reportagem especial

Direto da linha de frente: profissionais registram rotinas na UTI Covid do Husm

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Foto: Foto: Luciana Borges Segala (arquivo pessoal)

Foto: Luciana Borges Segala (arquivo pessoal)

Ao atender o telefone no dia 4 de junho, a médica intensivista Luciana Borges Segala, 49 anos, pediu para colocar no viva voz. É que o áudio do seu telefone celular vem apresentando problemas há dias.

- É tanto álcool gel, tanta limpeza que eu acho que acabei danificando o aparelho - conta a médica.

Luciana atendeu a ligação do Diário porque estava do lado de fora da Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) do Hospital Universitário de Santa Maria (Husm) restrita a pacientes suspeitos ou confirmados de Covid-19. Isso porque, no interior do local - equipado com 10 leitos -, há apenas um telefone celular, e, para adentrar à área é necessário um rigoroso processo de paramentação (troca das vestes normais por vestimentas adequadas ao ambiente de trabalho em isolamento).

Quatro dias depois, em 8 de junho, a pedido do Diário, Luciana registrou fragmentos de como transcorre um plantão na UTI, como é a disposição da unidade, como funcionam os aparelhos e alguns procedimentos para quem está na linha de frente do combate da doença que já matou pelo menos 300 gaúchos. A foto acima, por exemplo, foi feita pela própria médica intensivista.

Outras percepções também foram compartilhadas pela enfermeira Simone Kroll Rabelo, 38 anos, e pela auxiliar de limpeza Fernanda Martins Costa, 39 anos. É pela ótica dessas profissionais, com base em registros fotográficos, descrições de momentos emblemáticos e relatos pessoais, que a reportagem especial deste fim de semana ilustra a rotina de quem trabalha no enfrentamento do novo coronavírus no maior hospital público da região.

RESPONSABILIDADE

Foto: Luciana Borges Segala (arquivo pessoal)

Desde que a pandemia da Covid-19 com origens na China chegou ao Estado, é para esse hospital que 44 municípios das regiões Centro e Fronteira-Oeste são orientados a encaminhar seus pacientes com quadros clínicos graves da doença. Isso é, pacientes atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) têm o Husm como única porta de entrada. Em 7 de maio, foi registrada a maior ocupação na UTI, tendo 90% dos leitos em uso. A unidade está em funcionamento desde o dia 6 de abril.

Tamanho compromisso é mencionado por Fernanda como "o trabalho de maior responsabilidade já feito na vida."

Para Simone, o temor é pela possibilidade de falha:

- O medo de me contaminar e contaminar meus familiares existe, mas não é o maior. Meu maior medo é errar, na minha profissão o erro pode custar a vida de alguém - conta Simone.

Conheça um pouco mais do dia a dia e da estrutura da UTI Covid do Husm.

 OS PLANTÕES NA UTI COVID DO MAIOR HOSPITAL SUS DO CENTRO DO ESTADO

Foto: Luciana Borges Segala (arquivo pessoal)

Equipar uma UTI em poucos dias e adaptar-se às rotinas e aos plantões nunca antes enfrentados em plena situação de pandemia colocou à prova o conhecimento técnico e as emoções dos profissionais do Hospital Universitário de Santa Maria (Husm). As mudanças perpassam o simples fato de ir ao banheiro, de banhar-se na entrada e na saída dos turnos de trabalho e, sobretudo, as relações com os pacientes e entre os próprios colegas.

- Nossa chegada foi reestruturada em uma área externa com conexão aos vestiários e banheiros sem que não se coloque em exposição outros funcionários - salienta a médica Luciana Borges Segala.

Responsável por coordenar o comitê de enfrentamento da unidade de internação da Covid do hospital, a médica infectologista Liliane Pacheco realiza discussão dos casos diariamente com a equipe na intenção de atualizar e aprimorar os tratamentos.

- O maior desafio é lidar com o grande desconhecimento sobre o assunto, adequar o que temos com o que é necessário para atender de forma mais segura possível primando pela segurança do profissionais e dos pacientes - explica Liliane, que também é chefe do Setor de Vigilância em Saúde e Segurança do Paciente.

E é meio a incertezas, à exaustiva dedicação, ao sons de eletromonitores e o vaivém de profissionais cobertos de uniformes azuis, que desdobram-se os plantões na UTI Covid do Husm.

