceptivo, o que é um equívoco. Outro aspecto de comparação é quanto a naturalização ou não da gravidez.

- No consultório particular tem, ainda, aquelas mães que levam porque "Deus o livre minha filha engravidar ". Nos postos (de saúde), em que a menina teria de chegar mais cedo para receber atendimento, não chega. E a iniciação sexual das meninas, independentemente, da rede pública ou privada é praticamente na mesma idade. O questionamento que faço é o quanto a ambição dessas meninas é diferente, dependendo do fator socioeconômico, o que é triste. Uma tem de estudar, fazer faculdade a todo custo e irá ficar mal falada se engravidar. A outra "vai dar um jeito". Tem também o preconceito de rotular a menina da turma da escola particular que engravida enquanto para outra parece ser "socialmente aceitável" (engravidar na adolescência), pois, geralmente ela já viu isso acontecer com a colega, com a vizinha ou na família.

Segundo a prefeitura, o município não disponibiliza do perfil socioeconômico das gestantes. Conforme a Agência Senado, no último levantamento da Procuradoria Especial da Mulher, no Brasil, a incidência da natalidade juvenil prevalece em famílias de baixa renda, em regiões periféricas e rurais e tende a diminuir quanto maior a escolaridade das meninas.

Atendimentos de adolescentes gestantes em Unidades Básicas de Saúde

  • Em 2019 -  425, sendo 22 com menos de 14 anos
  • No 1º quadrimestre de 2020 - 10, sendo uma com menos de 14 anos
  • No 2º quadrimestre*: 15, sendo 3 menores de 14 anos 

*Sujeito a alterações porque o período ainda não foi fechado

RISCOS

A gravidez em crianças e adolescentes pode trazer sérios riscos à saúde da gestante. Ginecologista e obstetra que há anos atende o público feminino em Santa Maria, Susana Mussoi explica que a futura mãe corre o risco de desenvolver eclampsia e pré-eclampsia (pressão alta), ter parto prematuro e o bebê pode ter alterações nutricionais.

- As maiores consequências são as psicológicas pela maternidade precoce e inversão dos papeis avó/mãe/filhos. Existe um lema: o melhor anticoncepcional é a educação - orienta a ginecologista.

Atuando na 4ª CRS desde 2014, inicialmente, no Programa Saúde na Escola e Primeira Infância Melhor, e, hoje, com o Saúde da Criança e Rede Cegonha, a médica pediatra e especialista em Saúde Pública Maclaine de Oliveira Roos observa que, mesmo tendo informação são utilizados contraceptivos de modo errado tendo como consequência a gravidez,que abrevia etapas da juventude.

- É importante que a gestação seja desejada e planejada, e não simplesmente aceita. Muitas vezes, essa gestação é planejada porque a adolescente não tem uma alternativa melhor, não tem um projeto de vida, principalmente nas classes sociais menos favorecidas - avalia a pediatra.

Casa de Saúde

  • Em 2019 - Total 1.347 ,sendo 190  mães adolescentes
  • No 1º semestre de 2020 - 686, sendo 83 mães adolscentes(  1 de mãe com 13 anos e 1 de mãe com 14 anos) 

Husm

  • Em 2019 - Total 2.146, sendo 229 mães adolescentes
  • No 1º semestre de 2020 - Total 972, sendo 78 mães adolescentes 

Hospital São Francisco

  • Não registra parto de mães crianças ou adolescentes desde 2019.

Hospital de Caridade

  • Não enviou todas as informações até as 18h do dia 28 de agosto..

PREVENÇÃO PASSA PELA EDUCAÇÃO BÁSICA

Foto: Renan Mattos (Diário)

Via de regra, crianças e adolescentes de Santa Maria devem passar por uma ou mais das 173 escolas da cidade. Conforme o Censo Escolar da Educação Básica de 2019, são quatro federais, 41 estaduais, 75 municipais e 53 privadas. Embora a maioria dos conteúdos previstos pelas bases da Educação do país sejam obrigatórios e comuns a todas as instituições ­ como fórmulas matemáticas, regras ortográficas, temas acerca do meio ambiente e do espaço geográfico, a educação sexual é abordada (quando é abordada) de diferentes maneiras.

