plural

PLURAL: os textos de Neila Baldi e Noemy Bastos Aramburú

Coluna traz multiplicidade de opiniões e abre espaço ao diálogo

É machismo que chama?
Neila Baldi 
Professora universitária

Naquele setembro de 2018, muitas de nós saímos às ruas para dizer: Ele Não. Infelizmente, ele foi eleito. E o que imaginávamos ocorreu: machistas se sentiram avalizados. Esta semana, na CPI da Pandemia, mais uma vez vimos cenas de machismo explícito. Se no mais alto posto do Executivo as agressões às mulheres são constantes, por que não no Parlamento?

Instalada em 27 de abril, a CPI tem apenas integrantes homens, entre titulares e suplentes. Mas as senadoras costuraram um acordo e conseguiram que representantes da bancada feminina façam perguntas no início das sessões. O acordo não agradou a ala governista que, no dia 5 de maio, teve seus integrantes questionando a presença das mulheres.

COM AVAL

Bate-boca de senadores ofendendo senadoras virou rotina. Tudo porque em 2014 aquele capitão reformado, então deputado, agrediu a deputada Maria do Rosário (PT-RS) e saiu impune no Legislativo - foi condenado por danos morais no STF. Ele já havia empurrado a deputada em uma discussão, em 2003. Se faz o que faz e se elege presidente, por que os outros não fariam também?

Nesta semana, o ministro da Controladoria Geral da União (CGU) agrediu a senadora Simone Tebet (MDB-MS), depois de ela acusá-lo de omissão em relação à compra da vacina da Covaxin e de atuar como "advogado" do presidente - cabe ao órgão investigar irregularidades e não defender o governo. O ministro disse que a senadora estava "totalmente descontrolada".

Em 12 de maio, a senadora Leila Barros (PSB-DF) foi interrompida diversas vezes por um senador governista, que a chamou de "nervosa". Em dia 20 de maio, o ex-ministro da Saúde também interrompeu diversas vezes uma mulher, a senadora Simone Tebet (MDB-MS), enquanto ela tentava fazer perguntas a ele.

Dados do "Elas no Congresso", relativos a 2020, mostram que as mulheres representam 15% do Congresso Nacional e os homens respondem por 74% dos projetos desfavoráveis aos direitos das mulheres. Uma em cada quatro propostas sobre gênero no Congresso prejudica as mulheres de alguma forma.

COTIDIANO

Quando não discutimos o machismo no nosso cotidiano, quando congressistas não são punidos por agredirem ou assediarem mulheres, estimulamos que outros também o façam. O machismo afeta a vida das mulheres de diversas formas. Em média ganhamos 30% menos que os homens, para exercermos as mesmas funções, e ocupamos menos de 1/4 das posições de liderança em empresas. O machismo também mata: a cada hora e meia uma mulher é assassinada no país, que é o quinto no mundo que mais mata mulheres.

Para mudar esse quadro, precisamos de legislação e educação. Mas se quem legisla também agride, fica difícil, né? Talvez, tenhamos que voltar a ocupar as ruas e dizermos: eles não. E mudarmos o jogo na próxima eleição.

Bozo, dona Marisa e o reflexo da "tia"

Noemy Bastos Aramburú
Advogada, administradora judicial, palestrante e doutora

A reforma da Educação, em 1970, introduziu, entre as muitas mudanças, a alteração do modo de tratamento aluno-professor. O estudante começou a chamar o professor de tia (o). Para muitos era algo positivo, pois o aluno deveria ver na (o) profissional alguém familiar, essa aproximação traria resultados positivos para o aprendizado. 

Aliás, a origem dessa nomenclatura vem da década de 1960, das mães que saíam para trabalhar. Muitas mulheres, ao buscar afirmação profissional, recorriam às escolas para cuidar dos filhos e, de certa forma, segundo relatos, "entregar os filhos à tia e não à professora lhes aliviava a culpa". Essa fala é da pesquisadora Izabel Sadalla Grispino, publicada em seu site em março de 2003. 

Contudo, esse tratamento dissimulou a relação de autoridade, pois a criança precisa diferenciar universos e perceber que cada espaço tem os próprios valores. O que ocorria era um hábito destruindo a imagem importante do professor/autoridade para o aluno, criando uma ideologia de afeto e não de educador. 

O componente afetivo deve existir entre aluno-professor, mas a criança precisa, nesta idade, de alguém que lhe oriente com firmeza, que lhe transmita os valores da vida, e o professor produz a "castração" com o mundo. Aliás, Paulo Freire, também busca esse resgate do vocábulo professor no livro "Professora sim, tia não", onde escreve: "Ser professora implica assumir uma profissão, enquanto ser tia é viver uma relação de parentesco. Chamar a professora de tia é, no fundo, uma ideologia que trabalha contra o rigor da profissionalização da educadora, como se para ser boa professora fosse necessário ser pura afetividade". 

As chamadas escolas alternativas, socioconstrutivistas, começaram a rever o tratamento introduzido, nos anos 1970, pois temos visto o resultado desse nefasto entendimento: as pessoas não sabem mais o que significa autoridade, desconhecem o que significa respeitar, principalmente quando há o envolvimento político em suas falas. 

Quem não se lembra do pronome de tratamento dado à companheira de Lula - Dona Marisa, e como se dirigem ao presidente? Bozo. Temos que voltar, urgentemente, ao resgate do respeito aos pais. Quem não respeita pai dentro de casa, não respeita professor, muito menos o presidente da República Jair Messias Bolsonaro.


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