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Só a mão no meu cabelo...

Não era apenas moedinha e balinha que faltava ao par de meninas, mas reconhecimento da sua dignidade

Isto aconteceu numa tarde desta semana, na esquina da Avenida Medianeira com a Avenida Fernando Ferrari: eu estava parada no sinal vermelho quando uma menina se aproximou. Era uma linda criança de cabelos longos, claros, brilhantes, presos na nuca por um elástico de mini-meia. Olhou-me, sorriu e pediu uma moedinha, enquanto uma outra menina, muito parecida com ela, observava tudo da calçada.

Estendi a mão, peguei no seu cabelo macio e falei que não tinha nenhuma moedinha, mas que tinha uma balinha. Ela pegou a balinha com ar de felicidade, comeu e se afastou, em busca de outro carro. A amiga dela, que nos observava, se aproximou do meu. Sem ouvi-la, repeti o que tinha dito a outra, e quando estendi a mão com a balinha, ela não pegou e retrucou: "Moça, eu não quero moeda, só quero que a senhora também passe a mão no meu cabelo".

O sinal verde se apresentou, me afastei pensando que não era apenas moedinha e balinha que faltava ao par de meninas, mas reconhecimento a sua dignidade de pessoa que passa invisível por muitos de nós.

Num mundo tão desigual como este em que vivemos, não cabe mais neutralidade. Há que se escolher o lado. Qualquer opção que se fizer trará sofrimento, rejeição, inimigos, por vezes, mas precisamos lutar por outra realidade, pela redução da desigualdade social, pela partilha do bem material e espiritual, do conhecimento e, sobretudo, da afetividade. Alguns chamam isso de justiça, mas ela está onde a pomos e cada um tem um lugar diferente para ela.

Em casa pensei no capítulo 25 do Evangelho de Mateus, na passagem dos versículos 37 a 40, que relata o diálogo dos justos com o Senhor assim: "... quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, com sede e te demos de beber? Quando foi que te vimos como imigrante e te acolhemos, e sem roupa e te vestimos? Quando foi que te vimos doente ou na prisão, e te fomos visitar? E a resposta foi: Eu garanto a vocês, todas as vezes que fizeram isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que fizeram."

A voz da segunda menina não me saia do ouvido, passei dias recordando o fato vivido, refletindo sobre o quanto a vida nos revela maravilhas e o quanto muitas vezes somos incapazes de tirar o véu para vê-las, porque nossos olhos se embaçam pela cultura que vivemos. Só a percepção seletiva, a sensibilidade, a fé e os valores serão capazes de tornar nossos olhos suficientemente límpidos para identificar a presença do que realmente vale a pena no aqui e agora.

Caro leitor, já te deste conta da maneira como as pessoas tratam as crianças que estão pedindo nas esquinas? Já pensaste no porquê elas estão ali ao invés de estarem na escola estudando, ou em casa brincando? Como reages diante destes pequenos seres? Já tinhas te dado conta que muitas delas querem só a nossa mão no seu cabelo?


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