tecnologia

Matrix completa 20 anos. E nunca esteve tão atual

Colunista Iuri Lammel fala sobre o que o filme já adiantava da realidade que vivemos hoje


Na semana passada, o filme Matrix completou duas décadas de lançamento. Todo nerd que vivenciou essa época sabe o quão revolucionária foi essa obra-prima do cinema. O filme, considerado por muitos um dos melhores (se não o melhor!) da década de 1990, trouxe ao mundo inovações técnicas de filmagem e efeitos visuais até então inéditos, como a já icônica técnica do "bullet time" (algo como "tempo de bala"), em que uma cena muito breve é gravada em câmera lenta, porém com movimentação de câmera extremamente rápida, como se ela estivesse acompanhando a trajetória da bala de um revólver rasgando o ar.

Descobriríamos mais tarde que a câmera, na verdade, não se movimenta, porque o efeito da  movimentação é produzido por uma sucessão de dezenas de câmeras alinhadas lado a lado. Embora os efeitos visuais sejam espetaculares e revolucionários, eles não foram o principal  ponto alto do filme. O que realmente fez de Matrix uma lenda do cinema foi o seu enredo recheado de referências filosóficas, religiosas e científicas, que vão do existencialismo à realidade virtual, do budismo ao cristianismo, da ideologia ao niilismo, do comunitarismo ao individualismo liberal, de Platão a Baudrillard. Tudo isso encapsulado em um frenético roteiro de ação e ficção científica da mais alta qualidade. 

Um aspecto interessante de Matrix é que você pode assisti-lo como um mero filme de ação, sem raciocinar muito sobre as várias camadas de significados que ele possui, e mesmo assim o filme será incrível. Por outro lado, se você quiser compreender e se aprofundar naquelas camadas de significados, o filme se torna uma experiência com reflexões e questionamento filosóficos profundos (e, em alguns casos, perturbadores). 

Embora o primeiro filme da trilogia seja o único realmente idolatrado pela maioria, devido às (merecidíssimas) críticas aos roteiros das duas sequências (The Matrix Reloaded e The Matrix  Revolutions, ambos de 2003), é preciso reconhecer que os dois outros filmes trouxeram ainda mais complexidade filosófica ao emaranhado de significados da história. As ideias ali presentes são tão complexas que o seu total entendimento exige muita sensibilidade e massa cerebral do seu público. Tanto é que muita gente não entendeu nada de Matrix , enquanto outros até entenderam, mas continuam debatendo questões do filme, como a possibilidade da cidade de Zion também ser uma simulação artificial (uma "Matrix dentro da Matrix"). 


A ATUALIDADE DE MATRIX
Em 1999, quando o filme foi lançado, a internet ainda estava engatinhando na vida das  pessoas. Não tínhamos Youtube nem redes sociais, nem smartphone, nem plano de dados móveis, nem apps de celular. Os jogos multiplayer eram raros e a conexão era extremamente lenta. As pessoas passavam a enorme parte de seus dias desconectadas e distantes de telas luminosas. Hoje, como você bem sabe, vivemos o inverso disso: a maior parte do tempo conectados, encarando telas de diversos tamanhos, curtindo e compartilhando conteúdos, expondo a parte bonita de nossas vidas em fotos e vídeos editados. E o mais impressionante nesses 20 anos é notar que Matrix tem muito mais a ver com o mundo de hoje do que o de  1999, quando foi lançado. 

O site HuffPostBrasil publicou um breve texto sobre esses paralelos do filme com a atualidade. No texto, é debatido sobre uma ideia do filme que podemos associar com a realidade das redes sociais: a escolha que o personagem principal precisa fazer entre "encarar uma realidade dura de lutas ou viver 'feliz' em sua bolha". Ou seja: devemos dedicar nossas horas a enfrentar as dificuldades e as chatices da nossa vida real, ou será que poderíamos continuar aqui nessa rede digital, imersos em uma vida simulada, cercada de outras vidas simuladamente alegres e  bonitas e felizes? A ideia de trocar a vida real pela vida simulada não se aplica apenas às redes sociais e aplicativos de imagens, mas também a jogos eletrônicos viciantes que nos fazem escapar da realidade por mais tempo do que deveríamos. 

Esse é, provavelmente, o maior paralelo que se pode fazer entre o filme e as nossas vidas de 2019. Entretanto, eu conseguiria identificar outros paralelos com a atualidade que, lá em 1999, parecia estar a um século de distância. Vamos a eles: 

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
A Matrix é um ambiente virtual em que as pessoas vivem por meio de seres virtualmente  representados. Então, mesmo que sejam simulações, ainda assim são controladas por pessoas reais. Entretanto, a Matrix também tem seres controlados inteiramente por inteligência artificial, como o caso dos agentes que mantêm a segurança contra rebeldes do sistema. Se em 1999 isso era apenas um tema de ficção científica, hoje, em 2019, já encontramos sistemas de inteligência artificial que conseguem não apenas manter uma conversa consistente com um ser humano, como ainda conseguem aprender novos conceitos usando técnicas de machine learning, formar redes neurais para melhor funcionamento dessa aprendizagem e, finalmente, desenvolver processos de deep learning. Não é futuro: já estamos vivendo uma era da computação cognitiva. No dia a dia, podemos encontrar produtos mais simples com essa tecnologia, como no caso dos chatbots e das assistentes pessoais nos smartphones; mas, claro, existem soluções muito mais avançadas funcionando em laboratórios e organizações especializadas.

