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As outras vítimas da moda

21 Abril 2018 16:34:00

Colunista explica os principais prejudicados na cadeia produtiva da moda e apresenta alternativas de hábitos conscientes


Na coluna anterior Vítima da moda, eu?, relatei sobre as motivações de consumo e os apelos que nos seduzem no circuito das tendências. O texto de hoje, ao contrário, quer chamar a atenção para as vítimas reais das engrenagens da moda. Trata-se de um alerta. Mais do que isso: trata-se de um apelo.

Gostaria que você parasse um pouco para refletir sobre as roupas que veste, as pessoas que as fabricam e o impacto dessa produção no planeta. A indústria da moda é a segunda mais poluente na Terra, perdendo apenas para a do petróleo. Opera no sistema conhecido como "Fast Fashion" (Moda Rápida), cujo princípio é gerar lucro para grandes empresários com base na circulação rápida de novidades, em preços baixíssimos e no descarte. O lixo têxtil acumulado por ano ultrapassa 11 milhões de toneladas apenas nos EUA. E a maior parte não é biodegradável, ou seja, ficam nos lixões por 200 anos ou mais enquanto liberam gases perigosos no ar. 

Foto: True Cost (reprodução)

Quem nunca parou para questionar por que algumas peças de vestuário têm preços tão baixos, deveria fazê-lo. Qual é o custo desse preço baixo? Sob a vantagem de pagar pouco ou economizar, milhares de pessoas de países pobres ou em desenvolvimento pagam penas altíssimas. E junto com elas, o meio ambiente. Entre os custos estão rios poluídos, solos e recursos naturais esgotados; operários (principalmente mulheres) trabalhando em condições degradantes, com tratamentos violentos e salários de miséria; fazendeiros cultivando fibras de algodão expostos a aditivos químicos que os fazem adoecer junto com suas famílias. 

O documentário True Cost (Custo Real), de 2015, desvenda dinâmicas cruéis dos bastidores dessa cadeia produtiva pelo mundo, onde morrem milhares de trabalhadores. Sim, milhares. Sugiro que você invista 90 minutos para conhecer essa dura realidade, avessa do suposto glamour da moda. É grave, é alarmante, e nos dias atuais não dá pra achar que isso não tem nada a ver com a nossa vida. 


Devemos dar um passo para trás, discutir e questionar o mercado da moda, sem olhar apenas para o produto final ou para o visual que nos encanta. O que a gente compra e descarta impacta os recursos ambientais em nível global. As empresas deveriam cumprir suas obrigações sociais em prol da sustentabilidade, mas cada um de nós também tem responsabilidade nisso. 

Precisamos pensar mais coletivamente, desacelerar o consumo, evitar aderir completamente a essas grandes lojas de departamento para tentar frear a exploração injusta e ostensiva de pessoas e do meio ambiente. É imperativo que mudemos os modos de produzir e de consumir, que experimentemos sistemas alternativos. Mas por onde começar? O que está ao nosso alcance? 

Cada um de nós tem possibilidades de contribuir, começando por refletir e incorporar hábitos de compra mais conscientes. Vou destacar 5 iniciativas possíveis para a sustentabilidade da moda no nosso cotidiano: 

1. SEGURAR OS IMPULSOS 
Antes de adquirir uma roupa, cabe uma avaliação: realmente preciso disso?, a fim de evitar supérfluos e acúmulo. Uma boa dica é tentar imaginar quantas vezes a peça será usada. 

2. ENTENDER OS CUSTOS DA FABRICAÇÃO DAS ROUPAS 
Antes de eu começar o curso de costura, eu não podia imaginar o trabalho que dava aplicar um zíper em uma calça. Você tem ideia de quantas pessoas se envolveram na fabricação de um jeans básico? Alguém extraiu algodão, modificou o meio ambiente, houve fiação, tecelagem, transporte, venda de tecido, design, modelagem, costura e comunicação. É um processo extenso, de muito trabalho. Tendo consciência dos investimentos materiais e pessoais envolvidos, é possível admitir o preço de um produto e, ainda, a importância das marcas nacionais e daquelas mais artesanais. 

3. INFORMAR-SE PARA COMPRAR COM COERÊNCIA 
Comprar com coerência é reconhecer que temos responsabilidade acerca dos impactos que a nossa compra gera. Peças de qualidade duram mais, retardando o descarte e, assim, a poluição. Além disso, existem marcas éticas e preocupadas com o meio ambiente, nas quais devemos apostar cada vez mais. É importante conhecer as empresas locais, de produtores e criadores próximos de nós; e pesquisar sobre a origem das matérias-primas empregadas. Há a opção de investir em empresas com linhas de roupas feitas a partir de fibras orgânicas, livre de pesticidas ou agrotóxicos. 

O consumo consciente leva em conta outros critérios além dos estéticos: qualidade, conforto, durabilidade, responsabilidade da empresa fabricante. O aplicativo MODA LIVRE é um ótimo espaço para identificar as varejistas de roupas do país com processos transparentes de fabricação e/ou para estar ciente daquelas que já foram flagradas em casos de trabalho escravo. Baixe o app, você vai se impressionar. 

4. REAPROVEITAR, PERSONALIZAR E FAZER VOCÊ MESMO 
Ajustar ou pregar o botão que caiu, bem como resgatar a costura sob medida, por exemplo, são iniciativas positivas. Os brechós e as feiras de desapego também são alternativas importantes. 

Ainda é possível customizar com detalhes ou recortes as suas próprias peças ou, transformar uma peça em outra, reaproveitá-la, conferir novos usos para algo que seria descartado e assim, dar continuidade ao seu ciclo de vida. Este movimento, denominado "upcycling", é uma das principais tendências da moda sustentável. 

5. PARTICIPAR DA FASHION REVOLUTION 

Existem diversos projetos que alertam para a necessidade de repensar toda dinâmica da cadeia produtiva da moda, de valorizar a transparência dos processos de produção, de conhecer quem está por trás das nossas roupas. É o caso do Fashion Revolution, que de 23 a 29 de abril promove a Semana de Conscientização pelo Brasil e pelo mundo, celebrando os trabalhadores da indústria da moda. A campanha solicita a cada um de nós que mostre as etiquetas das roupas e pergunte às marcas #quemfezminhasroupas? O evento de 2018 retoma o desastre da queda do edifício Rana Plaza, em Bangladesh, que matou 1129 operários em 24 de Abril de 2013. 

E aí, vamos agir coletivamente? Pensar, questionar e refletir? Incorporar aos hábitos de consumo algumas das iniciativas sugeridas? Fazer isso é considerar o componente mais importante por trás do processo de fabricação das nossas roupas: as pessoas. É não se omitir ao drama vivido diariamente por agricultores, modelistas, costureiros e suas famílias. São as vítimas ocultas da moda. Que a gente consiga ajudá-las consumindo com mais responsabilidade. Estou empenhada. 

Se quiser ler mais sobre moda e movimento, maternidade possível e dilemas da meia-idade, me acompanhe todos os dias no Instagram:@hinerasky 

Até logo!

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