  - São 12 horas com máscara apertando e com calor por conta dos aventais impermeáveis, pois evitamos tirar. Nem à época da gripe A (em 2009), tivemos algo nessas proporções, nunca passamos por isso. É tudo diferente no cuidado com o paciente e com a gente mesmo. Apesar de termos menos pacientes na UTI, a carga dos nossos plantões é muito maior - relata a enfermeira Simone Kroll Rabelo.

PANORAMA SOBRE TRABALHAR EM MEIO À PANDEMIA

Foto: Luciana Borges Segala (arquivo pessoal)

"Meu nome é Luciana Borges Segala, 49 anos, sou médica intensivista, atuo no Husm desde 2002. Formada pela UFSM em 1996. Estamos frente a algo nunca antes vivenciado. O mundo encontra-se em ebulição, as angústias, a incerteza são desafios a cada nova situação. Uma doença totalmente desconhecida quanto à evolução, à gravidade, ao tratamento e à imunidade adquirida.

Na vida pessoal, tudo também mudou , os momentos em família muitas vezes são invadidos por longas conversas, reuniões de equipe e debates virtuais .Meus filhos tiveram suas atividades escolares readaptadas , ficam reclusos. Não vejo minha mãe desde fevereiro , meu pai desde março e com sogros só trocamos apenas abanos do outro da lado da rua . 

Meu maior temor, além de adoecer, é contaminar minha família. Procuro não pensar nisso, tomar todos os cuidados e ter muita fé. Reforço-me muito em minhas crenças espirituais. A maior lição até o momento é a valorização do trabalho em equipe, a troca de experiências, as reuniões de estudo, as decisões compartilhadas e o comprometimento com as escolhas de vida feitas ainda na faculdade. Encaro este momento como uma oportunidade , uma revolução em tudo que estava estabelecido, um aprendizado, uma revisão de todos os nossos valores"

Foto:  Simone Kroll Rabelo (arquivo pessoal)

"Sou Simone Kroll Rabelo, 38 anos, enfermeira, 18 anos de profissão, seis anos no pronto-socorro do Husm. Sempre atuei em áreas críticas, em emergência e terapia intensiva, portanto, acreditava estar acostumada com o estado de alerta. Entretanto, o desafio, agora, é outro. Além de estar alerta com o estado de saúde dos pacientes, precisamos redobrar os cuidados para não nos contaminarmos. O que tem me feito refletir bastante é esse paradoxo: não sabemos viver sós, precisamos nos relacionar, estar com o outro, mas não sabemos pensar na coletividade. O desprezo ao distanciamento social e o movimento antivacina são exemplos de como alguns seres humanos não estão dispostos a agir pelo bem de todos"

Foto: Fernanda Martins Costa, 39 anos (arquivo pessoal)

"Sou a Fernanda Martins Costa, 39 anos, e trabalho no Husm faz dois anos e cinco meses. A minha função é limpeza e higienização. Muita coisa mudou, principalmente no uso dos EPIs e dos produtos. Sempre fazíamos a desinfecção, mas agora o cuidado redrobou: é produto especial no chão, nas maçanetas, em tudo. Sinto que sou responsável de deixar tudo pronto para os médicos, enfermeiros e técnicos em enfermagem que são maravilhosos e passam o dia tentando curar as pessoas. Às vezes, a gente fica assustada com os casos, mas somos uma equipe. É todo mundo junto. O trabalho de um influencia no do outro"

OBSERVAÇÃO PERMANENTE


Foto: Luciana Borges Segala (arquivo pessoal)

Pacientes costumam ter comprometimento pulmonar e profissionais devem estar o tempo todo atentos para garantir posições confortáveis e seguras 