Enfermeira e professora de cursos da saúde da Universidade Franciscana (UFN), Martha Souza tem projetos de extensão que abordam a temática. Um deles é desenvolvido com discentes do quinto semestre de Medicina e voltado a escolas municipais e estaduais. A proposta é abordar com alunos da rede pública questões como prevenção da gravidez, cuidados necessários para relações sexuais com segurança e reconhecimento de abusos.

- Nos encontros entre universitários e alunos, não raro, várias adolescentes que participam do projeto relatam ter passado por assédio em diferentes níveis. Muitas não tinham conhecimento e não sabiam reconhecer essas situações. Os alunos (de Medicina) ficam sensibilizados, chocados com os casos de violência. Então, começam a abordar mais isso em todos os aspectos ­- conta a professora.

REDE PRIVADA

Segundo o Sindicato do Ensino Privado do Estado (Sinepe/RS), as escolas particulares têm autonomia e trabalham o tema, muitas vezes de forma mais ampla, desenvolvendo junto de outros conteúdos, como na disciplina de Ciências e Biologia. Em alguns colégios, o foco pode ser para o Exame Nacional de Ensino Médio (Enem). Em outros, voltado ao dia a dia dos alunos. Instituições religiosas também têm a própria abordagem.

Na Escola Batista de Santa Maria é a professora de Ensino Religioso, que também é psicóloga, que debate temáticas da adolescência no 9º ano. A filosofia da escola é baseada no sistema de ensino da Rede Cristã.

- ­ A professora trabalha a autovalorização, a importância de se respeitar enquanto pessoa, do autocuidado, a questão da vaidade, do que é cuidar de si mesmo sem o viés de ostentação. Também a questão de ficar e namorar, do quanto estamos nos valorizando ou não. Se fala dos papéis em casa pois, hoje em dia, não existe mais só a mulher que faz o trabalho doméstico... Dentro de tudo isso, se trabalha a preservação do corpo, da própria virgindade, em que eles (alunos) precisam estar seguros de si e da gravidez que vem como uma consequência dessa não valorização. Métodos contraceptivos não chegam a ser discutidos especificamente, mas já houve algumas palestras (com o tema) de outras instituições que foram à escola - conta Eliana Nascimento Bernal, coordenadora dos anos finais do Ensino Fundamental da instituição.

Outra iniciativa é por meio do Programa Saúde na Escola (PSE), formatado pelo governo federal. Segundo a Secretaria Municipal de Educação, por meio da Superintendência de Comunicação da prefeitura, são feitas ações mediadas por professores e profissionais da saúde, com foco nos adolescentes.

Rede de acolhimento de adolescentes e crianças está na mira de três investigações

RESPONSABILIDADE COMPARTILHADA

Segundo a Unesco, o ensino sobre educação sexual sofreu retrocesso no Brasil desde 2011, à época da repercussão envolvendo o Escola sem Homofobia, apelidado e disseminado como "kit gay". O material, que era distribuído desde 2003 para crianças a partir dos 12 anos, no âmbito do Programa Saúde na Escola, acabou sendo recolhido.

Já no final de 2018, outra polêmica se ergueu quando a titular do Ministério Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, recém nomeada à pasta, mencionou "uma nova era no Brasil: menino veste azul e menina veste rosa". Embora a ministra fizesse retratações, a frase ganhou dimensões para além das discussões de gênero e estereótipos. Segundo a enfermeira Martha Souza, distanciar ou segregar os gêneros reforçam tabus que refletem na educação sexual como um todo.

No debate encampado por ela no projeto com escolas públicas, uma das propostas é que meninos e meninas entendam, da mesma forma, que a responsabilidade pelas escolhas e decisões é de ambos, sem diferenciação.

