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Desserviço de um lado ou falta de acompanhamento de outro: preocupação ou dilema de pais e educadores

20 Novembro 2018 14:00:00

Em tempo de ídolos YouTubers, a nossa constante missão não é somente de 'monitorar' aquilo que os pequenos buscam na grande rede. É tempo de revisar nossos conceitos sobre acompanhamento, orientação e esclarecimento não só para o on, mas para o offline. Ou melhor, para a vida!

Liana Merladete


No último final de semana, minha missão e a do meu marido foi uma só: realizar o sonho do nosso pequeno, o André, quem já falamos por aqui, de conhecer, ao vivo, o ídolo dele e, precisamos dizer, da geração de uma gigantesca parte da gurizada. Sim, o tal Luccas Neto


Foto: Luccas Neto (YouTube)


Foto: Arquivo pessoal

Se você tem 30 e tantos anos como eu, mas não tem filhos, pode até ter compartilhado e comentado sobre os ditos absurdos de seus conteúdos ou até não saber ao certo quem é ele e confundir com o irmão, o Felipe Neto.

O último, se não falhar sua memória, vai facinho lembrar que ficou conhecido por ter um dos maiores canais brasileiros de Youtube, senão o maior em algum dos últimos rankings. Ele é aquele do antigo canal "Não Faz Sentido", e que focava, basicamente, na sua opinião sobre celebridades, cotidiano e filmes e, salvo engano, que eu lembre, geralmente desbocado, com ares bem críticos, ora cômico, para alguns agressivo e, que, trocando em miúdos, foi o primeiro "influenciador digital" a conquistar 1 milhão de inscritos no Brasil, me parece.

Fato é que o outro, o Lucas, nome de quem tivemos de ajudar a entoar o pedido "me chama para o placo" sábado, é irmão mais novo do Felipe. O então influencer - como é chamado não só ele mas boa parte daqueles que meu filho, seus filhos, afilhados, sobrinhos, netos, enfim, dizem desejar ser ao invés do bombeiro, piloto de avião, cantora, médica que nós dizíamos que seríamos - tem mais de 20 milhões de inscritos e, ao que tudo indica, descobriu um filão para seus vídeos: os nossos pequenos de 6 a 10 anos de idade.

Quando a febre começou na minha casa, eu fiz coro absoluto ao imperdoável ou, no mínimo, não aconselhável, como o desperdício de comida, o culto ao doce e aos brinquedos caros, sobretudo, que protagonizavam os vídeos do rapaz. Quem me via nesse período não me imaginaria ajudando a erguer o cartaz do André no show no Auditório Araújo Vianna em Porto Alegre, muito menos imitando a foca, que caracteriza uma das brincadeiras do astro atual ou esperando um tempão numa fila para que ele pudesse ter foto e autógrafo.


Foto: Arquivo pessoal
Entre os primeiros a chegar no auditório, André só queria erguer o cartaz feito em casa, em Santa Maria, com o objetivo de chegar perto do YouTuber e conseguir o autógrafo

Fato é que resolvemos sentar com o André e assistir aquilo que amiguinhos podiam conferir e que eu teria implicado outrora, em casa, antes de todo esse "espetáculo", há um bom tempo. E eu disse sentar, não conferir de canto de olho ou valer-se, unicamente, pelo link compartilhado no Facebook, pela filha da vizinha da prima da tia, que chegou pela outra tia no grupo da família no WhatsApp.

Sim, isso dá trabalho, eu sei. Bem mais no que proibir, não é mesmo? Um grito de "deu, eu já falei, acabou, não quero ouvir pedindo para assistir novamente", somado a uns minutos de choro e estaria acabado, sem maiores incômodos e, pronto, eu poderia voltar à cozinha para terminar a janta que, insta constar, dificilmente tenho pronta depois de um dia cheio de trabalho que, no geral, segue na madrugada, quando a casa dorme.

Optamos por entender que conteúdo o nosso filho queria consumir, dar uma chance talvez, mas, principalmente, diante do que considerávamos impróprio, esclarecer o que seria limite.

O guri de pouco mais de 25 anos que fez meu filho encher os olhos de lágrimas na capital, era um "infantilóide", que falava alto demais e só, ao meu ver. E, sinceramente, não que fosse certo, representava um mix de muitos dos conceitos de TV que acompanhamos na nossa infância, meu marido e eu.

As hoje chamadas "trollagens", direta ou indiretamente, tinham alguma coisa daqueles quadros de Faustão, misturadas com Passa ou Repassa do Gugu, acho, e, sobretudo, tinham algo de Os Trapalhões.

