plural

PLURAL: os textos de Marcio Felipe Medeiros e Rogério Koff

Coluna traz multiplicidade de opiniões e abre espaço ao diálogo

Democracia
Marcio Felipe Medeiros
Sociólogo e professor universitário

A democracia pressupõe regras de funcionamento. Cada democracia tem suas particularidades, e os candidatos a qualquer cargo eletivo estão sujeitos ao conjunto de regras que compõem sua estrutura. Portanto, um representante só pode ser eleito pois participou de um processo eletivo, no qual existem regras e limites de atuação, e ao final, aquele candidato recebeu uma quantidade de votos suficiente para ser eleito. A democracia, neste quesito, é como qualquer jogo, no qual ao entrar em uma quadra cada jogador já sabe o que pode e não pode fazer.

CASO TRUMP

Trump, enquanto presidente dos EUA, está indo na contramão do processo democrático e, por isto, é o primeiro presidente a ter dois pedidos de impeachment aprovados pela Câmara de seu país. Isto se deve, justamente pelo fato de não querer respeitar as regras do jogo eleitoral norte-americano. O caso é semelhante ao que ocorre em campeonatos, quando o time que adoramos perde, começamos a culpar o juiz e criar teorias que o mesmo foi pago para favorecer o time A ou B, ao invés de aceitar a derrota. No caso de Trump, ao invés de aceitar a derrota, está provocando um levante contra o sistema político, incitado atos de protesto, sendo o mais recente a invasão do Capitólio.

FRAGILIDADE DAS DEMOCRACIAS

A incompreensão do processo de organização das democracias, em várias partes do mundo, tem levado a ataques sistemáticos aos processos eleitorais. Quando determinados candidatos não ganham, rapidamente insinuações de corrupção sem provas são levantadas. Por óbvio, o sistema político, enquanto construção sócio-histórica, tem suas limitações que eventualmente podem e devem ser revisadas. O caso é que a revisão das regras eleitorais deve ser realizada antes da eleição acontecer, e não após o resultado não ser o que o candidato "x" ou "y" espera.

Além disso, as democracias envolvem diálogo, negociação e respeito. Democracia, em tese, é antagônica a regimes totalitários. Enquanto no totalitarismo existe o pensamento do governante e qualquer um que discorde sofrerá retaliação, democracia é favorável à pluralidade de pensamento e expressão. No entanto, a liberdade não é licenciosidade, ou seja, liberdade em uma democracia não é fazer quaisquer coisas que eu deseje, mas agir racionalmente dentro das regras de funcionamento da democracia. No caso dos EUA, o impeachment está relacionado ao fato de Trump tentar de formas antidemocráticas permanecer no poder e romper com as regras democráticas estabelecidas.

O elefante e seu advogado
Rogério Koff
Professor universitário


Por que, em geral, as discussões sobre política são ideológicas, emotivas, polarizadas, extremas e tão pouco racionais? Um dos convidados para o ciclo de palestras Fronteiras do Pensamento deste ano pode ter algumas respostas. Em seu livro The Righteous Mind (A Mente Moralista), o psicólogo norte-americano Jonathan Haidt analisa por que temos tanta dificuldade de chegar a consensos quando os temas são política, moralidade ou religião.

O modelo de Haidt é chamado de social-intuicionista. Sua tese é de que a origem dos juízos morais ocorre primeiramente com base em intuições. O processo de racionalização surge depois, para justificar opiniões já formadas a partir de emoções originais. Ainda que estas racionalizações morais falhem ou sejam desafiadas por outros interlocutores, é raro ver pessoas mudarem suas convicções. "Intuições vêm primeiro, o raciocínio estratégico vem depois", escreve Haidt.

A MENTE MORALISTA

Para explicar o funcionamento da mente moralista, Haidt criou uma metáfora: um condutor guiando um enorme elefante. O condutor representa nossa consciência e razão. É a parte da mente que está desperta e é capaz de realizar cálculos estratégicos. O elefante representa as emoções e intuições mais profundas; aqueles 99% de processos mentais que não são conscientes e que governam a maior parte das crenças e comportamentos humanos. O condutor é um produto da evolução e surgiu no momento em que os seres humanos desenvolveram a linguagem abstrata. Ele realiza um trabalho útil: é uma espécie de advogado em tempo integral do elefante.

A imagem elaborada por Haidt está em consonância com a tradição empirista do escocês David Hume (1711-1776), para quem a razão era e só poderia ser uma escrava das paixões. O condutor não foi colocado lá para perseguir a verdade, mas para servir e justificar os movimentos do elefante.

O ELEFANTE É QUEM MANDA

O livro de Jonathan Haidt mostra que os seres humanos são racionalizadores morais. Eles "se sentem" de certa maneira em relação a uma questão e em seguida criam uma justificativa aparentemente racional para este sentimento. Tenho visto intelectuais e professores universitários declarando que Lula é inocente e que a operação Lava Jato foi uma fraude. Os mesmos não admitem que o PT e seus aliados montaram a maior rede de corrupção já vista no planeta. São pessoas supostamente cultas (até prova em contrário), com formação acadêmica e título de doutor.

Alguns chamam o presidente Bolsonaro de genocida, quando até meus cachorros de estimação sabem que o STF delegou a Estados e municípios autonomia para combater a pandemia. Por qual razão negam evidências e parecem raciocinar com o fígado? Provavelmente estão advogando para seus elefantes, lutando desesperadamente para defender as crenças indefensáveis de seus paquidermes.

*Este texto foi originalmente publicado na página 8, da edição de 29 e 30 de agosto de 2020.


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