EPIS E APARELHOS

  • A adaptação ao uso desses EPIs envolve questões de destreza no dia a dia. Um exemplo é o protetor facial que, no início, atrapalhava a visão. O ato de puncionar uma veia, algo simples para o enfermeiro, parecia um procedimento mais difícil. (por Simone)
  • A rotina pessoal também mudou. Preciso sair mais cedo de casa pois o tempo de paramentação é longo. Também demoramos mais a sair do hospital, pois a desparamentação (momento de grande risco de contaminação) e higienização também levam tempo (por Simone)
  • Tudo mudou. Tivemos que criar uma UTI que necessita uma logística própria, com áreas de vestiário e banheiros para que a equipe possa tomar banho ao final de cada turno. Tivemos que ter treinamento para o uso dos EPIs para trabalhar sob cuidados extremos e até fazer a racionalização desse EPI, pois é muito caro. Os profissionais racionam até o horário de ir ao banheiro, pois tem de desprezar o avental .  (por Luciana) 
  • Temos só um celular lá dentro (da UTI) que podemos fazer as vídeos-chamadas para os familiares dos pacientes. Também usamos para fotografar exames, pois não não pode sair papel lá e não temos capacidade mental para gravar tantos dados, análises laboratoriais, medida de pressão e oxigênio de cada paciente. Alguns exames são colados no vidro. (por Luciana) 

PROCEDIMENTOS E RELAÇÕES JUNTO AO PACIENTE

por Luciana:

  • É delicado dar notícias diariamente pelo telefone, falar sobre um ente querido de alguém e estabelecer uma comunicação avaliando o quanto se está sendo entendido. É muito difícil dar uma má notícia, avaliar o impacto e estabelecer empatia é quase impossível sem olhar no olho.
  • Na saúde, a gente que sempre priorizou que nunca uma noticia ruim pode ser por telefone, mas tivemos de rever todas essas questões
  • Trabalhar em uma UTI Covid requer humanização. O olhar da saúde como um todo tem se voltado ao acolhimento, à valorização das relações humanas, ao bem estar do paciente e sua família
  • Nós temos profissionais com fragilidades por doenças prévias, idade avançada, que lidam com o medo de ficaram doentes. A gente percebe o medo no olhar das pessoas no meio dessa reestruturação
  • A ampliação dos horários de visitação (visita estendida ), a personalização do cuidado, ampliação do número de profissionais envolvidos no atendimento como psicólogos, terapeutas ocupacionais, odontólogos, nutricionistas, fonoaudiólogos, trouxe um ganho imenso. Tudo isso teve que ser restrito e priorizado para menor exposição de todos. Um retrocesso forçado pela situação 

por Simone:

  • São pacientes muito instáveis. A observação deve ser constante, pois estão sedados e a enfermagem deve prover todos os cuidados para que sejam atendidas suas necessidades básicas. Eles possuem comprometimento pulmonar sério. Muitos precisam ficar na posição que chamamos de prona (de barriga para baixo) de 16 a 20 horas. Esta posição é um desafio para a equipe de enfermagem. O risco de lesões de pele também é alto e precisamos estar atentos para manter o paciente confortável. Já tivemos plantões com três pacientes pronados, isso exige bastante da equipe.
  • A intubação é um procedimento bastante delicado por dois motivos: o primeiro é porque o paciente está em insuficiência respiratória, o que é algo angustiante e mesmo após o procedimento é necessário uma assistência muito próxima até a estabilização. Para isso, passamos uma, duas, até três horas assistindo um único paciente. O segundo motivo é porque esse é o procedimento é de maior risco de contaminação para a equipe, pois além das gotículas, há a geração de aerossóis, que são partículas menores e que ficam mais tempo no ar. Essa geração de aerossóis também muda nossa atuação em diversos outros procedimentos como aspiração de secreções e oxigenação dos pacientes não intubados 

Foto: Simone Kroll Rabelo (arquivo pessoal)

OS ÓBITOS - DESFECHOS DE MAIOR FRUSTRAÇÃO ÀS EQUIPES

  • O pior desfecho é o óbito. Todos os protocolos e rituais funerais foram reorganizados. O reconhecimento do falecido necessita de diversas medidas para proteção do familiar que o faz . O acondicionamento totalmente lacrado e as despedidas com funerais curtos se tornaram muito mais dolorosas (por Luciana)
  • Nosso primeiro óbito foi um choque para nós. A paciente estava muito bem, estavam iniciando os planos para alta dela. Na noite anterior, ela acompanhou nosso plantão bem acordada, riu bastante das nossas brincadeiras, porém, dois dias depois, apresentou uma complicação e não conseguimos salvá-la. Fiquei com aquela imagem dela sorrindo. Achávamos que seria nossa primeira alta, nosso primeiro sucesso e, na verdade, foi nosso primeiro óbito. (por Simone) 


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