 Durante as oficinas, por exemplo, os alunos são surpreendidos com bonecas que choram de forma aleatória. A ideia é mostrar para os adolescentes como é ter um bebê que demanda atenção a qualquer momento e ensinar a prevenção a partir de uma experiência prática.

­ - Evidências científicas mostram que o acesso a informação sobre educação sexual e sexualidade previnem situações como gravidez na adolescência, Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) e violência de gênero. O desconhecimento e a segregação só aumentam a vulnerabilidade ­ - pontua a Martha.

GRAVIDEZ ANTES DOS 14 ANOS: ESTUPRO A VULNERÁVEL

Foto: Renan Mattos (Diário)

A legislação brasileira prevê divisões etárias na análise de crimes sexuais praticados contra crianças e adolescentes. Abaixo da idade de consentimento (no Brasil é 14 anos), o abuso sexual é legalmente presumido como ato criminoso, "independentemente de ter havido ou não violência quando o parceiro tiver idade igual ou superior a 18 anos. Define-se, pois, o estupro de vulnerável, "o ato de ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 anos". A pena para esse crime é reclusão de 8 a 15 anos.

Neste mês, o caso de uma menina do Espírito Santo, que, aos 10 anos engravidou após ser estuprada pelo tio, ganhou repercussão nacional. Ela teve a gestação interrompida em um hospital especializado no Recife, em Pernambuco. Segundo inquérito policial, a criança sofria abusos desde os 6 anos. O agressor foi preso no dia 18 de agosto.

De acordo com o advogado criminalista e professor de Direito Penal da Universidade Franciscana (UFN) e Faculdade Polotina (Fapas) Leonardo Santiago, uma súmula do Superior Tribunal de Justiça (STJ) estabeleceu que "é irrelevante o eventual consentimento da vítima para a prática do ato, sua experiência sexual anterior ou existência de relacionamento amoroso com o agente".

No caso de o estupro resultar em gravidez, é assegurado à vítima a possibilidade de proceder um aborto legal.

Isadora Balem, advogada de Santa Maria especializada em Direitos das Mulheres, ressalta que, desde 2018, a Lei 13.718 estabelece que, quando o estupro resultar em gravidez, a pena pode ser aumentada. Outra mudança é que a ação passa a ser pública incondicionada para todos os crimes contra a dignidade sexual, sem exceções. ­

- Isso significa que se a polícia ou o Ministério Público tiverem conhecimento do crime, não dependem do consentimento ou representação da vítima para dar prosseguimento às investigações. Considera-se que crianças e adolescentes ainda estão em formação, por isso, devem receber proteção integral da legislação, visando resguardar o seu melhor interesse - explica a advogada.

SANTA MARIA TEM CASOS SUBNOTIFICADOS

Conforme dados preliminares da 4ª Coordenadoria Regional de Saúde (4ª CRS), em 2020, três meninas com menos de 14 anos foram mães em Santa Maria. O cenário já é menos alarmante que no ano passado, quando 22 engravidaram, também com idade inferior a 14 anos. Em 2018, foram 8 meninas.

Titular da Delegacia de Proteção à Criança e o Adolescente (DPCA), Luisa Sousa, acrescenta que denunciar eventuais violações de meninas gestantes é imprescindível (veja ao lado). Conforme a delegada, nem todos casos foram comunicados à DPCA:

­ - Em algum lugar desta "cadeia" está ocorrendo uma falha se não chega ao nosso conhecimento. Em tese, as instituições de saúde notificariam o Conselho Tutelar, que por sua vez informaria o Ministério Público e/ou a Polícia Civil.

A delegada informou que irá verificar o porquê das subnotificação e alinhar para que todos os casos cheguem à delegacia.

Segundo Luisa, a maioria das situações que chegaram à DPCA foram de meninas grávidas dos companheiros, muitas vezes, também adolescentes.

RESPONSABILIZAÇÕES

Cada situação é avaliada e pode gerar punições extensivas aos pais ou responsáveis pelos menores de 18 anos.