Não sei vocês, mas eu, honestamente, lembro da família reunida para conferir Os Trapalhões, aliás. Mas lembro, também, de piadas não recomendadas para crianças, com teor sexual e preconceituoso e até de alguma chamada clara dos meus pais para tampar os ouvidos ou sair da sala. Nunca vi algo similar no canal do Luccas. E, na internet, é fácil encontrar quadros antigos com cenas homofóbicas e racistas do Didi e companhia e, salvo engano, uma nova versão teria excluído posturas desse teor. Tomara!

Mas, voltando ao centro, o Luccas, nesse acompanhamento e, sobretudo, orientação do que era certo e errado, nós, particularmente, vimos o então guri astro crescer. A chegada ao Araújo Vianna, aliás, tinha, praticamente, a mesma histeria frente à nave espacial em que a Xuxa chegava toda manhã no Show da Xuxa. Mas, sobre o "crescimento" do Luccas eu não estou falando de número de inscritos, mas de maturidade. Muito embora, muitos classifiquem enquanto estratégia comercial.

Precisamos, enquanto pais, entender que a internet é um portal de comunicação e entretenimento - e não só isso, mas para o mundo - aberto e amplo para qualquer pessoa, inclusive para o Luccas, para os demais influenciadores e para os nossos filhos.

Reside nesse fato uma baita preocupação para pais e educadores. Mas, diante de tudo que vivenciamos e, sobretudo, pelo que viemos observando no mundo e até lendo por aqui, nesse espaço do Diário - a enorme quantidade de indústrias que vêm desenvolvendo novas tecnologias, técnicas e métodos de aperfeiçoar o que já existe; as eleições sendo decididas por redes sociais virtuais; essa coisa toda dos diferentes ramos da ciência estarem trocando informações constantemente, criando cada vez mais produtos úteis e soluções variadas para resolver os tantos problemas que temos e; em resumo, essa profusão de tempos acelerados , urgentes e apressados - não podemos achar que a internet é coisa apartada da vida dos nossos filhos. E, se assim a encararmos, desde o canal do entretenimento até o educativo, estaremos deixando nossos filhos de fora, penso eu (e estou super aberta a dialogar).

O que eu quero dizer para vocês é que eu vi um menino alterar conteúdo e estilo de vida, no que concerne à alimentação, por exemplo, ou roteiro, se assim preferirem, para adequar-se com mais responsabilidade perante o público que não só o acompanha, mas o segue, de verdade.

Eu observei a alteração do perfil de brincadeiras que considerava sem noção para mensagens de união, aceitação e amor. Eu vi a inserção de quadros focados em ciência e tecnologia, com o chamado Laboratório Maluco. Eu vi enquadramento de questões éticas e conferi, recentemente, uma perspectiva de novo projeto baseado na inclusão. Eu vi a admissão de uma série de animação - o que eu acho bem estimulante, particularmente, e o incentivo aos estudos, por exemplo.

Eu vi a mensagem de crença de que os sonhos podem tornar-se realidade. E, depois desse clipe que virou hit, eu passei para o meu filho que sim, os sonhos podem ser transformados em realidade, desde que com muito esforço. Que ele pode sonhar em ser YouTuber como o Luccas Neto ou astronauta, como ultimamente diz desejar com todas suas forças e com sua leitura de livros sobre o espaço.


Foto: Arquivo pessoal
Leitura atual de cabeceira do meu pequeno

Eu disse que ele pode ser bombeiro, médico, dentista, o que ele quiser, desde que com dedicação e respeito a todos que passarem pela sua jornada, o ensinando, trocando experiências, superando obstáculos ou compartilhando conquistas. O Luccas, ao meu ver, é uma das milhares de pessoas que passaram ou passarão pela vida dele, a quem ele precisa conhecer, entender, aceitar ou criticar, respeitosamente, hoje ou no futuro.

Explicamos ao André que o ingresso para um show com o então YouTuber famoso era caro. Que não foi barbada a mãe e o pai dele simplesmente acessarem um site e adquirirem 3 ingressos e pararem tudo para vê-lo, já que somos empreendedores e, dificilmente, temos um feriadão de verdade, sem trabalho. Contamos também que uma diversidade de crianças gostariam de estar lá, no lugar dele, e que não puderam. Ele, então, perguntou se teríamos condições dele levar, em nome delas, um presente para o Luccas Neto.

O Luccas "trollou" no show, fez umas piruetas aparentemente sem graça, se diz o Super Foca, o que é bem diferente de Capitão América, Super Homem e afins, mas também diz, nas entrelinhas, que para ser um herói não é necessário ser bonito, sarado, alto ou forte. Ele também fez questão de abraçar cada um dos pequenos fãs que ficaram grudadinhos na grade no final do show, esperando o sinal dele.


