cultura

A arte de criar esconderijos

Colunista Leo Roat fala sobre a arte de se esconder e o encantamento do momento da descoberta

Leo Roat


O que você esconde?

O que escondem de você?

O que a arte esconde?

O que esconde um artista quando tenta fazer arte?

O que se revela no que está escondido?

A arte nos fala pelo que nos mostra e, também, pelo que esconde.

O dito e o não dito. O não dito percebido por entras as frestas do que foi dito.

Há que estar atento. Mais que ver além, ver dentro.

O escondido carrega um perfume secreto. Percebido pela sensível coragem de quem se entrega, de quem se põe a procurar além das aparências.

Ou de quem em um relance percebe mais que o óbvio e se põe, a partir deste momento, espiar. E examinar as muitas camadas que compõem o objeto que impactou.

O escondido pode estar no que se considera complexo, mas também se apresenta no simples.

Deparar-se com uma obra de arte é por muitas vezes ser impactado pelo que está lançado aos nossos sentidos. Ao que está posto. É e sempre será ser movido por pelo que está ali na nossa frente.

Porém, muitas vezes é justamente o contrário. É ser sensibilizado pelo que estava escondido.

Somos impactados tanto pelo que já estava lá, quanto pelo o que descobrimos. O artista quis esconder aquilo? Ou queria que eu descobrisse? Será que ele pensou sobre isso? Queria ele deixar isso invisível e eu descobri? Será que foi somente eu quem viu isso?

Perguntas que podem soarem estranhas, mas que fazemos sem perceber quando somos arrebatados pela arte. E assim, conversamos com ela, conversamos com outro ser, em outro tempo-espaço.

Descobrir um esconderijo, descobrir coisas escondidas é ser tocado pelo que não se sabe, pelo que não se viu e não se ouviu em superfícies rasas. E depois da revelação, é seguir com um sussurro que fica impregnado em nossas mentes.


Foto: Pixabay 

Esconder algo ou descobrir o que estava escondido inquieta, e, justamente por inquietar, marca.

O esconder e o descobrir arquitetam narrativas profundas, diálogos emudecidos de nós para nós.

Nunca são simples, nunca são fáceis.

Descobrir esconderijos, é encontrar lugar para voos.

Esconder-se em algo, em alguém, ou descobrir-se em algo ou alguém é investigar mais do que auto-ficção. É metaforizar-se.

Esconder e descobrir têm diferenças enormes, mas são constituintes fundamentais de todos os sujeitos. E assim, de toda a arte.

Esconder, como quem tenta apagar, ou como quem joga, esperando ser descoberto é tentar modificar o imaginário que temos das coisas, de nós. E a arte tenta isso. Pois somos mais do que supomos que somos.

Muito do que nos impactou em arte, ao longo de séculos, foi sedimentado, criado, ou se fez sentir pelo que se tentou esconder.

A arte sempre utilizou esse jogo duplo de expor e encobrir para compartilhar sua potência. 

Perceber o que está escondido ou é revelado, apresenta a urgência do que nos constitui, do que está à nossa volta. Abre caminho para no conectarmos uns com os outros e sairmos desse isolamento tão singular aos nossos tempos. E não seria essa umas provocações mais importantes da arte? Transformar o estado das coisas?

Que nossos poetas, nossos artistas, exponham e escondam muitas coisas. Que abram frestas nas paredes de aço para nos revelar símbolos e espelhos, ao mesmo tempo tão íntimos e tão desconhecidos.

Que o encantamento do momento da descoberta, ou a serenidade do eclipsar vindo por meio da arte nos salve da realidade.

Mais ficção, e amor, por favor.

Até o próximo encontro


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