colunistas do impresso

Vidas trans importam

Nada justifica tanta violência. Vidas trans importam. Descansem Carol e Mana

É triste pensar que Santa Maria reforça nosso título de líderes no ranking mundial de assassinatos de pessoas trans. O relatório do Grupo Gay da Bahia sobre mortes violentas no Brasil aponta que, em 2018, foram registradas 420 mortes motivadas por LGBTfobia. Os dados revelam que, desde 2001, houve aumento significativo de mortes motivadas pelo preconceito. Os assassinatos em decorrência da transfobia, até junho de 2019, já somam 123 casos.

Muitas vezes ouvimos, em tom de explicação, que as travestis estão nas ruas se prostituindo ou fazendo bagunça e, portanto, "quem está na chuva deve se molhar". Considero necessário refletirmos mais profundamente sobre os motivos que as levam para as avenidas. Importante pensar sobre as razões que deslocam as pessoas trans da família e escola e as transportam para as esquinas. Quando se descobrem trans (sim, não se escolhe ser), começam os problemas. Esse momento, geralmente, coincide com a fase da pré-adolescência e adolescência.

É exatamente nesse período que os lares rejeitam e as instituições de ensino apresentam dificuldades em lidar com o assunto. No ambiente escolar, ir no banheiro já é um problema para as trans. No toalete das meninas sentem-se rechaçadas e no dos meninos, muitas vezes, violentadas. Quando começam as primeiras piadas e agressões nos pátios e salas de aula, os professores chamam os pais. A família, que, teoricamente, tem a função de proteção, muitas vezes fortalece o desprezo. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) prevê a articulação das famílias e escolas no sentido de participarem ativamente da formação de seus filhos. Entretanto, os relatos evidenciam que tanto família quanto escola, por não compreenderem sua diferença de expressões de gênero, não lutam pela sua defesa.

Muitas, ao serem expulsas de casa, buscam pares para a construção de um novo lar. Em Santa Maria, por exemplo, existem pensionatos de travestis. A maioria advinda de outros municípios e estados. Querem distância de locais onde foram rechaçadas. Evitam o convívio com parentes. Todas com relatos dolorosos de abandonos semelhantes, envolvendo instituições que deveriam ser abrigo.

Sem escolaridade e a proteção do ninho, para onde vão as trans? Como resistir? A rua aparece como uma escolha quase inevitável para sobrevivência. No entanto, as esquinas que as acolhem apresentam riscos. Importante lembrar que enquanto a expectativa de vida no Brasil está em torno de 75 anos, as pessoas trans, devido suas dificuldades de se inserirem efetivamente na sociedade formal, apresentam expectativa de vida em torno de 35 anos. É desumana esta situação. Esse foi o caso dessa semana, quando a Carol foi morta com um tiro e a Mana com 12 facadas. O exemplo da Carol é típico do que acontece no país. Um rapaz, que transitava na madrugada, fez sinal e ela aceitou o convite. Ao virar as costas para as amigas e seguir com o cliente, após breves minutos, levou um tiro fatal. Tinha 27 anos. Como a família era do Mato Grosso e demoraria o translado, as 'manas' (como são chamadas as amigas do pensionato) reuniram-se para arrumá-la pela última vez. Após a maquiagem, escolheram carinhosamente vestido e sapatos novos. Ficaram aliviadas com a notícia de que não abririam mais o caixão, seguras de que seria enterrada como gostaria de ter vivido: como uma linda mulher.

Em tempo: agradeço as escolas e professores de Santa Maria que procuram espaços de debates e atualizações sobre o tema, visando o acolhimento de seus estudantes. Nosso abraço mais carinhoso aos familiares que, por meio do amor, conseguem compreender as diversidades.

Nada justifica tanta violência. Vidas trans importam. Descansem Carol e Mana, continuaremos aqui, unidas e lutando por justiça.


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