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cultura

Ver, rever e ressignificar

23 Fevereiro 2018 18:08:00

Colunista fala sobre os diferentes significados que a arte pode ganhar ao ser revista


Foto: Leonardo Roat (Arquivo Pessoal)

Acredito que muitos que irão ler esse texto tenham essa mesma "mania". Mas caso não tenham, acredito que seja uma "mania" interessante pra se ter. No mínimo uma coisa boa pra começar a fazer. 

Não sei se vocês tem o hábito de reler livros, assistir filmes novamente, (re)olhar fotografias, ou ouvir de novo álbuns inteiros de música.

Esse costume faz parte da minha rotina. Por questões pessoais e profissionais. 

Do lado pessoal, geralmente é por pura satisfação. Muitas vezes me pego parado em frente a prateleira, olhando as coisas que tenho. 

Acho engraçado quando dou por mim e me percebo com cara de pateta em frente a estante procurando algo. Fico gastando um bom tempo tentando entender o que estou sentindo e o que quero rever. 

É um momento interessante e, por diversas vezes, divertido. Tentar descobrir como estou sentindo e equalizar essas sensações com as possibilidades que já disponho a mão, seja para confirmar o que desejo ver e ouvir, ou seja para ser surpreendido nas linhas e melodias que já conheço. 

Normalmente sou surpreendido em minhas próprias escolhas. A verdade é que sou surpreendido com as coisas que saltam aos olhos naquilo que escolhi e já "conheço". Noventa e nove por cento das vezes é assim. Deixem-me explicar porque acredito que seja assim. 

Descobrir humores e sentimentos em obras que já conhecíamos e que não atentamos para eles quando as lemos/vimos na primeira vez, mas que já estavam ali quase que à nossa espera, é algo sensacional. 

Quando frases, cenas ou harmonias, nos saltam aos olhos e ouvidos, gerando um prazer pela descoberta de forma indescritível, é que percebemos o quão fantástico é o poder da nossa capacidade de conexão e diálogo com o mundo que está ao nosso redor. 

E o quão intenso são as coisas que vivemos diariamente, como elas nos influenciam e como muitas vezes não nos damos por conta disso. 


Até as coisas mais ordinárias da nossa vida podem ser como filtros ultra potentes que alteram as percepções das realidades que lidamos. Imagina então o quanto não alteram nossas percepções nas obras que já lemos ou assistimos. 

Por isso, percorrer caminhos "conhecidos" é sempre percorrer caminhos desconhecidos. Nós mudamos, e junto, tudo muda com a gente. Isso sem falar de memórias e movimento, pois, como diriam os poetas, "a memória é uma ilha de edição" e basta "um passo a frente e não estamos no mesmo lugar". 

Então, partir para uma descoberta em um caminho em que já se conhece, os desfechos, ao meu ver, são sempre uma aventura fascinante. É também uma das formas consistentes de ampliar o repertório cultural, social, emotivo. 

Afinal, o nosso estado de espírito é que irá colocar camadas e mais camadas de outros significados. Somos aos outros, tantos já deixados pelas pessoas que compuseram as obras. 

(Re)conhecer estas obras é fazer com que as palavras, sons e cenas sejam outras possibilidades de ressignificação junto com o que estamos sentindo nesse período da vida em particular. 

Mas também, antes de mais nada, é abrir outras portas para nossa capacidade de comunicação e relacionamento com o mundo. Portanto, reconectar-se com obras que já tivemos contato é uma outra e potente forma de produção de sentido, de produção de vida. 

É uma viagem no tempo, é uma viagem em si mesmo. É perceber como o tempo se desloca, e como viajamos nele, e com ele, e em nós. 

É dar outra vida, na vida que já conhecíamos, é descobrir-se outro, tal qual toda vez que nos olhamos ao espelho e notamos algo diferente em nossa face. 

A única coisa requerida para que este movimento aconteça é estar atento. Mas também é preciso deixar-se levar, sem forçar pressupostos pelo que já tínhamos sentido outrora. 

O outro motivo pelo qual revejo, releio ou escuto novamente várias coisas é pelo lado profissional. Pois, além do lado sensível de olhar e deixar-me tocar pelo material já produzido, olho com atenção todos os detalhes que consigo captar e deixei passar na primeira ou na segunda vez que vi uma obra. 

Muitas vezes assisto com foco no lado técnico, no desenho de som, ou nos atores, direção ou fotografia. A partir daí pesquiso os nomes dos créditos, ou descubro como realizaram ou criaram técnicas diferentes que chamam a minha atenção. 

Foto: Leonardo Roat (Arquivo Pessoal)

Enfim, é uma forma de continuar estudando constantemente, e obviamente, de continuar surpreendendo-se com a criatividade humana (especialmente quando você descobre os detalhes envolvidos na realização de algum feito). 

Quase todos que conheço e que trabalham com tarefas que envolvam criatividade tem esse hábito. Mas muitos outros amigos que trabalham em áreas de atuação mais "exatas" também amam rever seus livros e afins. 

Assim como descobrir coisas novas é evidentemente importante, por inúmeros motivos, dar oportunidade pra livros, discos, fotos e filmes que já estão na nossa vida e memória é um modo de ser encantado por maravilhas também inéditas em nossa sempre mutante percepção. 

Acho que vale o risco, o salto no desconhecido pra quem não fez isso ainda. Vá até a estante e escolha algo que faz um tempo que você não vê, lê ou ouve. O espantar-se nesses caminhos "conhecidos" com certeza será arrebatador. 

Até o próximo encontro.

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