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Samba de uma nota só

Por onde quer que se olhe, tudo parece convergir para uma só pessoa.

"Eis aqui este sambinha feito numa nota só

Outras notas vão entrar, mas a base é uma só ..."
(música de Tom Jobim)

Na época da ditadura militar, mais precisamente em 1968, ano do famigerado AI-5, o jornalista Sérgio Porto, mais conhecido como Stanislaw Ponte Preta, compôs o famoso "Samba do Crioulo Doido". A letra da música, que espelhava o contexto social daquela época, falava da história de um compositor de sambas-enredo que sempre obedeceu ao regulamento e só fez sambas sobre história do Brasil até que, naquele ano, escolheram um tema complicado para o enredo da escola: atual conjuntura. Aí o crioulo endoidou de vez, misturou as estações, e a letra saiu sem pé nem cabeça!

Suponha que esse episódio se repetisse hoje. Como seria a letra do samba-enredo? Para começar, o compositor teria que construir uma rima que coubesse democracia e um presidente da República sem partido. Difícil, não? Sem ser filiado a um partido, como saber as ideias de qualquer político? Sem conhece-las, como definir o voto? Estupefato, o nosso compositor constatou que o atual presidente se elegeu sem participar sequer de um debate com os outros candidatos. Simplesmente, recebeu um cheque em branco!

Deu no que deu. Ou seja, Bolsonaro revelou-se um presidente inapto para governar. Quem, dentre seus eleitores, se preocupou em avaliar o histórico do então candidato a presidente? Classificado como "mau militar" pelo general Ernesto Geisel, Bolsonaro foi induzido a passar para a reserva após ser descoberto um plano em que ele, junto com outro militar, pretendiam colocar bombas nos quartéis em protesto pelos baixos soldos dos militares. O esboço do plano inclusive foi publicado pela revista Veja, na época. Punido com 15 dias de detenção, acabou sendo absolvido pelo Superior Tribunal Militar, mas teve que deixar a tropa.

Após o episódio, Bolsonaro resolveu ingressar na política e, graças ao voto dos militares (sobretudo os de baixa patente), tem conseguido cargos eletivos nos últimos 30 anos. Considerando que está com 66 anos, então tinha cerca de 36 anos quando deixou de ser militar da ativa. Ao entrar para a reserva, foi promovido de tenente para capitão. Coisa difícil de se entender, mas que é praxe nos meios militares. Tornou-se conhecido pela defesa da ditadura militar, inclusive de torturadores, como o coronel Brilhante Ustra (já falecido), a quem dedicou seu voto no impeachment de Dilma Rousseff.

De lá para cá, Bolsonaro passou por quase todos os partidos de aluguel (o último foi o PSL), criando caso na maioria deles. Atualmente, tenta criar a sua própria sigla, mas, até agora não conseguiu as assinaturas suficientes. Todas as suas promessas de campanha - como a da não reeleição e a mudança da "velha política" - caíram por terra. Desde que tomou posse, governa em nome de uma única causa: a reeleição. E quer política mais velha do que o "toma lá, dá cá" do "Centrão"! Nunca a República foi tão sacudida por "tenebrosas transações" como agora, onde fala-se, inclusive, na existência de um orçamento paralelo só para atender as emendas dos parlamentares governistas em troca de votos.

Bolsonaro deu vida ao eufemismo "regime militar" usado para atenuar a ditadura militar. Encheu os ministérios de militares, muitos deles despreparados para os cargos que ocupam. O caso mais notório é o do ex-ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, principal alvo da CPI da Covid. Tido como especialista em logística, Pazuello tem sido apontado como principal responsável pelo atual colapso do sistema de saúde. Aliás, a culpa não é dele, já que "um manda e o outro obedece". Nesse caso, fica claro quem manda!

Por onde quer que se olhe, tudo parece convergir para uma só pessoa. Isso levou o nosso compositor imaginário a concluir que o melhor mesmo é compor um "Samba de uma nota só". Ou seja, a atual conjuntura está mais para bossa-nova do que para escola de samba.

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