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cultura

A arte de não se trair

02 Novembro 2018 16:01:00

Em sua estreia como colunista do Diário, Camila Vermelho propõe uma reflexão sobre a nossa relação com a arte


Não é difícil encontrar nas livrarias, sejam elas físicas ou virtuais, exemplares de livros e de revistas que prometem revelar "os segredos de artes" como a arte do sucesso, a arte do amor, a arte de falar bem em público, a arte da boa forma, a arte da gastronomia, a arte da arte, etc, etc e etc. São tantos títulos que a humanidade parece não carecer de um vasto índice de soluções milagrosas. Parece que temos respostas para tudo. 

Mas será que a arte, por si só, já não seria uma boa sugestão de leitura de mundo? A arte enquanto caminho, não como resposta. A arte que vem da experiência e, sobretudo, dos questionamentos, da reflexão, das trocas, da escuta e de se permitir afetar pela história do outro. A arte sem segredos e sem milagres, não feito uma bula, já que não é uma farmácia para vender remédios. E, disso tudo, a arte que emerge da infinidade de possibilidades que a existência impõe diante dos nós. Sem que qualquer "segredo" possa ser revelado, visto que a vida cria problemas, reinventa-se e responde com criações e criaturas que destroçam os inocentes segredos de revista. 

A arte, em suas diversas manifestações, tem a capacidade de chegar às pessoas para além da racionalidade. Claro que ela não surge do nada e é movida por pensamentos, pesquisas, trabalho, rotinas e de certa disciplina em seus processos de criação. Arte não é somente inspiração, embora dependa dela. Porém, feito um relógio de cristal - que tem por fim mostrar as horas, mas acaba por revelar as suas engrenagens, ocultando-as ao mesmo tempo - a arte se constrói de formas múltiplas e também é fruída de tantas outras, até mesmo de forma desgovernada e imprevisível. O seu ritmo no tempo, para além dos ponteiros do relógio de cristal, desperta movimentos, polêmicas, reações das mais ponderadas às mais apaixonadas. 

Talvez, por isso, a arte incomode. Através do afeto, ela pode relativizar as certezas, os lugares das pessoas, os discursos estabelecidos, os sistemas organizados e mais rígidos. E, assim, ela também pode trazer desconforto, denunciar, pois ela presume processamentos nos seus consumidores, experiências. Afinal, quem nunca se colocou no lugar de um personagem num filme ou num espetáculo teatral? Ou vivenciou sensações diferentes dentro de uma instalação de arte e tecnologia? Ou, por que não, passou a explorar outras zonas auditivas através de áudios disponíveis no Youtube? 

Fotos: Dartanhan Baldez Figueiredo (Divulgação)
Imagens do experimento de transmídia em rádio e performance "Para acabar com o juízo", de 2017, com direção e atuação de Camila Vermelho e Priscila da Rosa e Rafael Lima de Paula.

Ou seja, arte não é para passar indiferente. A arte emancipa, desperta a capacidade de se ter empatia, humaniza-nos e pode nos tornar pessoas mais críticas e menos suscetíveis às armadilhas dos "segredos das artes". Ou, quem sabe, fazer com que sejamos mais francos com nossas incoerências e, por mais polêmico que possa soar escrever isto, fazer com que percebamos algumas páginas ridículas das nossas performances cotidianas. E, para isso, não há diagramação e photoshop que salvem! 

Eu sei. Quando tudo parece extremo, pesaroso, sem saída e sem esperança, é muito sedutor recorrer aos "segredos" prontos e pasteurizados, vendidos aos fardos. Mas, como já ouvi tantas vezes de muitos amigos, não há problema que seja impossível de ser resolvido e, se existe, é porque devemos nos debruçar sobre ele, pois fala sobre nós. E, aí, a arte pode indicar caminhos, feito aquele amigo verdadeiro que não é complacente, mas que está ali para ajudar a atravessar as estradas irregulares. A arte sobrevive de problemas e transforma-os em soluções poéticas. Não em "segredos" que simplificam o poder que temos em gerir as nossas próprias limitações. 

Bem, percebe-se que sou bastante cética com aquilo que parece absoluto e simplificador demais para as nossas vidas. Logo as nossas vidas, que são tão cheias de meandros, encontros e que têm um potencial gigantesco de transformação, tanto para o bem quanto para o mal. Mas, se a mim fosse conferida a missão de escrever um livro compartilhando o que posso oferecer de melhor para o mundo, eu falaria sobre a arte de não se trair. Não como um segredo, mas sim como um convite. 

Para que as pessoas vivam suas vidas intensamente, que confiem mais nas suas intuições, que entendam que cada dia é um dia, que a resistência nos habite sempre, e que, lá no fundo das nossas páginas ridículas e incoerentes, existem vidas que não se podem trair e se deixar seduzir pelo esquecimento de si mesmo. 

Mas, quem diria, posso escrever aqui! Pela arte de não se trair! E pela necessidade e a urgência da arte, apesar de todos os ataques que sofre! Como com o teatro na organização da antiga sociedade grega, em que se pautava a existência de um povo. Diga-se, o lugar berço da Filosofia, da História, do Direito, da Matemática, do teatro e de toda uma influência que chegou até nós hoje! Evoé!

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