Foto: Arquivo pessoal

Se amanhã ou depois eu não observar as condutas que considero importantes, eu vou sinalizar para o André. Nós vamos dialogar com ele e explicar por quais motivos, eventualmente, esteja sendo monitorado ou tendo atração proibida, isso da mesma forma que faço hoje, por exemplo, com um canal de um menino que se intitula como "Minguado", o qual considero sem qualquer conteúdo relevante e nem vou deixar aqui como hiperlink pelo mesmo motivo.

Hoje o influencer sobre o qual atribui enquanto absurda a primeira conduta de mergulhar numa banheira de Nutella, recebeu uma segunda chance ao apresentar um livro de atividades, saindo da plataforma digital, relatando que hoje tem plena consciência da responsabilidade que assume ao se comunicar com as crianças e apontando o desejo de influenciá-las para o bem.


Fotos: Arquivo pessoal

O Luccas Neto recebeu o nosso voto de confiança ao apontar que apesar da importância que já mencionei da internet, não é preciso ficar conectado o tempo todo. Ele vem trazendo episódios que incentivam os pequenos a cultivarem outros hábitos e, ao vivo, por exemplo, deixou uma lição de organização, empatia e me ajudou a garantir a compreensão sobre a importância do prato saudável do jantar no mesmo dia.

Se ele trair a nossa confiança eu volto aqui para contar para vocês como. Por hora, só quero sugerir que participemos ou ao menos tentemos entender o mundo diferente do nosso, ao qual nossos filhos são apresentados ou como o percebem.

Só quero, respeitosamente, comentar que o YouTube, sim, desestabilizou uma então indústria de comunicação tradicional. Todo mundo pode contar suas próprias histórias. Nas nossas outras redes sociais, a do futebol, a da escola, a do trabalho, erramos e aprendemos. Em todas elas, quando temos nosso maior tesouro como parte, tem - ou ao menos deveria ter - um olhar atento e zeloso de uma mãe, de um pai, do responsável. Precisamos fazer o mesmo nas redes sociais virtuais.

E, sim, podemos ou até devemos, usar ferramentas de controle parental para monitorar crianças. Tem aplicativos para isso. Olha só, clica aqui!

Outro ponto bem interessante é pensar nos tais novos ídolos como profissionais. Diferente do que muita gente pensa, nem tudo é festa para os novos milionários, como possivelmente, em algum momento, não deve ter sido para a Xuxa, Sérgio Malandro, Mara Maravilha e sei lá quem mais.

Sabemos que são os donos dos maiores canais no YouTube, mas o que nem todo mundo fala é que, justamente por isso, crescem os diálogos - felizmente -, entre profissionais da Comunicação e Tecnologia, como nós, entre educadores, familiares, no universo corporativo e justiça, para delimitar o que eles podem fazer.

O G1 nos contou recentemente reações que me inspiram certa confiança, por exemplo:

  • Júlio Cocielo, outro entre os YouTubers mais seguidos do país, foi criticado e perdeu patrocínios com frases vistas como racistas.
  • No início deste ano, o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) advertiu os próprios já citados irmãos Neto por publicidade velada. Esse ponto aqui é bem interessante para os leitores que são estudantes de comunicação estudarem, diga-se de passagem.
  • Discute-se em órgãos públicos a necessidade de classificação etária indicativa em vídeos na internet, como há no cinema e TV.
  • Uma das reações do Google é investir no YouTube Kids, versão para crianças, mas mesmo lá há vídeos com conteúdo questionado.

Sobre esse último ponto, eu que ia, justamente dizer para preferirem o YouTube Kids, quero dizer, agora que, ok, é verdade. Já até falamos por aqui que o Google lançou um aplicativo gratuito em 2016 que é projetado especialmente para as crianças, esse então Youtube Kids, que funciona de forma bem parecida com o Youtube tradicional. A diferença é que os pais têm o primeiro acesso, podendo configurar os conteúdos a serem vistos pelos filhos, o que é bem legal.

Mas eu preciso terminar dizendo o que parece simples ou básico. Mas é, de verdade, o mais importante: conversemos com os nossos filhos.

Conversando, nós, por aqui, curtimos muito sair da rede e conhecer o Youtuber que faz essa criançada chorar, pular e gritar. Mas seguimos tendo duas palavras de ordem sobre: assistir e orientar. Obedecer a todas as regras não significa perder a diversão.


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