­ - A maioria dos casos (recentes) que chegaram é de adolescentes grávidas quando é "consentido". Com o namorado. Muitas vezes, eles são adolescentes, sendo responsabilizados com medidas socioeducativas pelo ato infracional análogo a estupro de vulnerável. Em outros casos, se maior de idade, respondem pelo próprio crime de estupro de vulnerável. Os pais (da adolescente), quando cientes que a filha está mantendo relação antes dos 14 anos e são coniventes, respondem pela omissão. Pois, segundo o Código Penal, eles têm o dever de impedir isso e também é imputado a eles o crime de estupro de vulnerável ­ - esclarece.

De acordo com o Ministério Público, atualmente não há nenhum expediente sobre gravidez na adolescência. Fernando Chequim Barros, titular da Promotoria de Justiça Especializada de Santa Maria, informou que só há casos individuais que envolvam outros assuntos referentes a adolescentes.

DENUNCIE

Conselho Tutelar

  • CT Centro - (55) 3223-3737 e (55) 99973-6674
  • CT Leste - (55) 3217-7790 e (55) 99603-2022   
  • CT Oeste - (55) 3212-5410 e (55) 99972-9638 
  • Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente - (55) 3221-0459 
  • Delegacia de Polícia de Pronto-Atendimento - (55) 3222-2858 
  •  Disque Direitos Humanos - Disque 100 
  • Ministério Público - (55) 3222-9049

COMO FUNCIONAM OS ENCAMINHAMENTOS

Foto: Renan Mattos (Diário)

No município, a Política de Saúde da Mulher trabalha no controle de natalidade para o planejamento familiar. São disponibilizadas consultas nas quais são orientados e ofertados métodos contraceptivos, dadas orientações sobre Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST) e a disponibilização de preservativos. A referência para atendimentos é a Policlínica do Rosário.

Conforme a enfermeira Bruna Dedavi da Rocha, responsável pela Política da Mulher e da Criança, gestantes menores de 15 anos fazem o pré-natal na UBS e concomitantemente no Hospital Casa de Saúde, pelo fator de risco da idade. Já para aquelas com menos de 14 anos (13 anos, 11 meses e 29 dias), os serviços de saúde que realizam primeiro acolhimento devem notificar para Vigilância em Saúde e o Conselho Tutelar. Caso elas negligenciem o pré-natal ou se ausentem em consultas, o Conselho Tutelar é acionado pelas UBSs. Após, a gestante é advertida e acompanhada pela assistência social do município.

Em gestações resultantes de estupro, a interrupção da gravidez até a 20ª semana ou até a 22ª, quando o feto pesar menos que 500 gramas, são colocadas como opção para paciente. O serviço de referência é o Hospital Universitário de Santa Maria (Husm), que pode encaminhar para procedimento de aborto legal em Porto Alegre, no Hospital Materno Infantil Presidente Vargas. Conforme a Superintendência de Comunicação da prefeitura, o transporte da paciente à Capital é custeado pelo município.

A enfermeira salienta que, até 72 horas, ainda existe o protocolo de oferecer a testagem rápida para Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST) e anticoncepção de emergência, que visa interromper a ocorrência da gravidez.

O município também atende gestantes acolhidas em instituições. Em 2019, foram atendidos três casos de adolescentes que já chegaram grávidas no Lar de Mirian e nas Aldeias Infantis SOS. Desde 2015, Husm também é referência no atendimento de casos violência sexual contra crianças e adolescentes. O serviço é prestado por meio do Grupo de Matriciamento de Violência, que atende no sistema de "portas abertas", isto é, as vítimas podem procurar o pronto-socorro do hospital, 24h, sem necessitar de encaminhamentos prévios. Somente no ano passado, 71 pacientes com até 17 anos sofreram violência sexual e procuraram o Husm. Neste ano, foram nove casos. Conforme a responsável pelo serviço, enfermeira Berenice de Oliveira Cruz Rodrigues, nenhuma das atendidas em 2019 e 2020 estava grávida. A maioria das vítimas de abuso em 2019 e 2020 tinham entre 6 e 10 anos.

