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cultura

Ainda estamos aqui

Colunista Camila Vermelho fala sobre as transformações e acontecimentos que moldam a arte no Brasil


23 de junho de 2019. Santa Maria. Rio Grande do Sul. Brasil. Como sempre e inevitavelmente, o tempo transcorre seu decurso. E, desde o dia primeiro de janeiro, já se passaram seis meses. Agora, chegou a terceira estação do ano, o Inverno.

Tal como as mudanças na natureza, com a passagem dos dias, das noites e das estações, muitos acontecimentos pontuais transformaram e continuam transformando a linha do tempo da arte e da cultura no país. Transformações as quais, inclusive, já foram temas nesta coluna de cultura.

Foto: Calixto Bento
Irina Chernobyl apreciando a obra da escultora Valquíria Navarro

Mas, desta vez, gostaria de falar sobre quem está aqui. Sim, quem está aqui. Em todos os lugares. Ao mesmo tempo. Em todos os tempos. Afinal, quem está aqui? Uma pergunta genérica, não? Se você, que lê esta coluna, pudesse responder, como seria a sua resposta?

Então, para princípio de conversa, inspirada no artista visual franco-argelino Jean Lancri (1936), vou depurar a pergunta. Como artista em constante pesquisa e formação, gostaria de saber quem está aqui, quem continua aqui, produzindo, trabalhando, apesar de todos os pesares. Mesmo que o presente histórico e político do Brasil esteja imerso numa torrente líquida, em desconjuntamento e amorfa.

Foto: Stéfani Agostini
Obra "Figuração II", de Stéfani Agostini

Para responder a tal pergunta, escolhi um interlocutor, claro. Alguém que admiro e que pode fazer eco a diversos e diversas artistas. Ele, que vive e entende sobre arte não somente enquanto realizador, mas também como historiador e crítico: o artista visual Daniel Signor.

O Daniel, assim como eu e outros e outras artistas, cursamos o Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da UFSM, o PPGART. Num momento bastante desafiador, visto que as pesquisas em arte - aliás, as pesquisas como um todo - têm sido desvalorizadas e até mesmo rechaçadas pelo discurso e pelas práticas governistas no país, segundo argumentos que sequer podem ser considerados argumentos. Afinal, entre os anos de 2011 e 2016, mais de 95% das pesquisas científicas desenvolvidas no Brasil têm origem nas universidades públicas, de acordo com a Academia Brasileira de Ciências. Ou seja, as universidades públicas estão com a produtividade em alta, e não ociosas.

Embora a pesquisa em artes seja diferente das pesquisas que são desenvolvidas nos cursos de engenharia, por exemplo, é preciso salientar que esse tipo de trabalho não somente parte de questões artísticas, culturais, econômicas e políticas. Mas também tem o compromisso e a responsabilidade com a sociedade na qual os pesquisadores e as pesquisadoras se inserem. Em outras palavras, a pesquisa em artes é, ao mesmo tempo, uma análise e uma busca por soluções criativas para se pensar a sociedade de outras formas. No caso, formas artísticas.

Mas, retomando a interlocução com o artista Daniel Signor e a pergunta sobre quem ainda está aqui, ele respondeu com uma frase do artista plástico russo Wassily Kandinsky (1866-1944): "Toda arte é filha de seu tempo, e muitas vezes, a mãe dos nossos sentimentos".

Foto: Calixto Bento
Irina Chernobyl interagindo com a obra de arte generativa de Calixto Bento

A propósito da nossa conversa, também falamos sobre uma exposição coletiva, que tem tudo a ver com a pergunta anterior, a exposição intitulada "Ainda Estamos Aqui". Uma curadoria e coordenação da artista visual e pesquisadora, a professora Drª. Sandra Rey. Esta exposição é o compartilhamento público de trabalhos em processos de criação, oriundos de pesquisas em andamento, debatidos a partir da disciplina de Poéticas Visuais na Arte Contemporânea, ministrada pela Sandra Rey, professora visitante do PPGART.

Arte: Calixto Bento

E, tomando as palavras de Daniel, sobre a exposição, ele disse:

"A exposição, embora pautada no princípio de um trabalho acadêmico proposto, tem potencialidade para dialogar para além das paredes do cubo branco (da sala de exposições). Remete ao estado da arte e ao momento pelo qual esta passa, como um todo mesmo na sua singularidade. É possível apontar questões que vêm de encontro não apenas à contemporaneidade da arte em que se aloca, mas também instaurando diálogos que dizem respeito à atualidade de modo geral.

Tais mecanismos de comunicação se fazem perceptíveis e, nota-se aqui, a já muito comentada passagem da era de consumo para a era da comunicação, da estética à poiética. E, nestas práticas de comunicação, umas dizem respeito à ideia que a sociedade faz de si mesma, à ideia dominante e, nesse sentido, alguns conceitos desempenham papel fundamental, criando uma síntese pela qual a realidade se faz ver. Já outros dizem respeito aos domínios particulares, que a aura da comunicação transforma de maneira distinta, como é o caso dos domínios das artes visuais".

Ou seja, a exposição "Ainda Estamos Aqui" é uma realização que pulsa no coração do presente histórico brasileiro. Feita por artistas pesquisadores e pesquisadoras, os quais e as quais, de acordo com suas linhas de pesquisa, desenvolvem suas obras. Pessoas com trajetórias pessoais, mas também coletivas. Pessoas que têm nomes: Camila Vermelho, Camila Nuñez, Camila Zappe, Calixto Bento, Crystian Castro, Raul Dotto Rosa, Stéfani Agostini, Valquíria Navarro e, ainda, Daniel Signor.

Foto: Calixto Bento
Performance 'Aniversário e Velório de Brumadinho', de Camila Vermelho

Cada artista com uma poética, um pensamento, uma arte filha de seu tempo e mãe de nossos sentimentos. De pessoas que ainda estão aqui. Afinal, ainda estamos aqui! Para quem quiser saber quem ainda está - e estará - por aqui, a exposição ficará aberta até o próximo dia 28 de junho, na Sala de Exposições Cláudio Carriconde, no Centro de Artes e Letras da UFSM, Campus Camobi. Com entrada franca e classificação etária indicativa livre.

E, continuando a estada por aqui, o decurso da vida continuará, com o Seminário de Pesquisa Poéticas Visuais na Arte Contemporânea. Com muitas pesquisas e arte, até que se complete o decurso dos próximos seis meses e se encerre mais um ano!

Arte: Calixto Bento

E, ao final de mais um ciclo de gestação e parto de uma coluna, gostaria de compartilhar uma reflexão da Sandra Rey, a propósito da exposição "Ainda Estamos Aqui" e sobre a Arte Contemporânea:

"Essa mostra pode ser considerada como um gesto artístico e também político, e propomos que seja apreendida muito mais propriamente numa dimensão poiética que estética, isto é, o que compartimos aqui são os caminhos e descaminhos de pesquisas em andamento, enquanto estas ainda estão se fazendo, no calor do aqui, agora. Maneira nossa de ser contemporâneo, pensando a contemporaneidade juntamente com Agamben (um dos autores estudados no semestre): como uma singular relação com a próprio tempo, na medida em que se adere a este e, ao mesmo tempo, dele se toma distâncias, numa relação através de dissociação e anacronismo". 


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