colunistas do impresso

Transcendência e necessidades vitais *

Hoje, cigarro não há. Já se vão três anos e meio do dia em que nos apartamos sem brigas, sem choros nem lamentações

Como tem acontecido com frequência nos últimos dias - enquanto sorvo, com o necessário vagar, hoje a taça de uma loira cremosa e adequadamente gelada, outros dias, quando o frio aperta, uma taça de tinto honesto e não metido a besta -, lá fora chove neste início de madrugada. De mais uma das tantas madrugadas que atravessarei escrevendo, lendo, estudando ou simplesmente pensando na vida e seus mistérios.

Durante muitos anos, nesses meus madrugares, tive a companhia, ora instigadora ora calmante, de um maço de cigarros, que ia se transformando, como as horas, em fumaça e indagações filosóficas ou poéticas. Nada, certamente, capaz de abalar convicções de quantos aproveitam as madrugadas para dormi-las, mas, de qualquer modo, suficientes para me fazerem viajar pelo cosmos e no tempo em busca de mim mesmo.

Hoje, cigarro não há e já se vão três anos e meio do dia em que nos apartamos sem brigas, sem choros nem lamentações. Separação consensual. Separação que não quero transformar em divórcio, porque este me dá a ideia - mesmo quando pacífico e civilizado - de que as coisas são "para sempre". E "para sempre" é muito tempo, é exagero. Deixa ficar assim, na separação. Se uma noite dessas, em festa familiar ou entre amigos, me der vontade, dou "um pega" no cigarro de alguém e volto zerado à distância do alcatrão e da nicotina. Será como um beijo furtivo - apenas um beijo - na mulher que já foi nossa amada e de quem nos separamos consensualmente. Fosse divórcio, beijo não haveria. Haveria, no máximo, um roçar de mãos, o resfolegar de dedos trêmulos ou, no caso, uma carícia disfarçada no cigarro que queima no cinzeiro alheio.

Pensando nessas coisas, é inevitável cogitar também que na vida que há lá fora, além dos muros da minha casa, a humanidade, com suas visões de mundo, dorme e sonha com tempos melhores e labuta para que isso ocorra. Em nosso país, por exemplo, vivemos a festa da Copa e nos dividimos entre os que torcem pela Seleção e os que torcem para que o país se ferre, mas pegam uma beirada na festa. Assim, somos nós.

Mas não vou falar da copa, pois foi dela que me ocupei nas últimas crônicas e não quero me tornar ainda mais repetitivo. Só agora me dou conta de que a chuva cessou. Vou aproveitar para dar ração para Penny Lane e para Meggy, minhas "border collies", que ainda não comeram. Elas têm necessidades bem objetivas. Como a maioria das pessoas, que quer casa, comida, trabalho, saúde e segurança e é pouco afeita à transcendência e às indagações (etílico)poéticas, para mim, tão vitais quanto aquelas.

*Eu estava procurando um texto meu que me reportasse ao ano em que parei de fumar. Achei a crônica a cima, do final de junho de 2014, que fala disso e de coisas que permanecem redundantes, como nossas chagas sociais. Agora, agravadas pela incúria governamental em relação à Covid-19. E as madrugadas continuam insones, menos etí-licas mas com as mesmas angústias e indagações. Ao cigarro, é certo, não volto, já em relação às libações não há certezas. Ah, a Penny Lane se foi e resta Meggy, já com duas cirurgias para extirpação de tumores cancerígenos. Pena que não possamos extirpar de vez os cânceres que corroem nossas esperanças e comprometem nossa sobrevivência.

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