"É SOFRIDO, COM UMA MENTE TÃO JOVEM, PULAR DE MENINA PARA MULHER"

Foto: Renan Mattos (Diário)

Com meus 13 anos de idade, minha mãe decidiu morar em outra cidade. Meu pai e eu não tínhamos muita intimidade para conversar sobre métodos contraceptivos e eu nunca havia dado importância para esse assunto. Fui crescendo, querendo sair com minhas amigas, estava em uma fase rebelde, não queria muito assunto com a minha mãe, então, deixei de lado vários conselhos. Foi quando, com 14 anos, conheci meu marido e comecei com um namoro escondido, sem tomar nenhuma pílula, sem usar camisinha. Em fevereiro de 2019, eu estava com a menstruação atrasada, tensa, com medo e com apenas 16 anos. O teste de farmácia deu positivo. Sem acreditar, eu e meu marido optamos por fazer o de teste de sangue. Foi aí que eu tive a total certeza que estava grávida mesmo - conta Patrícia*, hoje com 18 anos.

*O nome é fictício para preservar a identidade da entrevistada

O relato da jovem coincide com o desfecho da história de uma família que ganhou uma criança saudável, se uniu e apoiou a gestação de Patrícia. A bebê veio ao mundo no verão daquele ano, após 15h de trabalho de parto, nascendo no Hospital Casa de Saúde.

CONSCIENTIZAÇÃO

Porém, a iniciativa de Patrícia em compartilhar a própria experiência é de combater o preconceito, mas também de conscientizar.

- É sofrido para nós, com uma mente tão jovem, pular de menina para mulher, com grandes responsabilidades. A parte mais sofrida para mim, foram os primeiros meses dela em casa. Eu, nova, sem entender esse mundo de ser mãe. Tive que aprender tudo na marra. Às vezes, eu chorava escondidinha por medo de não dar conta de tudo - relembra.

À época do nascimento da filha, Patrícia estava no 1º ano do Ensino Médio. Hoje, dá continuidade aos estudos e pretende seguir o curso de Técnico em Enfermagem. Ela vive com o marido e outros familiares no Bairro Medianeira, área central da cidade.

- Foi difícil, mas fui aprendendo. Sempre fui forte, nunca me deixei levar por pensamentos negativos. Hoje, minha filha tem 9 meses, é uma criança esperta demais, todo mundo é muito apaixonado por ela. Eu aconselho as meninas mais novas: cuidem-se, filho é responsabilidade. Se doar por completo para uma criança não é nada fácil. Conversem com seus familiares, procurem orientação para ir em uma ginecologista, procurem a pílula ou injeção (anticoncepcionais). Gravidez na adolescência não merece ser romantizada - pontua Patrícia.

SABER ESCUTAR

Em fevereiro deste ano, ocorreu a 1ª Semana de Prevenção da Gravidez na Adolescência. O evento decorre da Lei nº 13.798, sancionada no ano passado e que passou a integrar o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/1990).

No Rio Grande do Sul, o encontro foi promovido pela Corregedoria de Justiça Estadual e aberto ao público. Com a participação de professores, alunos e profissionais da saúde, o objetivo foi abordar as formas de dialogar o tema, avaliar os impactos na saúde e as previsões legais da gravidez antes das meninas atingirem a idade adulta. Outro aspecto discutido foi sobre as adversidades enfrentadas pelos adolescentes que se tornam pais de maneira precoce.

Guilherme Carlos Corrêa é professor e pesquisador da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Ele desenvolve atividades voltadas na formação de professores de Química e Ciências e reitera a importância do diálogo. Corrêa defende que a temática da sexualidade preze, em primeiro lugar, pela escuta.

Para o professor, é essencial que o educador não faça julgamentos sobre o relato dos alunos e que se aprimore o conhecimento técnico na área para abordar o assunto e saber lidar diante de cada caso. Para situações de abuso, por exemplo, notificando a diretoria da escola que, por sua vez, acionará o Conselho Tutelar.

- O olhar do professor quando é amoroso e não julga o que recebe e ouve é muito importante - defende o pesquisador.


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