vida e saúde

O tempo, o tic tac e a vida

Colunista fala sobre como nossas obrigações afetam a forma como vivemos o tempo


"Ai os meus bigodes... É tarde, é tarde até que arde...  
Ai, ai, meu Deus, alô, adeus, é tarde, tarde é tarde.  
Não, não, não, eu tenho pressa, pressa...  
Ai, ai, meu Deus, alô, adeus, é tarde, é tarde, é tarde."  
(Fala do coelho branco em Alice no País das Maravilhas) 

Quando eu era criança, um de meus passeios preferidos era sentar em um banco do Calçadão junto com minha mãe. Ali ficávamos observando as pessoas que passavam e criávamos histórias para aquelas que mais chamavam a nossa atenção. Nos divertíamos muito e ainda hoje sinto prazer em sentar e observar. Ao fazer isso é fácil perceber o quanto as pessoas correm, andam agitadas, caminham e comem, caminham e falam ao celular, caminham e digitam e leem textos. Ufa! Quanta coisa ao mesmo tempo! Essas cenas sempre me remetem ao Coelho de Alice no País das Maravilhas, pois parece que sempre estamos com pressa, atrasados e em dívida (conosco, com alguém ou com nossos compromissos). E digo estamos, pois me incluo nessa. Deixemos as hipocrisias de lado, todos correm, só não sabemos exatamente para onde. 

Porém, quando estamos com alguma criança, seja ela filho, paciente, afilhado, filho de um amigo, enfim, quando nos aproximamos do mundo da infância percebemos que as crianças vivem o tempo de uma outra forma. As crianças pequenas, as quais ainda não possuem a noção de tempo, me dizem: "tia Manu, vamos brincar daquilo que brincamos ontem?". O ontem quer dizer na semana passada. Para elas é difícil saber o que significa uma semana. Mas não é disso que falo quando me refiro ao fato de que as crianças vivem o tempo de uma outra forma. 

As crianças vivem o tempo, elas não apenas o contam. Para mim "viver o tempo" tem muito mais a ver com viver a experiência do tempo. A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece, ou o que toca. A cada dia se passam muitas coisas, porém, ao mesmo tempo, quase nada nos acontece. 

Pensando em tudo isso, no Coelho de Alice, na minha brincadeira de infância de olhar as pessoas, no quanto corremos hoje em dia e no quanto as crianças nos pedem calma, mais calma, lembro-me de um vídeo o qual fez sucesso um tempo atrás. O nome do vídeo é Caminhando com Tim Tim. Nele vemos o percurso do pequeno Valentim que vai da sua casa até a casa da avó. A mãe de Tim Tim narra suas descobertas pelo caminho, os encontros preciosos para o filho e nos dá uma lição sobre o tempo e o caminho: o tempo tem suas delicadezas e o chegar não é mais valioso do que a andança. 

Certamente não conseguiremos viver o tempo e o caminho da mesma forma que Tim Tim, até mesmo porque nos envolvemos com outras situações as quais não fazem parte do mundo da infância. Mas acredito que não é disso que se trata, não temos que fazer igual, mas podemos nos inspirar nas crianças. Afinal de contas, não temos mais a infância, mas conservamos o infantil dentro de nós mesmos. 

Talvez se olhássemos para as crianças com mais paciência, mais calma e mais disponibilidade para o tempo delas, poderíamos nos maravilhar com a vida dos pequenos. Teríamos crianças mais seguras, que se sentiriam mais amadas e respeitadas. E para os que não convivem com crianças, recomendo que se permitam, ao menos de vez em quando, sentar em um banco da praça e apenas se deixar afetar, pelas pessoas, pelos sons, cheiros, cores, enfim...pela vida.


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