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Quando a tecnologia provoca ansiedade, foque no presente

11 Setembro 2018 16:05:00

Colunista fala sobre a preocupação permanente com momentos passados e futuros


Foto: Pixabay

Dia desses, eu estava lendo um artigo interessante sobre vantagens e desvantagens das mentes curiosas. O artigo trazia pesquisas científicas indicando que as pessoas que focam seus pensamentos no passado e no futuro podem até ser mais prevenidas e criativas, mas são muito mais propensas à ansiedade e à infelicidade do que as pessoas que focam suas energias no presente. 

Pensar no passado e no futuro é mais do que uma exclusividade do ser humano: é uma característica que ajudou a moldar a nossa espécie. Foi ela que possibilitou as habilidades de planejamento, como a de estocar alimento e a de sentir a necessidade de construir abrigos, roupas e ferramentas. 

Porém, o desenvolvimento dessa característica extrapolou um pouco o nível do necessário: passamos a pensar demais no passado e no futuro. Esse exagero pode gerar preocupações, nervosismos, ansiedades e, por fim, acentuar um traço de personalidade chamado "neuroticismo", que é a reação demasiadamente amplificada às ameaças (inclusive às ameaças que de fato nem existem). Pessoas com neuroticismo desenvolvem preocupação permanente, pensamentos negativos e sensação constante de que algo pode dar errado. Ou seja: sofrem demais por antecipação e, muitas vezes, sem necessidade. 

A tecnologia digital acentua o neuroticismo? Não sou psicólogo (e se você acha que sofre com neuroticismo, sugiro procurar um!), mas é impossível não associar os efeitos da tecnologia com a prática de se pensar demais no passado e no futuro. O ser humano pode até ser um animal preocupado por natureza, mas agora, com essa enxurrada de informações e novidades constantes, com esse estado permanente de conexão e comunicação, parece que nos tornamos um animal neurótico por natureza. 

Não é por menos: aquela janelinha conectada para o mundo que nós carregamos no bolso está toda hora nos provocando a questionar: será que alguém me enviou uma mensagem e está esperando minha resposta? Será que as pessoas vão curtir a minha última foto? Será que aquele e-mail importante já chegou? Será que algum amigo passou em um concurso e todos estão o felicitando, menos eu? Será que ninguém me xingou no meu último textão sobre política? Será que as redes sociais estão bombando alguma polêmica e eu não estou acompanhando? 

Aliás, anda tão comum essa desordem de ansiedade provocada pela sensação de "estar desinformado" que já chegaram a criar um termo para isso: FOMO, sigla em inglês para Fear Of Missing Out, que numa tradução livre poderia ser algo como "medo de estar por fora" ou "medo de estar perdendo alguma coisa". Jovens e adultos do mundo inteiro estão tão acostumados a ficarem permanentemente conectados com sua comunidade online que, em situações de desconexão, se sentem tão mal pela possibilidade de estarem por fora das novidades que chegam a desenvolver ansiedade, angústia e até pânico

As consequências do FOMO para a saúde mental são bem óbvias. Ainda há as "consequências dessas consequências": problemas de rendimento na atenção, nos estudos, no trabalho, na vida pessoal. Por isso que insisto que os casos intensos de FOMO (e outras desordens desse tipo) deveriam ser encarados sem preconceito e tratados por profissionais da saúde mental. 

E para evitar chegar a essas desordens, o que fazer? Bem, eu já citei algumas técnicas em artigos que publiquei por aqui no passado, tais como a de silenciar as notificações dos aplicativos e a de deixar o celular longe da cama. Hoje, vou falar sobre outra estratégia que eu acho interessante e que já estou colocando em prática: a de nos oportunizarmos momentos do dia em que nos forçamos a não pensar nem no passado e nem no futuro. Em outras palavras: gerar períodos em que nos prendemos ao momento presente

Uma forma de se fazer isso é a partir de atividades manuais, que exigem atenção constante a procedimentos minuciosos realizados no presente. Não é à toa que, segundo uma matéria do The New York Times, em algumas grandes cidades dos EUA cresce exponencialmente o número de centros dedicados a atividades manuais e analógicas, como a de... produção de cerâmica! Em pleno século 21, os cidadãos das maiores metrópoles do mundo estão investindo seu tempo em técnicas milenares de fabricação de jarros de barro, e isso é ótimo para suas respectivas saúdes mentais. 

No meu caso, meus amigos já sabem que um dos meus hobbies é o de fazer pão caseiro. Ali, consigo largar os pensamentos sobre meus milhares de e-mails não lidos (e suas possíveis e devastadoras consequências) e focar em procedimentos que requerem atenção total ao presente, como a ordem dos ingredientes e a medição da qualidade de farinha, da quantidade de água e do tempo no forno. 

Falando em "atenção total", outra tendência que indica esse movimento de distanciamento do passado e do futuro e de aproximação ao presente é o do mindfulness, termo em inglês vem sendo traduzido para o português como "atenção plena". Nada mais é que uma prática de meditação com o objetivo de fazer com que a pessoa foque completamente no momento presente. Por mais que tenha origem na meditação oriental, o mindfulness ignora toda a parte de transcendência espiritual e mística, focando apenas em aspectos materiais e orgânicos, como a atenção e a emoção. Tanto é que o mindfulness é aplicado há décadas como terapia por psicólogos e psiquiatras para a redução de ansiedade, estresse e vícios. Ela também está sendo explorada para aumentar a eficiência de profissionais de alto desempenho, como grandes esportistas que precisam aprender a focar no presente e a ignorar distrações do ambiente. Hoje, é possível encontrar desde aplicativos de celular para a prática do mindfulness até livros que ensinam essa técnica de forma lúdica para crianças. 

Então, minha dica é essa: se você perceber que a tecnologia digital está provocando algum tipo de ansiedade em você, busque criar momentos de distanciamento do passado e do futuro. Planejar-se é fundamental, mas se esforce para que isso não vire uma neurose. Cuide para que a conexão permanente não intensifique esses pensamentos. A ironia disso tudo é que a própria internet pode ser uma ótima fonte de inspiração para atividades que o ajudem a focar no presente. No Youtube você encontra, por exemplo, tutoriais sobre como praticar o mindfulness enquanto caminha na rua, como produzir seus próprios jarros de cerâmica, como construir seu próprio móvel de madeira, como consertar objetos quebrados, como fazer deliciosos pães caseiros.

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