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OPINIÃO: Pena que não tenha sido simplesmente o dia do amor

15 Maio 2018 08:31:00

Nos últimos 30 anos, pouco mudou e o preconceito racial não se retraiu ou perdeu forças


Mais uma semana se inicia e já estamos a 15 dias do sexto mês do ano. Domingo foi Dia das Mães, dia em que se completaram 130 anos da Abolição da Escravatura, dia de Nossa Senhora de Fátima e dos Pretos Velhos.

A propósito da Princesa Izabel, dos fazendeiros de café, dos senhores de engenho e de tudo quanto se pensava sobre o tema abolição e suas danosas consequências sociais e econômicas, em 1988, quando das "comemorações" do centenário da Lei Áurea, escrevi em Razão a crônica "Pelo 13 de Maio ou Por Todos os Dias", incluída, em 1989, no livro Recortes do Cotidiano, organizado por Orlando Fonseca, com participação de Máximo Trevisan, Humberto Zanatta e Gustavo Quesada. Eis a crônica:

"Liberdade não é apenas uma palavra bonita. Sua natureza não se esgota na livre manifestação do pensamento, no sagrado direito de ir e vir, na possibilidade de opção, sem constrangimentos, por credos, filosofias ou ideologias, de escolhermos, enfim, nossos próprios caminhos e os rumos que seguiremos. É engano pensar que o conceito de liberdade se limita pelos parâmetros das chamadas liberdades públicas ou que se esgota no arcabouço dos direitos individuais institucionalmente assegurados. Liberdade pressupõe um estado de bem-estar social que só se conquista - vencidas as etapas de reconhecimento daqueles - ao custo de muita luta, pois como pensar que pode ser livre o homem cujos filhos não tem acesso à escola?

Como pensar que pode ser livre o homem que não tem teto para oferecer aos seus filhos? Onde estaria sua liberdade, na possibilidade de optar entre os desvãos das pontes ou as malocas das bocas de rua? Como pensar que pode ser livre o homem que não tem acesso à saúde? Sua liberdade residiria na opção entre morrer por doenças endêmicas ou por uma gripe virótica? Como pensar que pode ser livre o homem que não tem acesso ao trabalho? Sua liberdade se fundamentaria na opção entre a fome e a delinquência? Como pensar que pode ser livre o homem que não tem acesso ao pão? Sua liberdade se consubstanciaria na possibilidade de escolha entre o furto famélico e a mendicância? Ou, quem sabe, no alvitre de escolher, qual cão de rua faminto, que latas de lixo vasculhar em busca dos restos que nossa fome saciada rejeita?

Não, não haverá a verdadeira liberdade, sem a qual não há democracia, sem que as desigualdades sociais (e não apenas as jurídicas) sejam vencidas. A liberdade será uma ficção enquanto uns poucos tiverem em excesso o que falta para que a maioria tenha um mínimo de condições de vida digna. Não nos podemos iludir ante a perspectiva de conquistas, no plano jurídico-formal, que não se traduzam em resultado prático na transformação das condições de vida da maioria da nossa gente."

Nos últimos 30 anos, pouco mudou e o preconceito racial não se retraiu ou perdeu forças. Perdeu foi a vergonha se expor e, mais do que nunca, se manifesta no cotidiano de todos nós. Pena, que, sendo este 13 de maio também dia consagrado às mães e, usualmente, a N. S. de Fátima e aos Pretos Velhos, não fosse ele simplesmente o Dia do Amor, que amor maior não haverá que o nascido da maternidade, seja ela real ou simbólica, ou da humildade de quem ensina pelo exemplo e pela experiência.


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