MONITORAMENTO, VÍDEO-VIGILÂNCIA E RECONHECIMENTO FACIAL
A Matrix, como sistema virtual simulado, é naturalmente monitorada pelas máquinas que a simulam. Já a "realidade" fora da Matrix estaria livre desse monitoramento, se não fosse pelas terríveis sentinelas, robôs autônomos e cheios de olhos e tentáculos mecânicos que patrulham o mundo em busca de rebeldes contra o sistema. Tanto dentro como fora da Matrix, temos a representação de um mundo permanentemente monitorado e sem nenhuma proteção eficiente pela privacidade individual. E parece que o nosso mundo se encaminha cada vez mais para esse cenário. Entre as evidências, estão os sites e aplicativos que coletam nossos dados pessoais, os smartphones que armazenam nossa geolocalização e que muito provavelmente gravam e processam nossas conversas em áudio no dia a dia, nas redes sociais que, de certa maneira, forçam nossa presença em um ambiente de extrema exposição, nos bancos de dados com nossos dados privados usados por empresas de marketing e por governos, nos sistemas de reconhecimento facial rápido em ambientes públicos que já estão em funcionamento em países como a China.

ENGENHARIA SOCIAL
A Matrix não é apenas uma mera simulação de um mundo 3D. O próprio arquiteto do sistema deixou claro em um dos filmes que ela é, também, um ambiente pensa o para que as pessoas se comportem de certa maneira. Em uma versão anterior do software, a Matrix permitia que todos os humanos vivessem felizes, mas o experimento não funcionou, porque a mente humana não aceitava o funcionamento de um lugar em que todos se davam igualmente bem.

Já a atual Matrix cria a ilusão de poder de decisão nos seus habitantes simulados e permite o desenvolvimento de relações de poder e força, de vantagens e desvantagens, de felicidade e sofrimento, e dessa maneira faz com que os seus habitantes nem cogitem gastar tempo questionando a realidade do sistema. Embora essa ideia de engenharia social possa ser associada a praticamente todos os períodos da civilização humana, já que toda sociedade tem elites que buscam condicionar comportamentos na população, o que vemos hoje é uma quantidade tão grande de dados privados coletados e de máquinas autônomas processando tais dados que, invariavelmente, não há como não questionarmos até que ponto estamos sendo manipulados pelos sistemas que nos rodeiam. Um exemplo muito básico e comum em nossas rotinas é no marketing digital: por acaso, você nunca passou pela situação de procurar por um produto na internet e aí, nos dias seguintes, se depara com anúncios daquele tipo de produto em tudo que é canto da internet? Já imaginou como será essa mesma situação no dia em que todos os objetos que nos rodeiam estiverem conectados à chamada "internet das coisas"? Já há no Youtube depoimentos e experimentos de pessoas mostrando que essa tempestade de publicidade digital sobre um produto acontece após simplesmente conversarem com alguém sobre um assunto perto do seu smartphone. Se isso acontece com publicidade, por que não aconteceria com outros aspectos da vida, como posições políticas, ideologias, concepções de mundo? Quem me prova que não há nenhum governo ou instituição usando esses dados para tentar modelar meus hábitos, minhas ideias e meus relacionamentos com o mundo? Será que a opinião pública ainda existe, ou é apenas uma simulação criada por instituições ou governos cada vez mais poderosos e ubíquos?

REALIDADE VIRTUAL
Logicamente que não poderíamos finalizar o texto sem mencionar a concepção tecnológica mais marcante do filme. A Matrix é uma simulação virtual de um mundo em 3D, coisa que, em 1999, estava mais associada a jogos de computador e efeitos especiais de cinema. Hoje, isso já faz parte da rotina de muitas pessoas. Temos óculos de realidade virtual sendo vendidos nas lojas, com poder de simular ambientes virtuais em 3D tão reais, interativos e imersivos que nos fazem esquecermos por alguns instantes que estamos interagindo com um mundo falso simulado. Vale lembrar que há meros cinquenta anos, não tínhamos nem mesmo o videogame Atari 2600, lançado em 1977. Se as pesquisas demonstram que a tecnologia digital evolui de maneira exponencial, a tendência é que, naturalmente, em algumas poucas décadas, surgirá tecnologia suficiente para conectar nossos sentidos humanos a sistemas simulados de maneira tão eficiente que não consigamos distinguir realidade de simulação. Aí, para trocarmos a "chatice" da vida real pela vida simulada (como fez o personagem Cypher no primeiro filme), bastará clicar no botão. E agora, você consegue imaginar como será essa tecnologia daqui a... quinhentos anos? E a mil anos?

Há cientistas que têm certeza de que em menos tempo do que isso, teremos a capacidade tecnológica de juntar realidade virtual, inteligência artificial e interfaces entre máquina e cérebro para, enfim, criar uma verdadeira Matrix.

Para finalizar, aí vai uma pulga na orelha do leitor. Um cientista da respeitável Universidade de Oxford lançou uma publicação perturbadora sobre o tema. Nela, ele afirma que quando criarmos uma sociedade simulada em uma Matrix nossa, a tendência é que essa sociedade simulada evolua ao ponto de ela criar seu próprio ambiente simulado, como se fosse uma Matrix dentro da Matrix. Que, por sua vez, também vai criar sua Matrix e assim sucessivamente. Então, o cientista se pergunta em sua publicação: por que a nossa atual sociedade não seria uma dessas sociedades simuladas? Se esse sistema é programado para que todos os nossos sentidos nos enganem, o que provaria que já não estamos vivendo em uma Matrix? Se você conseguir responder, então, por favor, me diga, que eu já não tenho certeza de mais nada!


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